Desenrola oferece alívio, mas precisa que juros sejam reduzidos

Alívio trazido pelo Desenrola 2.0 não resolve problema estrutural, com juros altos e baixa educação financeira. Especialistas aprovam restrição a bets

274
Dinheiro (foto de Marcello Casal Jr., ABr)
Dinheiro (foto de Marcello Casal Jr., ABr)

O programa de renegociação da dívida lançado pelo governo (Desenrola 2.0) para aliviar o fardo financeiro das famílias endividadas oferece alívio a curto prazo, mas precisa ser acompanhado por uma expansão do crédito por meio da redução da taxa de juros para gerar efeitos mais sustentáveis, segundo especialistas.

Vinicius Rodrigues Vieira, professor de economia e relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas e da Fundação Armando Álvaro Penteado (Faap), afirmou que a iniciativa proporciona algum alívio às famílias, embora não aborde os fatores estruturais do endividamento no país.

“É um programa que traz alívio, mas não resolve o problema estrutural do endividamento familiar no Brasil, porque temos um contexto de baixa educação financeira, mas sobretudo, onde os preços aumentam devido a fatores externos, como a guerra com o Irã”, afirmou em entrevista à agência de notícias Xinhua.

O economista acrescentou que o atual nível das taxas de juros limita uma recuperação mais ampla do crédito. “Nesse cenário, o ideal seria uma queda na taxa de juros brasileira, mas a taxa de juros não está caindo porque o governo, na percepção do mercado, está gastando demais, ou seja, gastando em excesso”, afirmou, antes de alertar sobre as restrições no mercado interno e no crédito.

Espaço Publicitáriocnseg

Rodrigues Vieira relacionou o fenômeno do endividamento às mudanças nos hábitos de consumo, incluindo o aumento do jogo. “E a questão das apostas e das compras digitais também acaba servindo como incentivo para um país que carece de educação financeira e que gosta muito de jogar”, observou, afirmando que as pessoas buscam elevar seu status por meio do jogo digital.

LEIA TAMBÉM:

Governo lança o Desenrola 2.0: veja os detalhes | Monitor Mercantil

Nicola Tingas, economista-chefe da Associação Nacional de Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), concordou que o país enfrenta um problema estrutural na oferta de crédito, com linhas de crédito caras sendo utilizadas por famílias para financiar despesas correntes.

Segundo Tingas, esse fator é agravado pelo atual contexto de altas taxas de juros e pelo impacto do jogo nos orçamentos familiares, o que reforça a fragilidade financeira. Dados oficiais indicam que o Brasil atingiu 82,8 milhões de endividados em março, o maior nível da série histórica, após 15 meses consecutivos de aumentos.

Outro relatório mostra que, dependendo da região, a relação dívida/renda dos brasileiros varia entre 71,9% e 80,5%, bem acima do indicador do Banco Central do Brasil, que era de 29,7% em fevereiro passado, já que a autoridade monetária não inclui despesas básicas em seu cálculo.

Em relação aos hábitos financeiros, uma pesquisa do Quaest de abril passado indicou que 32% das pessoas com renda familiar entre dois e cinco salários mínimos jogam, em comparação com 26% entre aquelas que ganham mais de cinco salários mínimos e 24% entre aquelas com renda de até dois salários mínimos.

Nesse contexto, o programa incorpora restrições de acesso a plataformas de jogos de azar online para seus beneficiários, como parte de uma estratégia para reduzir o vício em jogos de azar.

“Nosso objetivo é manter essas pessoas longe dessas plataformas por 12 meses. Portanto, acreditamos que estamos criando incentivos e contribuindo para a redução do vício em jogos de azar”, disse Débora Freire, secretária de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

A secretária explicou que estudos oficiais identificaram uma alta correlação entre dívida e acesso a essas plataformas, o que motivou a inclusão da medida.

Siga o canal \"Monitor Mercantil\" no WhatsApp:cnseg