Desmonte

Principal corolário do objetivo declarado do presidente FH de pôr fim à Era Vargas, a marcha batida do país para a República Velha recebe importante impulso da redução da Previdência Social a mera questão fiscal. Tanto no Império, quanto na República Velha, os baixos salários pagos ao funcionalismo transformaram a função num “bico”. Para compensar a remuneração irrisória, foi instituída, e largamente tolerada pelos governos, a prática dos emolumentos. Precursora do famoso PF (por fora), esse expediente consentia em permitir ganhos extras, principalmente, aos funcionários mais graduados. O responsável pela fiscalização do desembarque de açúcar, por exemplo, tinha direito a recolher parte da mercadoria para ele. O mesmo consentimento era estendido a ocupantes de outras funções públicas. Não por acaso, era comum nobres se oferecerem para prestarem serviços gratuitos ao Estado. Historiadores mais recentes, como João Luiz Fragoso, Maria Fernanda Bicalho e Manolo Florentino, que se dedicam ao estudo do fenômeno, o batizaram de economia do bem comum.

Acertando o passo
O debate “Mundo Pós-Neoliberal”, no III Fórum Social Mundial (FSM), reunirá pensadores como Noam Chomski, Tariq Ali, István Mészáros e o ministro da Reforma Agrária, Miguel Rossetto. O evento, segundo seus organizadores, visa “a uma aproximação das diversas correntes políticas críticas ao pensamento neoliberal”. Estima-se em Porto Alegre que esse debate reflita em boa parte o discurso a ser feito pelo presidente Lula em Davos.

Razõe$ de Bush
A preocupação com a política belicista do governo Bush domina grande parte dos debates e dos bastidores do Fórum Social Mundial. O deputado André Brie, do Partido do Socialismo Democrático (PDS),  que governa a Alemanha, contou que, em recente viagem ao Iraque, encontrou um país com crianças morrendo por falta de medicamentos, provocada pelo embargo da ONU. Para o parlamentar alemão, os Estados Unidos querem atacar o Iraque por este país ocupar uma região estratégica. Economicamente, tem a segunda maior reserva de petróleo do planeta e geopoliticamente, está próximo de Israel, Arábia Saudita e Irã.

Lá & cá
O FSM serviu para expor, mais uma vez, as diferenças do governo Lula e do PT. Enquanto o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, reafirmava a postura conservadora da gestão econômica, o ministro da Reforma Agrária, Miguel Rossetto, afirmava que somente com a mobilização no campo a reforma agrária poderia ser feita, mesmo ressaltando “o compromisso do governo de realizar a reforma”. Palocci tentava acalmar o “mercado” e Rossetto recebia palmas de organizações como MST e Via Campesina.

Custo de vida
Alguns preços mostram que, mesmo com a inflação em alta por aqui, os preços continuam bem mais em conta que na Europa. Na França, segundo dados coletados pela Maison de France, um tablete de manteiga (250g) custa em média 1,28 euros (cerca de R$ 4,35 – no Brasil sai por menos de R$ 3). O litro de leite é vendido a partir de 0,80 euro (R$ 2,72 – aqui fica em torno de R$ 1,40) e o pacote de café (250g) varia entre 0,91 e 2,51 euros (R$ 3 e R$ 8,5 – aqui, terra do café, pode ser encontrado até pela metade do valor mais baixo – mas de qualidade questionável, claro). Caro mesmo são as carnes: um quilo da bovina custa o equivalente a R$ 42 e o de frango sai por R$ 20. Vantagem os franceses só levam no salário e na garrafa de vinho, entre R$ 6,80 e R$ 13,60 o regional – mas regional de lá. Em tempo, inflação e custo de vida são conceitos que não se misturam.

Nem o cafezinho
Habitantes do país do cafezinho, os brasileiros podem enfrentar em breve a escassez do produto. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), as indústrias de café torrado e moído já estão às voltas com problemas de abastecimento. Em pleno período da entressafra, o setor também sofre com a pouca oferta de matéria-prima (café verde), devido a uma queda, que segundo previsão feita, no fim do ano passado, pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), pode chegar a 40% na próxima colheita. Com isso, produtores e  vendedores de café verde travam o mercado para elevar os preços. No fim de dezembro, uma saca do café custa, em média, R$ 110. Em 22 de janeiro, esse valor já saltara para R$ 140, alta de 27%.

Novo enredo
Jornalista ligado ao PT garante que não vai se surpreender se o governo Lula mudar – e bota mudança nisso – o tom da política econômica no início de março.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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