"Deus me livre de querer cestas básicas."

Empresa Cidadã / 11:27 - 13 de fev de 2001

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(Zilda Arns Neumann, da Pastoral da Criança) Onze mil quilômetros separam Porto Alegre (RS) de Davos (Suíça). Maior é a distância entre países ricos e pobres, como mostrou o confronto de idéias e, sobretudo, de ideais estabelecido entre o Fórum Social Mundial de Porto Alegre e o Fórum Econômico Mundial de Davos, realizados simultaneamente, agora em janeiro. Em Genebra, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, apresentou um relatório de 87 medidas sugeridas para reduzir as disparidades entre as economias do Hemisfério Norte e do Hemisfério Sul. ( Do relatório da ONU, conclui-se que os investimentos estrangeiros diretos (IED) nos países mais pobres aumentaram de US$ 178 bilhões em 1997 para US$ 190 bilhões em 2000. Que os países doadores destinaram, em média, 0,24% do seu PIB para ajuda financeira aos países mais pobres em 1999, menos do que os 0,33% de 1992, e que apenas Dinamarca, Holanda, Noruega e Suíça atingiram o percentual já combinado de 0,7%. Cesta básica ? ( Os países mais ricos precisam ser doadores para as suas economias não estiolarem, como aconteceu com a do Japão nos anos 90. Tanto assim que a principal medida proposta do relatório de Kofi Annan é a do fim das barreiras alfandegárias impostas a bens e serviços exportados pelas nações mais pobres. E não se referiu às barreiras técnicas ou fito-sanitárias, do tipo vaca louca Canadá-Bombardier contra a carne brasileira. ( Armada até os dentes para se defender de um ataque dos santos guerreiros contra o dragão da maldade da globalização, como o que levou ao fracasso de Seattle, de 1999, Davos ocupou-se de discutir os efeitos da desaceleração da economia americana sobre a economia global, que pode custar até um ponto percentual do seu crescimento. Alternativamente, Porto Alegre discutiu os efeitos perversos da globalização da economia sobre o crescimento das economias mais pobres. ( Freqüentaram o Fórum Social Mundial algumas das personagens mais exóticas do palco da desobediência ao pensamento hegemônico do neoliberalismo. José Bové foi. O ativista francês aproveitou para invadir e destruir parte da plantação de soja transgênica da multinacional Monsanto. Resultado: mais notoriedade, detenção pela Polícia Federal até Bové assinar notificação com compromisso de deixar o país em 24 horas, a aplicação da Lei dos Estrangeiros, respaldada pela Advocacia Geral da União e concessão de mais 24 horas pela Justiça Federal de Porto Alegre. ( Enquanto isso, no Rio de Janeiro, seguranças da loja Carrefour, grupo multinacional francês como Bové, mantiveram em cárcere privado duas mulheres acusadas de furtar bloqueadores solares e as teriam entregado à marginalidade do bairro Cidade de Deus, além de editarem a fita de vídeo do circuito interno de vigilância, posteriormente entregue à polícia. Os seguranças estão detidos mas nada se disse sobre a aplicação da Lei dos Estrangeiros, neste caso. É a versão Cidade de Deus da globalização. Diferente da de Porto Alegre. ( Diferente do que parte do noticiário pode ter sugerido, sugestão reforçada pela diversidade das conclusões de mais de 400 oficinas, o Fórum Social Mundial de Porto Alegre não foi um evento antiempresa. Bem ao contrário, o que deve ser percebido é a manifestação de que saúde e educação constróem mercados com maior capacidade de aquisição. Que meio-ambiente é o maior patrimônio a ser legado entre gerações. Que ética, democracia e solidariedade são valores que atraem investidores, fidelizam consumidores e entusiasmam colaboradores. Em Porto Alegre falou-se, portanto, da empresa na sua forma mais requintada - a empresa-cidadã. QUALIDADE DE EMPRESA-CIDADÃ Com o objetivo de aumentar a eficácia de escolas públicas de ensino fundamental, envolvendo professores, administradores, alunos, pais e comunidade em geral, a Fundação Vale do Rio Doce iniciou, em 1999, o projeto Escola Que Vale. Na primeira fase foram realizadas oficinas de mobilização com a presença de 900 professores e 3 mil participantes e o projeto piloto foi concluído em 2000 abrangendo 25 escolas, 8.950 alunos e 254 profissionais de ensino de seis municípios dos estados do Pará, Maranhão, Espírito Santo e Minas Gerais. ATÉ A PRÓXIMA Este é o ano internacional do voluntário. Na próxima quarta-feira, esta coluna mostrará o papel da empresa-cidadã na valorização do trabalho voluntário e o quanto ela pode se beneficiar dele.

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