Dinheiro tem, mas isso não é tudo

Por Ranulfo Vidigal.

Na publicação denominada Marcha da Insensatez, a escritora Bárbara Tuchman mostra momentos da história em que governantes têm comportamento míope e até irracional. Guardadas as devidas proporções, um desabafo de um morador de Campos dos Goytacazes (cidade de mais de 500 mil habitantes) – considerada a capital do açúcar e do petróleo – deixa claro o conjunto de preocupações que assolam os contribuintes que já depositaram mais de R$ 200 milhões somente este ano nos cofres municipais, na forma de impostos diretos e indiretos:

“Uma das cidades mais ricas do Brasil, que vive de Facebook e Instagram, nas páginas tem tudo, na realidade perdeu tudo. Americano e Goytacaz sumiram, áreas de lazer não existem, ou abandonadas, política habitacional não existe, transporte não existe, prédios históricos estão caindo, roteiro turístico não existe, postos de saúde fechados ou precários, vias esburacadas, iluminação deficiente, urbanização não tem, guarda municipal ninguém sabe o que fazem, agricultura abandonada, usinas paradas… Esqueci algo?” indaga o contribuinte chateado.

Nesse contexto, o Diário Oficial do poder público local chega esta semana à portaria número 1740 de nomeação de cargos comissionados, e o Legislativo, ao número 488. Isso deveria significar maior qualidade na entrega de serviços público, mas as reclamações generalizadas contra o transporte público, as filas de vacinação, a falta de programas sociais compensatórios em maior escala, o abandono da classe artística e até da efetividade no setor de segurança revelam uma crescente sensação de situação-limite, ou de quase colapso administrativo do poder público, diante da retomada paulatina da atividade produtiva na cidade, embora a arrecadação total nos cofres da administração já tenha superado R$ 1 bilhão, até agora. Inacreditável.

O funcionalismo contabiliza perdas, na forma de corte no auxílio-alimentação (o famoso “cheque coxinha”) e no aumento da alíquota efetiva de descontos nos salários brutos de 33%, para custear as futuras aposentadorias dos 15 mil servidores municipais.

Uma das qualidades mais importantes de um governante é sua capacidade de reduzir o impacto de crises – fenômeno que deveria ser tratado de maneira estratégica e planejada.

 

Ranulfo Vidigal é economista.

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