Diversidade nos conselhos de administração

Por Jandaraci Araújo.

Opinião / 16:19 - 30 de out de 2020

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Nas últimas semanas, a grande pauta foram as políticas de ação afirmativa para inclusão de jovens pretos(as) em programas de trainee/estágio, promovidas pela iniciativa privada, que foram alvo de vários questionamentos, inclusive sobre a legalidade dessas ações – tema superado com o parecer técnico do MPT. Os programas de trainee são fundamentais para a formação de novas lideranças; no entanto, existe uma gama de profissionais pretos e pardos que estão em posições de alta liderança ou estão aptos para ocupar posições estratégicas nas organizações, como, por exemplo, os conselhos de administração das empresas – o board.

A pauta sobre diversidade em conselhos de administração não é nova. No entanto, é basicamente focada no pilar diversidade de gênero; não que as mulheres estejam em vantagem, longe disso. Segundo estudo realizado pela Spencer Stuart (“Brazil Board Index 2019”), o percentual de mulheres em conselhos nas empresas avaliadas é de apenas 10,5%, uma das mais baixas na comparação com outros países, mas é considerado um avanço no comparativo com o estudo anterior.

E por que se tem falado tanto de diversidade também nos conselhos de administração? Para que possamos ficar na mesma página, os conselhos de administração são a base da governança corporativa, responsáveis por monitorar e dar orientação à gestão executiva e principalmente gerar valor no longo prazo. E como gerar valor no longo prazo sem pessoas com perspectivas diferentes, sem a disrupção que diferentes origens e backgrounds podem proporcionar?

São vários estudos que comprovam o aumento do lucro e maior inovação que a diversidade proporciona. E a pergunta que não quer calar é: o que falta para termos mais diversidade de gênero e racial nos conselhos de administração.

Por um lado, os “clientes”, atentos e cada dia mais engajados em consumir ou se relacionar com empresas éticas e com propósito claro. De outro lado, os investidores, valorizando não apenas o lucro, mas também o impacto social e ambiental das empresas investidas. Trata-se de ESG (Enviromental, Social and Governance), na prática, as três letrinhas que viraram trend topics quando o assunto são investimentos.

E a diversidade racial está ligada diretamente ao Social, assim como práticas não-discriminatórias com as demais diversidades. Estamos em um caminho que não permite retrocesso ou práticas como o “diversity washing”, só para escurecer o último termo, são empresas diversas da porta para fora apenas na publicidade, por exemplo.

Será que faltam profissionais pretas(os) prontos para ocupar posições nos conselhos de administração? Ou é apenas uma cegueira seletiva que ignora vários profissionais pretos que possuem uma carreira sólida e já ocupam posições de alta liderança? Seriam os algoritmos das redes sociais e profissionais? Bem, vou tentar otimizar a indexação e espero que não dê bug, falando da “cota da cota”, as mulheres pretas.

As mulheres pretas no Brasil estão na base da pirâmide; mesmo quando possuem qualificação e experiência suficientes, chegam a ganhar 159% a menos de acordo com o estudo recente do Insper (“Diferenciais Salariais por Raça e Gênero para Formados em Escolas Públicas ou Privadas – 2020”), o que nos coloca no modo sobrevivência.

No entanto, somos várias e me incluo nesse rol, que romperam o teto de vidro blindado do mercado corporativo, hackearam o sistema e são referências em suas áreas, apenas não conseguiram burlar o algoritmo. São mulheres pretas que, apesar das barreiras impostas – socioeconômicas, gênero e racial – avançaram e estão aptas a ocupar posições em conselhos de administração. Consegue imaginar o quão articuladoras, inovadoras e a alta capacidade de adaptação que possuem.

Assim como meus ancestrais, acredito no poder do coletivo; só iremos avançar e transformar o status quo corporativo quando várias avançarem. “Se que ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá em grupo.”(Provérbio africano). Não é uma história única, são várias histórias potentes que irão inspirar os mais jovens a acreditarem que podem chegar lá.

Ser a única em espaços de liderança é escolha, sempre há como incluir mais uma, todos são agentes de transformação. Não há mais espaço para histórias únicas, histórias únicas não transformam, não mostram a força e a importância de todo um grupo, afinal somos 27% da população brasileira.

É com essa visão que eu integro, como co-founder, o projeto Conselheiras 101, que selecionou 20 mulheres pretas e pardas altamente capacitadas, empoderadas, líderes e de diferentes backgrounds para participar do programa, que tem por objetivo de ampliar o conhecimento de lideranças negras nos temas relacionados ao papel de conselheira, responsabilidades, formação, desafios, assim como incentivar o networking das participantes dentro da comunidade de conselheiros e empresas. O programa tem o apoio do WCD e KPMG.

Conectem-se e sigam essas mulheres incríveis que estão comigo nessa jornada para o próximo step na carreira – os conselhos de administração. São elas: Ana Fontes, Ana Tércia Lopes Rodrigues, Andrea Cruz, Christiane Ferreira Neves, Dilma Campos, Elisângela Almeida, Fernanda Santiago, Ianda Lopes, Mônica Marcondes, Patricia Garrido, Roberta Anchieta, Suellen Rodrigues, Valentine Giraud,Vânia Neves, Viviane Elias Moreira e Lisiane Lemos, que foi a catalisadora desse movimento quando há 3 meses fez um post questionando os programas de diversidade. “As pegadas das pessoas que andaram juntas nunca se apagam.” (Provérbio africano). Vamos ajudar o algoritmo e ampliar as possibilidades?

Jandaraci Araújo

Subsecretária de Empreendedorismo Micro e Pequenas Empresas do Estado de São Paulo e diretora-executiva do Banco do Povo Paulista.

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