Dólar caiu com Lula e subiu com Bolsonaro

Moeda não deve ter grandes oscilações nestas eleições.

Por Gilmara Santos, especial para o Monitor

 

As eleições presidenciais trazem um período maior de incerteza e tendem a empurrar para fora o capital externo. Esse cenário foi observado nos últimos pleitos, mas neste ano, como os candidatos que lideram as pesquisas já sendo conhecidos pelo mercado, a tendência é que o impacto seja menor, conforme avaliam os analistas. Sem uma terceira via definida, pelo menos por enquanto, a disputa está concentrada entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Em outras eleições tivemos sempre muita volatilidade principalmente atrelada às pesquisas eleitorais e à indecisão sobre quem seria o candidato vencedor. Este ano, o mercado está consolidado em dois grandes favoritos e já está precificado, mercado entende como os dois trabalham, trabalharam e devem trabalhar. Se não tiver novidade grande entre os nomes que estão à frente da pesquisa e entre as posturas deles, não devemos ter grande volatilidade referente ao ano eleitoral”, considera Yuri Cavalcante, sócio e assessor da Aplix Investimentos.

Levantamento realizado por Filipe Ferreira, da Comdinheiro, mostra que durante os dois mandatos de Lula – entre 2003 e 2010 – o dólar teve desvalorização de 7,73%, em média. Nos governos seguintes foi observada apenas valorização das moedas. Entre 2019 e 2021, os três anos do governo Bolsonaro, houve uma valorização de 13,44%. Durante o mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (de 2011 a 2015), a elevação média foi de 19,31%; e no governo do ex-presidente Michel Temer (2016 e 2018), a alta foi de 0,69%.

Se considerarmos apenas os anos de eleições, em 2002, ano em que o ex-presidente Lula foi eleito pela primeira vez, a moeda apresentou valorização de 52,27%. À época, havia muitas incertezas quanto à política econômica que seria adotada pelo novo mandatário. No pleito seguinte, a reeleição do petista já não assustou tanto o mercado, e o dólar se desvalorizou 8,66% em 2006. Na primeira eleição de Dilma, em 2010, a moeda apresentava queda de 4,31%. Com as incertezas criadas pela disputa mais acirrada entre Dilma e Aécio Neves em 2014, o dólar apresentou alta de 13,39%. E em 2018, com Bolsonaro e Fernando Haddad disputando o pleito, a moeda subiu 17,13%.

“Período maior de incerteza acaba empurrando para fora o capital externo. Então, não entrando e saindo eventualmente dólar por incerteza, você tende a puxar a cotação para cima. Essa puxada pode ser muito esticada antes. Neste cenário que a gente está passando agora é bem diferente. A gente já tinha uma cotação alta do dólar vindo das incertezas da pandemia. Agora está num período elevado de cotação do dólar, mas já houve uma redução em relação a 2021”, comenta Filipe Ferreira. “Não que a incerteza aqui seja baixa. Muito pelo contrário, mas a gente teve uma correçãozinha vinda de cenário pós-pandemia”, complementa.

Ele destaca que é natural que o dólar se descole do real por causa da tendência inflacionária. “Mas isso quando tem período de maior incerteza e de fluxo de capital fugir do Brasil. Tem essa tendência também de subir. No começo dos anos 2000, os produtos agrícolas estavam muito em voga no mundo, e isso chama dinheiro para o Brasil, que vende muito produto agrícola. Se pega o cenário pós 2010, isso se inverte, a pressão muito forte pela saída de dólar tem esse deslocamento maior”, avalia.

 

Sem tormentas nas contas externas

Para Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, antes das eleições existe um envolvimento grande com o que é debatido e proposto pelos principais candidatos. “Nesta eleição, temos candidatos com experiências de governo e uma moeda que está se confundindo com o ambiente externo volátil. Tende a ganhar um momento mais delicado próximo a setembro e outubro”, diz.

Em relação às contas externas, Cruz considera que, com todo contexto de commodities em alta por muito tempo, devemos ter o setor exportador em destaque ao longo do ano. “As exportações devem crescer em um ou outro ponto específico, com fertilizantes pesando bastante no primeiro trimestre. A expectativa é que o investimento no país fique mais especulativo nos próximos meses, talvez pós-eleições a gente consiga ver um fluxo de investimento mais concreto, de longo prazo, tirando as incertezas da frente. As reservas não devem ser mexidas até as eleições, devem ser debatidas das eleições para frente”, afirma.

“As reservas brasileiras, para passar por esse cenário de instabilidade global, temos um cenário historicamente robusto. A gente sofreu por conta da crise nos últimos anos, mas as contas não sofreram tanto com esperado em 2021, nosso saldo frente a outros momentos de crise está relativamente alto”, comenta Yuri Cavalcante, da Aplix Investimentos.

De acordo com ele, esse não deve ser ponto mais preocupante para este ano. “O ponto principal que devemos monitorar quando se fala em câmbio nos próximos meses é a inflação americana. Cenário vai balançar por conta das eleições, mas não tanto quanto nas últimas e deve ser ofuscado pela inflação americana”, finaliza Cavalcante.

Leia também:

Dólar sobe para R$ 5,18 e fecha no maior valor em quatro meses

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Artigos Relacionados

Fintechs emprestaram mais de R$ 12 bi em 2021

Crédito é quase o dobro do ano anterior, diz pesquisa da ABCD e PwC Brasil

Adquirir conhecimento é a chave para investir melhor

Para economista, medo é o mesmo sentimento que se tem do desconhecido

Bancos elevam projeção da carteira de crédito para 2022

Nova revisão foi puxada pela carteira com recursos livres

Últimas Notícias

BNDES: R$ 317,2 milhões nos aeroportos de Mato Grosso

Ao todo serão investidos R$ 500 milhões nos quatro aeroportos, com participação de 65% do BNDES

Fintechs emprestaram mais de R$ 12 bi em 2021

Crédito é quase o dobro do ano anterior, diz pesquisa da ABCD e PwC Brasil

Regulador divulga primeiro balanço sobre o 5G em Portugal

No final do primeiro trimestre, já havia 2.918 estações de rede 5G espalhadas por 198 cidades (64% das cidades)

Está mais fácil comprar carro na China

Vendas no varejo de veículos de passageiros atingiram 1,42 milhão de unidades durante o período de 1 a 26 de junho

Adquirir conhecimento é a chave para investir melhor

Para economista, medo é o mesmo sentimento que se tem do desconhecido