Conversamos com Danilo Igliori, economista-chefe da Nomad, sobre o comportamento do dólar em 2025 e as suas perspectivas para 2026.
O que tem pautado o comportamento do dólar em 2025?
O principal fator tem sido o governo Trump. Por trás das flutuações de uma taxa de câmbio, existe uma lista de fatores domésticos e internacionais que ajudam a analisar os movimentos quando eles são olhados na lupa, mas em termos de tendência, o dólar perdeu cerca de 15% do seu valor em relação às principais moedas neste ano, algo que não acontecia há muito tempo.
Isso, claramente, tem a ver com a percepção de investidores institucionais, bancos centrais e governos de que a incerteza gerada pelo governo Trump aumentou muito. Com isso, eles estão repensando as suas concentrações de investimentos nos Estados Unidos e tirando um pouco do peso do país nas suas alocações, e quando saem recursos dos Estados Unidos, o dólar se enfraquece.
No cenário doméstico, existem fatores relacionados aos problemas fiscais, mas, neste ano, esses fatores têm sido menos importantes que o fator estrutural gerado pelo governo Trump.
Como o dólar deve se comportar até o final do ano?
Como tendência, ainda existe espaço para uma desvalorização do dólar em termos globais. A questão é que já começa a aparecer aqui dentro uma discussão mais acirrada sobre os cenários fiscais levando-se em consideração o cenário eleitoral e o que pode acontecer em 2027.
A derrota do governo na semana passada em relação a MP 1303/2025 trouxe para o debate as discussões fiscais que, de alguma forma, haviam sido muito amortecidas durante o ano por conta do novo contexto internacional gerado pelo governo Trump. Por exemplo, na semana passada o dólar ganhou um pouco de valor em relação às principais moedas, sendo que aqui esse efeito foi pouco potencializado por conta da derrota do governo.
Se não houver um novo evento do ponto de vista fiscal, que deteriore muito o humor aqui dentro, existe espaço para que o câmbio vá a R$ 5,15, R$ 5,20, mas eu diria que R$ 5,30 é um bom número para o final de 2025.
A valorização do real frente ao dólar está em linha com o comportamento das outras moedas?
Sim, está, mas o real tem ganho um pouco mais de espaço em relação às outras moedas. Pelo DXY, que é um índice que acompanha o desempenho do dólar em relação a uma cesta de moedas de países desenvolvidos, a moeda americana, até o início de outubro, tinha perdido 10% do seu valor no ano. Se olharmos para os nossos vizinhos, o dólar perdeu 9% do seu valor em relação às moedas do Chile, Colômbia e México, sendo que em relação ao real, ele perdeu quase 15%.
Esse resultado um pouco mais acentuado do real tem duas razões. A primeira foi a forte desvalorização do real no final do ano passado, o que faz com que haja uma certa reversão desse movimento. A segunda é o diferencial de juros. Como a Selic está muito alta, e a taxa de juros começou a cair nos Estados Unidos, isso abre um diferencial de juros muito significativo, o que traz recursos para o Brasil.
Qual a sua expectativa para o comportamento do dólar em 2026?
Como existem muitas incertezas, tanto no cenário internacional quanto no cenário doméstico, nós temos dois cenários para 2026, sendo que em um os fatores internacionais são mais preponderantes, e no outro os fatores domésticos são mais preponderantes. É claro que existem vários outros cenários, mas esses são os dois casos mais polares.
No primeiro cenário, nós ainda temos algum enfraquecimento do dólar. Não acredito que esse enfraquecimento seja muito forte, mas ainda existe um rescaldo dos processos que foram acelerados pelo governo Trump. Um ponto importante é que esse enfraquecimento não pode ser colocado 100% na conta do Trump, pois existe um questionamento sobre o fortalecimento da moeda americana que é estrutural.
Por exemplo, o economista Kenneth Rogoff, no seu livro Our Dollar, Your problem, questiona a força desproporcional que o dólar ganhou nas últimas décadas, mas independente disso, o governo Trump acelerou esse processo, que ainda deve entrar em 2026 com a continuidade do reposicionamento de recursos que estão concentrados nos Estados Unidos. Esse cenário permite mais alguma valorização do real, com ele podendo se aproximar de R$ 5, mas não se distanciando desse patamar como aconteceu no passado.
No outro cenário, onde os fatores domésticos são preponderantes, a questão está relacionada às discussões fiscais que vão acompanhar o debate eleitoral do ano que vem. Isso porque muitos agentes e analistas têm colocado que não vai ser possível postergar o ajuste fiscal a partir de 2027, tanto que se tornou comum utilizar a expressão “temos um ajuste de contas marcado para 2027″.
Se nós tivermos um cenário em que fique claro que não vai haver um processo de readequação das contas públicas a partir de 2027, nós podemos ter uma pressão para desvalorização do real que compense os ventos que virão de fora. Nesse cenário, o câmbio pode ficar acima de R$ 5,50, encostando em R$ 6, mas se o Brasil estiver calmo e o cenário fiscal relativamente bem endereçado, o câmbio encosta em R$ 5.
É muito difícil dizer a probabilidade de cada um desses cenários, mas eu acredito mais em um dólar em torno de R$ 5,50, perto do que temos hoje, do que em grandes variações.
Olhando para trás, o que aconteceu com o dólar no final de 2024 foi um movimento de mercado ou um movimento especulativo? Na sua avaliação, o governo tirou alguma lição desse episódio?
O que aconteceu no final de 2024 foi um misto de movimento de mercado e de movimento especulativo. Quando o Arcabouço Fiscal foi implementado, por mais que o governo tenha mostrado boa vontade e preocupação em relação às contas públicas, ele foi muito criticado por ser estritamente em cima das receitas. Foi por isso que, em 2024, houve a discussão de que o governo tinha que apresentar alguma resposta em relação às despesas.
O Fernando Haddad e a Simone Tebet disseram, em um evento, que iam mostrar uma proposta de contenção de gastos, mas esse anúncio demorou muito a ser feito, e quando foi feito, enfiaram uma espécie de jabuti no meio, que era a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, sendo que aquilo foi muito mal recebido.
Dessa forma, havia uma justificativa para o recebimento amargo por parte dos agentes, pois houve uma decepção com relação a proposta de ajuste das despesas, mas eu não chamaria a magnitude da desvalorização do câmbio que aconteceu de especulativa, mas de emocional. Isso porque nós estamos com um nível de volatilidade bastante alto no pós-pandemia, já que algumas apostas de agentes não se confirmaram, está difícil ler o cenário, e algumas bússolas estão descalibradas. Como a variação daquele momento refletiu um comportamento mais emocional e pouco baseado em dados, nós vimos a sua reversão ao longo de 2025.
Agora, é difícil dizer se o governo tirou alguma lição desse episódio. Ele não cometeu um erro semelhante, mas também não houve um evento que lhe permitisse mostrar uma forte evidência de que não faria algo semelhante. Sinceramente, eu não sei se o governo tirou ou não uma lição.
Considerando a nossa conversa, você gostaria de acrescentar algum ponto à sua entrevista?
Existe uma discussão se o dólar vai continuar como a moeda dominante nas próximas décadas, se ele será substituído por outra moeda ou se outras moedas vão ganhar espaço, mesmo que não tenham capacidade para substituí-lo. Neste terceiro cenário, que, particularmente, eu acredito mais, além de moedas como o euro e o renminbi ganharem um pouco mais de espaço, as criptomoedas também podem ganhar espaço.
Dessa forma, por mais que haja um interesse em entender os movimentos de curtíssimo prazo, os movimentos de médio e longo prazo têm muita importância nesse momento de transformação da economia internacional.

















