Duas amostras dos expressivos vinhos italianos do Valle Isarco, Alto Adige

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vinhedos em trentino-alto adige
Vinhedos em Trentino-Alto Adige (foto de Míriam Aguiar)

Dando sequência aos artigos sobre os vinhos do Trentino-Alto Adige recém-visitados, comecei as visitas pelo extremo Norte do Alto Adige, onde se encontra a Abbazia de Novacella.

No mundo do vinho europeu é comum a relação entre ordens religiosas católicas e produções de vinho, e ali não foi diferente. Desde o século 12, os monges agostinianos começaram a se dedicar à viticultura.

Primeiro produziam vinhos para consumo próprio nos rituais sacramentais, depois os vinhos começaram a ser conhecidos pela comunidade, pelos religiosos que ali se abrigavam de passagem e, em seguida, a produção se institucionalizou.

Na Abbazia de Novacella, livros e vinhos

Apesar de a abadia ainda abrigar os clérigos, hoje a produção é desenvolvida por outros profissionais e aumentou de forma significativa, contando com os vinhedos do território secular original, mas também incluindo áreas mais a sul dessa localidade, onde se busca especialmente uvas que precisam de mais calor.

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abbazia de novacella, abadia que produz excelentes vinhos italianos
Abbazia de Novacella (foto de Míriam Aguiar)

As instalações da Abbazia de Novacella incluem a vinícola, mas também uma lindíssima igreja, hoje predominantemente rococó, um museu, uma escola pública, uma biblioteca com 95 mil exemplares antigos, inclusive impressos ali (todos ali expostos, mas já digitalizados), e o mosteiro que ficou sempre ativo desde sua fundação.

Ali no entorno, há vinhedos plantados entre 400m e 700m com variedades brancas: Sylvaner, Grüner Veltliner, Chardonnay, Müller Thurgau, Riesling, Gewurztraminer e Kerner. Hoje a produção é processada também com uvas de viticultores locais, supervisionados por sua equipe.

vinhos italianos da abbazia de novacella
Vinhos da Abbazia de Novacella (foto de Míriam Aguiar)

Gostei muito dos vinhos e fui surpreendida, em especial, pelos vinhos da uva Sylvaner, que normalmente faz vinhos mais tímidos em outros países e que ganha exuberância e longevidade marcantes nesta região. O vinho da cepa austríaca Grüner Veltliner também é muito interessante, com toques especiados em boca.

Os Rieslings também são bem cotados, mas acho ainda que o Gewurztraminer me surpreendeu mais com a sua usual abundância aromática e floral, mas com uma acidez marcante, que nem sempre é encontrada nos vinhos dessa uva e que o torna mais atraente. Há bons tintos também – das locais Schiava e Lagrein e da Pinot Nero.

Taschlerhof Weingut: apenas vinhos brancos

míriam aguiar com peter wachtler, da vinícola taschlerhof, que produz vinhos surpreendentes
Míriam Aguiar com Peter Wachtler (foto de Míriam Aguiar)

A cerca de 8km dali, também na área do Valle Isarco, visitei a Taschlerhof Weingut. O perfil é distinto da visita anterior, já que se trata de uma produção mais recente de um integrante do grupo e selo “Free Winegrowers do Südtirol” (Viticultores Livres do Alto Adige).

Peter Wachtler é um apaixonado por vinhos que resolveu se dedicar ao tema de sua devoção também profissionalmente a partir dos anos 2000, quando comprou terras que já foram exploradas para a viticultura no século 19 e desativadas posteriormente.

Começou com menos de 1ha e foi ampliando até os 5,5ha atuais, com uma produção total de 45mil garrafas, apenas de vinhos brancos, que fazem jus ao potencial qualitativo do Valle Isarco.

Seus vinhedos são bem íngremes (500m a 800m), com ótima drenagem e exposição solar sudeste. A maior parte é plantada em terraços e cultivada manualmente em solos que apresentam uma composição bem mineral.

O produtor buscou criar uma relação harmônica entre variedades de uvas, diferentes altitudes e parcelas de solos. A Gewurztraminer é plantada na parte baixa, em solos mais férteis; logo acima, a Sylvaner, que deve ser colhida cedo, pelo seu alto potencial alcoólico; a Riesling gosta das partes altas, em solos de xisto e ardósia e a Kerner é a uva da maior altitude.

Aquecimento global antecipou colheita dos vinhos italianos

vinhos italianos da vinícola tashclerhof
Vinhos da vinícola Tashclerhof (foto de Míriam Aguiar)

Tradicionalmente, as colheitas começavam em setembro e seguiam até meados de outubro. No entanto, todos os produtores da região atestaram que, com o aquecimento global, as colheitas se anteciparam em cerca de 15 dias.

Nessa época, a estação é seca, mas ocorrem algumas chuvas que podem ser torrenciais e com formação de granizo, como acabara de ocorrer. Parte do vinhedo de Gewurztraminer da Taschlerhof foi atingida pelo granizo e teve seus bagos completamente rachados. Uma lástima numa produção reduzida, que pode ser atenuada em até 20% da perda pela cobertura do seguro.

Os vinhos brancos da Taschlerhof são muito expressivos aromaticamente e contam uma acidez salina, salivante e mineral. Destaco os da Kerner e o delicioso Riesling Spätlese.

O produtor acredita que a forma como vem trabalhando os vinhos na cantina valoriza seus equilíbrios e capacidades de envelhecimento. Isto é, um misto de amadurecimento em tanques de aço inoxidável, de passagem por grandes barricas de acácia, além do método sur lie nos vinhos mais jovens.

Os vinhos da Abbazia di Novacella são importados pela Sonoma Market no Brasil, e os da Taschlerhof ainda não chegaram por aqui. Fica a dica!

Visite a página de Míriam Aguiar no Instagram e saiba mais sobre a Wine Master Class Online Trentino-Alto Adige: @miriamaguiar.vinhos

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