Ducha fria

Um ano depois da histórica eleição de Lula para presidente do Brasil, um fato, em particular, chamou a atenção de observadores mais atentos: a total ausência de comemorações populares. Em contraste com as multidões que invadiram as ruas em todo o país, há apenas um ano, a ausência de povo teve seu principal contraponto no excesso de “mercado” que marcou a efeméride.

A bolha do Palocci
O superávit de US$ 1,338 bilhão das transações correntes do país registrado em setembro -o melhor resultado mensal desde que o Banco Central começou a divulgar, em 1980, esta série – embalou os sonhos dos profetas do espetáculo do crescimento dentro e fora do Planalto. Ao lado da redução da dívida interna dolarizada, de cerca de 40% para 26% de uma dívida pública que somou R$ 707 bilhões mês passado, o superávit nas transações correntes são, de fato, entre os famosos indicadores exibidos pela equipe econômica, os mais interessantes. Entre janeiro e setembro, o saldo das transações correntes está positivo em US$ 3,856 bilhões, sinalizando que o país fechará suas contas externas no azul.
Mais importante do que brandir esse fato é examinar suas causas. A última vez que em que ele se repetiu foi no longínquo 1992, último ano do desastre collorido, marcado por forte recessão. Não por acaso, a grande responsável pela marca atual é a balança comercial, que deve fechar 2003 acima perto dos US$ 22 bilhões. Parte desse resultado, é fruto da desvalorização do real, mas outra é fruto da forte recessão interna, que freou as importações, empurrando as empresas locais a buscarem mercados externos para compensarem o tombo aqui.
O próprio ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, já admitiu que, em 2004, a balança não deve repetir o mesmo desempenho. Tal profecia se ancora na esperança de que um mínimo de crescimento impulsione as importações, principalmente de máquinas, equipamentos e insumos. Na última vez em que o país experimentou tal surto de crescimento, em 2000, o PIB avançou 4,2% e seu efeito colateral mais emblemático foi o apagão, que terminou por eletrocutar a candidatura tucana. Na verdade, o que se prepara é mais uma versão do medíocre stop and go (pára e anda). Ou para usar linguajar que causa urticárias na equipe econômica que caminha para seu 11º ano no poder: mais uma bolha de consumo; a bolha do Palocci.

Na mira
Ao participar de evento no Instituto de Biologia da Unicamp, o pesquisador Silvio Valle, da Fundação Osvaldo Cruz (Foicruz), classificou de ato de bioterrorismo a  introdução da soja transgênica no Brasil, que, segundo ele, interessa aos dois maiores produtores do mundo: Estados Unidos e a Argentina, de onde são contrabandeadas as sementes. Para Valle, a desinformação sobre o tema ajuda a consolidar o produto no país. Ele reclama que a comunidade científica vem sendo usada como “massa de manobra” por grupos contrários e favoráveis aos transgênicos.
A presidente da Associação Nacional de Biossegurança (ANBio), Leila Oda, que também participou do simpósio “Biossegurança, Transgênicos e Ambiente”, apoiou Valle e considera o Brasil suscetível a um ataque desse tipo.

Oh, pá!
Aproveitando as vantagens oferecidas pelo tucanato a empresários não nacionais, Portugal investiu no Brasil, entre 1996 e 2000, cerca de US$ 12 bilhões, se tornando um dos cinco maiores investidores estrangeiros no país, movimentando negócios que respondem por cem  mil empregos. No entanto, com a persistência do baixo crescimento do país, muitas empresas lusas têm fechado as portas no Brasil. Debater esse quadro será o principal objetivo do II Congresso Empresarial Brasil-Portugal Desafios do Novo Milênio, que será realizado entre os próximos dias 12 e 14 de novembro, em São Paulo. O evento contará com a participação do presidente de Portugal, Jorge Fernando Branco de Sampaio, e do ministro da Economia de Portugal, Carlos Manuel Tavares.

“Fila” externa
A Caixa Econômica Federal (CEF) encontrou um jeito interessante de não estourar o tempo de atendimento determinado por lei para o sistema bancário. Esta semana um cliente chegou a uma agência no Rio de Janeiro perto das 11h, recebendo o pedido para voltar às 12h30m, quando seria atendido sem demora, o que efetivamente ocorreu. Antes eram distribuídas senhas aos clientes de acordo com o assunto a ser tratado. Os clientes aguardavam o tempo necessário até que o número constante de cada senha aparecer em um painel eletrônico. Agora os painéis foram retirados e a espera transferida para o lado de fora da agência.

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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