É chapa branca sim, e daí?

Filme de Michael Jackson evita polêmicas, mas emociona fãs e bate recorde de bilheteria na estreia.

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Jaafar Jackson interpreta o tio Michael Jackson em filme biográfico sobre o ídolo
Jaafar Jackson interpreta o tio em 'Michael' (foto: divulgação/ Universal)

A cinebiografia Michael estreou na semana passada e, em poucos dias, já é um fenômeno mundial de bilheteria. O filme arrecadou US$ 97 milhões nos Estados Unidos e mais de US$ 217 milhões no mundo, no seu primeiro final de semana em cartaz – o maior lançamento da história para uma biografia. A produção, que custou US$ 200 milhões, superou as expectativas iniciais, que apontavam para algo na casa dos US$ 50 milhões nos EUA. Lançado simultaneamente em 82 países, liderou a bilheteria em 64 deles. Isso dá a dimensão do tamanho de MJ ainda hoje, 17 anos após a sua morte.

Se você ainda não viu e está um pouco ressabiado por conta de algumas críticas negativas da mídia especializada, vai aqui um aviso para o amigo leitor que confia nas minhas dicas: o filme é ótimo! Minha opinião pode até ser enviesada – cresci ouvindo Michael –, mas a verdade é que você não precisa ser de fã de carteirinha para curtir o longa. Basta gostar um pouquinho. Isso porque o diretor Antoine Fuqua – conhecido por Dia de Treinamento (2001) – não está interessado em convencê-lo a admirar Michael Jackson. Seu objetivo é apenas agradar quem, há décadas, ouve suas músicas, assiste a seus clipes e acompanha sua trajetória como Rei do Pop. E isso ele consegue com um pé nas costas.

A produção não busca validação crítica nem propõe uma revisão histórica distanciada. O filme aposta, acima de tudo, na memória afetiva e na conexão emocional dos fãs – e acerta em cheio. As sessões estão lotadas com gente de todas as idades. Assisti no sábado, em uma sala enorme na Barra da Tijuca, com pessoas de várias gerações. Ao final do filme, o público custa a ir embora: a maioria permanece sentada para ouvir as músicas enquanto sobem os créditos. E dá mesmo vontade de ficar.

Os dois atores que interpretam o astro fazem suas estreias no cinema. Jaafar Jackson é filho de Jermaine, um dos irmãos de Michael, e impressiona pela semelhança com o tio. A voz chega a assustar de tão igual e ele ainda reproduz com precisão os movimentos de dança que Michael tão bem imortalizou. O rapaz passa na prova com louvor. Já Juliano Valdi, que vive MJ criança, não fica atrás – o menino é um encanto de carisma e talento. Ambos cantam de fato nas cenas de gravação em estúdio, mas dublam o cantor nas cenas de show. E isso é ótimo porque o público não perde o talento do Michael original nos pontos altos do filme.

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Grandes sucessos que não envelhecem

A produção privilegia os momentos marcantes da carreira do astro. Começa com ele ainda pequeno, aos 8 anos, formando o Jackson 5 sob as ordens autoritárias do pai carrasco, Joseph Jackson, interpretado por Colman Domingo. Ele é o vilão – e o filme faz questão de deixar isso claro. A mãe, Katherine, hoje com 95 anos, é vivida por Nia Long. O espectador acompanha a ascensão do grupo e, em seguida, a carreira solo de Michael, com os sucessos estrondosos de Off the Wall e Thriller, os clipes na MTV e a histeria global dos fãs.

O diretor recria performances e passagens que fazem parte do imaginário coletivo: a luva branca, a calça curta, a jaqueta brilhante, o chapéu fedora – está tudo lá. Não há o mínimo esforço ou intenção de desconstruir a figura mágica de Michael. Pelo contrário: o objetivo é celebrar e curtir duas horas de um mergulho guiado por referências que ganham vida na tela, passando por gravações, shows, ensaios e as interações de Michael com figuras importantes em sua carreira, como Quincy Jones, seu fiel segurança Bill Bray e o empresário John Branca, este último interpretado por Miles Teller.

O filme, a propósito, é produzido por John Branca e John McClain, responsáveis pelo espólio do cantor, que, ainda hoje, rende milhões aos seus herdeiros. Entre os produtores executivos estão cinco de seus irmãos: Jackie, Tito, Jermaine, Marlon e La Toya, além de seu filho mais velho, Prince. Os outros três irmãos (Rebbie, Randy e Janet) preferiram não participar, assim como os dois filhos mais novos de Michael, Paris e Bigi.

O filme termina com o lançamento de Bad, em 1988, e deixa claro que haverá uma continuação. Não sabemos se a segunda parte trará uma abordagem mais crítica ou tocará em temas mais polêmicos. Por mim, não precisa. Michael não pretende ser uma biografia no estilo Ruy Castro. É chapa branca e, mesmo assim, emociona. E, convenhamos, duas horinhas numa sala escura, com tela grande, som potente, vendo Michael Jackson cantar e dançar seus maiores sucessos… difícil dar errado. Vá ao cinema e aproveite.

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