E daí? É só um desmatamentozinho, talquei?

Perda equivalente a 479.620.312 campos de futebol, conforme medidas oficiais da Fifa.

Empresa Cidadã / 17:34 - 14 de jul de 2020

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Desde 2007, a Floresta Amazônica não apresentava números de degradação tão preocupantes. Os dados são fornecidos pelo Deter, do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados na semana passada. Em junho de 2019, o desmatamento chegou a alcançar 935 km2. A marca de 2020 ultrapassou os 1.000 km², representando, em números relativos, mais 11%.

 

Padrão Fifa

O ano de 2018 será lembrado pelo desmatamento recorde no Brasil – o maior da última década. Dados recentes do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) mostram que, entre agosto de 2017 a julho de 2018, houve a perda de 4.221 km² de floresta.

Na comparação do primeiro semestre de 2020 com o primeiro semestre de 2019 (consolidados), os alertas registram desflorestamento em mais 3.069,57 km² da Amazônia Legal (ou 479.620.312 campos de futebol, conforme medidas Fifa do campo para competições internacionais), aumento correspondente a 25%, de um ano, para o ano seguinte.

 

Novo padrão MEC: castigar para ensinar

Tão grave quanto anunciar estes feitos, por dever de ofício, foi o castigo aplicado à coordenadora-geral de Observação da Terra do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Lubia Vinhas (servidora concursada do Inpe, há 23 anos). A exoneração foi assinada pelo ministro astronauta da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes (“Eu vivo sempre no mundo da lua”). A Observação da Terra é a área do Inpe encarregada pelo monitoramento do desflorestamento da Amazônia, através do sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter).

Em nota, o Instituto declarou que “o processo de reestruturação do Inpe, em curso e sob demanda do ministro do MCTI, astronauta Marcos Pontes, tem como principal objetivo buscar sinergias e otimizar os recursos humanos e de infraestrutura do Instituto para um funcionamento mais eficiente.” Mais inespecífico, impossível.

Na mesma nota, o Inpe declarou que Lubia Vinhas será remanejada para outra importante função, mas devem ter esquecido de avisá-la. A ex-coordenadora Lubia Vinhas soube da sua exoneração pelo Diário Oficial. Um deboche? Quantas boiadas passarão clandestinamente pela porteira aberta durante a pandemia, até que o Inpe chegue a “um funcionamento mais eficiente”?

 

Arbítrio & Desmatamento

Assim como o arbítrio, o desmatamento é atuante no Brasil desde o século XVI. Após o início do século XVIII, o desflorestamento se acentuou, com a Revolução Industrial. Respondem pela destruição das florestas a atividade agrícola e pecuária, responsável por cerca de 80% do desmatamento mundial; a urbanização; a exploração comercial e o tráfico internacional da madeira e de outros serviços florestais.

Através da Lei 1.806, de 6/2/1953, foi criado o Plano de Valorização Econômica da Amazônia, para fomentar o desenvolvimento econômico e social da região e foi também instituída a Amazônia Legal, compreendendo nove estados brasileiros (Atualmente Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Maranhão, correspondendo a 61% do território nacional). Partes de dois outros biomas estão contidos na Amazônia Legal: Pantanal e Cerrado. Na Amazônia Legal vive pouco mais da metade dos povos indígenas que habitam o Brasil.

Para conter o desmatamento da Amazônia, em 2004, foi criado o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal, já que a relação dos possíveis danos do desmatamento é imensa e se estende muito além da própria Amazônia.

A floresta contém a erosão e desertificação do solo; recicla o gás carbônico e auxilia na harmonização climática; especialmente no regime de chuvas; preserva a biodiversidade; e contribui para mitigar o aquecimento global, pois o desmatamento libera quantidades significativas de gases formadores do efeito estufa.

 

Rios que voam

Cada árvore de grande porte da floresta pode lançar na atmosfera até 1.000 litros de água por dia. A floresta como um todo, chega a formar por dia uma massa de ar de 20 trilhões de litros de água, quantidade superior à descarga fluvial do próprio Rio Amazonas. Esta massa de água fica em parte provisionada nas cabeceiras dos rios da Amazônia e outra parte se distribui do Oeste da Amazônia até o Sul e Sudeste do Brasil, à Argentina, ao Paraguai e ao Uruguai, provendo-os de água, para a geração de energia, abastecimento de reservatórios, etc, possibilitando diferentes ecossistemas no mundo.

Importante lembrar-se de que, do consumo total de água, estima-se em cerca de 2% o uso doméstico e em 98% o uso pelas cadeias produtivas da agropecuária, da mineração e da indústria.

 

Ema

Boas notícias. A ema passa bem.

 

Liga 180!

Esta coluna é uma homenagem à mulher brasileira cientista, na pessoa de Lubia Vinhas, ex-coordenadora-geral de Observação da Terra do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), exonerada pelo ministro astronauta da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes (“Eu vivo sempre no mundo da lua”). A Observação da Terra é a área do Inpe encarregada do monitoramento da destruição da Amazônia, através do sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter).

 

ECA, 30 anos de sujeitos de direitos

Sujeitos de direitos é como passaram a ser tratados os “de menor”, após a entrada em vigor da Lei 8.069/13 de julho de 1990, que instituiu o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O ECA completou 30 anos, enfrentando toda sorte de resistências daqueles que acham que “educar tem que doer”.

 

#Fique em casa

Na paz. Bons vídeos, bons livros, boa música, boa companhia, um cafuné, boa comida e uma soneca depois. Ema, eu te amo.

 

Paulo Márcio de Mello é servidor público aposentado (Professor da Universidade do Estado do RJ – Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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