E os professores, o que pensam?

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Vamos fingir que somos agricultores, e o solo em que trabalhamos já não rende nada. As autoridades, então, elaboraram um projeto sensacional para a salvação da lavoura – mas não perguntam àqueles que vivem da terra que peculiaridades locais podem pôr o tal projeto a perder. Pois bem, não é preciso nenhum grande levantamento de dados – basta saber ouvir – para perceber que é assim que as reformas do ensino são encaradas por boa parte dos professores, em especial as impostas à rede pública. Embora a LDB, em 1996, tenha dado início a um movimento de revalorização da carreira do magistério, as medidas visando à reformulação do sistema educacional brasileiro, bem como do próprio sistema de formação dos profissionais da educação, têm sido tomadas como se os professores tivessem muito a aprender e, ironicamente, nada a ensinar.
Fala-se muito em fazer do professor peça-chave da educação do século XXI, mediador do conhecimento, aquele que estimulará nas novas gerações o pensamento crítico e o gosto pelo saber. Insiste-se na premência de aprimorar sua formação e torná-lo capaz de elaborar e sustentar um projeto pedagógico. Na verdade, essa é uma prioridade do governo para os próximos anos. Mas, será que, neste momento de renovação e reconstrução, ele já não deveria ser ouvido? Ninguém sabe tão bem porque reformas anunciadas como maravilhas curativas para o combalido ensino brasileiro podem resultar em fracasso retumbante aqui e ali, entretanto, o professor que se queixa é criticado por temer mudanças, ou diz-se que está desatualizado ou teve uma formação ruim. Raramente suas queixas são consideradas como importantes alertas, dados por quem entende do riscado.
A formação precária e o baixo salário não são os únicos impedimentos para que os professores exerçam bem seu ofício. Devido ao contexto adverso em que trabalha, novidades sugeridas pelos idealizadores das reformas estão provocando dores de cabeça em quem é obrigado a executá-las sem apoio logístico. A série de equívocos cometidos por conta da necessidade de diminuir a evasão e repetência é um exemplo: o sistema de ciclos, que elimina a reprovação por série, e a princípio representaria um avanço por alargar as chances de aprendizado do aluno, virou promoção automática, com avaliações sem significado algum, graças à pressa com que foi abraçado. O desempenho dos estudantes continua uma lástima, a diferença e que agora, para eles, isso não importa mais.
A idéia é respeitar o sujeito-aluno e seu ritmo de absorção. Ora, qualquer professor veria com simpatia um sistema que torna os alunos menos estressados e mais receptivos. Mas isso exige turmas pequenas, atenção personalizada, mais horas/aula e atividades extraclasse. Crer que ele, sozinho, sem outro recurso que não o quadro-negro, em uma hora vai extasiar dezenas de crianças com as maravilhas da Matemática, é delírio de quem nunca teve regência de turma.
Permitir que os alunos progridam ininterruptamente, jamais os desafiando a um desempenho adequado à sua série, ajuda-os tanto quanto reprová-los sem parar e nada fazer para tirá-los do limbo. Se o progresso escolar independente de colocar os neurônios para funcionar, é certo que a maioria optará pela lei do menor esforço. Como se uma empresa promovesse funcionários e aumentasse seus salários apenas para irem lá bater o ponto.
Se os alunos não têm que lutar para se saírem bem na escola, não vão levá-la a sério, e isso já está acontecendo, para desespero dos professores. Que tipo de preparação para o mundo real é essa? Isso não é uma simplificação. Quem ensina sabe que não há método que torne o processo de aprendizagem prazeroso o tempo todo. O que é interessantíssimo para uns pode ser chato para outros, porém é necessário para todos. Os alunos entenderão isso, mas só quando amadurecerem o suficiente para perceber que uma vida melhor exige empenho e dedicação. E não precisarão ir longe: basta um vestibular.
Devemos prestar atenção no descompasso entre as políticas públicas sem educação e a realidade das escolas, pois impor reformas sem proporcionar ao corpo docente as condições necessárias à sua implantação é insistir em plantar em solo estéril. Não adianta, portanto, vangloriar-se por jogar as melhores sementes, sem avaliar o solo, o clima e pragas que põem tudo a perder – dados que só o agricultor local domina.
As salas de aula são o solo onde  podem brotar as respostas que a educação procura. Todo professor é um pesquisador e certamente muitos têm conseguido pequenos sucessos, como evitar que jovens saiam semi-alfabetizados do ensino fundamental, sem ameaçá-los com a reprovação mas sem deixar de incutir-lhes a noção de mérito. Porque não buscamos tentativas bem-sucedidas em vez de agir como se nada houvesse a ser aproveitado? Porque não incentivamos seus autores a repartir suas experiências? Porque não começar o extenso trabalho de formação e aprimoramento do corpo docente da educação básica a partir da bagagem já acumulada? Creiam – a aprendizagem é mais eficaz quando respeita o conhecimento anterior do indivíduo. Isso, os professores já sabem.

Magno de Aguiar Maranhão
Conselheiro do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro e Presidente da Associação Nacional dos Centros Universitários (Anaceu).

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