É possível uma conciliação entre direita e esquerda no Brasil?

Por Mércio Gomes.

Opinião / 17:04 - 14 de set de 2020

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Não creio que seja. Não é possível. Não ainda. Mas há motivos para imaginar o início de um diálogo, e a razão será o próprio Brasil.

Dia 5 de setembro, um sábado, pela manhã, fui acordado com a notícia de que Caetano Veloso, numa entrevista a Pedro Bial divulgada na noite anterior, tinha falado bastante sobre meu livro O Brasil Inevitável. De fato, na segunda parte da entrevista, ao ser perguntado por que está otimista e até contente, Caetano declarou a Bial que estava lendo o livro e que se impressionara com a profundidade e extensão da miscigenação no Brasil, principalmente entre índios e negros (em outros livros sempre se fala que a miscigenação brasileira veio do intercurso ou estupro do senhor branco sobre a negra escrava).

O livro esclarecia a ele o que ele sempre sentira desde sua infância em Santo Amaro, passando por toda sua vida adulta e até agora – qual seja, de que a miscigenação era algo extraordinário no Brasil. Por isso e outras coisas Caetano sentia que o Brasil tinha algo de grandioso a oferecer ao mundo, e irá oferecer algum dia. Este é o espírito do livro O Brasil Inevitável.

Naturalmente, fiquei muito feliz e lisonjeado por Caetano apreciar meu livro na extensão que declarou. Era um segmento importante da arte e do pensamento de Esquerda no Brasil reconhecendo uma visão diferente e favorável ao Brasil, num momento em que a Esquerda quer tudo menos admirar o Brasil.

Bem, acontece que não é só a Esquerda que viu algo importante no meu livro. Ontem (7) à noite li o discurso do presidente Jair Bolsonaro em comemoração à Independência. O discurso é curto e elegante, e logo no primeiro parágrafo fala do mesmo tema discutido por Caetano. Eis o trecho nas palavras do presidente:

A identidade nacional começou a ser desenhada com a miscigenação entre índios, brancos e negros. Posteriormente, ondas de imigrantes se sucederam, trazendo esperanças que em suas terras haviam perdido. Religiões, crenças, comportamentos e visões eram assimilados e respeitados. O Brasil desenvolveu o senso de tolerância, os diferentes tornavam-se iguais. O legado dessa mistura é um conjunto de preciosidades culturais, étnicas e religiosas, que foram integradas aos costumes nacionais e orgulhosamente assumidas como brasileiras.”

É certo que esse trecho não contém nenhuma menção a O Brasil Inevitável, mas a ideia de miscigenação incluindo em primeiro lugar o índio, as ondas novas de imigração já encontrando um colchão de recepção amigável, o desenvolvimento de religiões, crenças e preciosidades culturais e a visão de grandioso em nossa cultura – são temas desenvolvidos no livro, tal como explicitado por Caetano. Para mim isto parece evidente, e quem leu o livro vê o mesmo, pelo que me escreveram vários amigos leitores.

Bem, é evidente que o discurso foi escrito por alguns assessores intelectuais do presidente Bolsonaro, e não se pode dizer que ele tenha lido o livro. Sei de amigos e conhecidos que estão no governo que o livro O Brasil Inevitável e dois ensaios recentemente escritos que serão brevemente publicados circularam pelos escritórios da presidência e de algumas esferas do governo.

Por tudo isso, me sinto feliz e orgulhoso de que tanto a Esquerda, representada por Caetano, quanto a Direita, representada nesse discurso do presidente Bolsonaro, têm algo em comum, qual seja, a fé no potencial cultural brasileiro, tal como discutido no meu livro. A mim é o que importa.

As ideias e visões contidas em O Brasil Inevitável estão ancoradas nas ideias e visões de muitos pensadores sobre o Brasil, desde o inefável e estupefato Pero Vaz de Caminha, passando pelos jesuítas Anchieta, Azpicuelta e Vieira, por Ambrósio Fernandes Brandão, José Bonifácio, Princesa Leopoldina, Marechal Rondon, Capistrano de Abreu, Euclides da Cunha, Oswald de Andrade, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Caio Prado Jr., Darcy Ribeiro, Celso Furtado, Luiz Sergio Sampaio, Vilém Flusser, Olavo de Carvalho, Mangabeira Unger… Caetano Veloso… e tantos outros colegas e intelectuais brasileiros sem conta.

Muita gente por esses sertões brasileiros pensa igual, apenas com jeitos diferentes de expressar esses sentimentos.

Não há ainda qualquer possibilidade de conciliação ou até de mero diálogo entre Esquerda e Direita no Brasil. As hostes de um lado e do outro estão fincadas em suas convicções e não abrem mão de nada. A Esquerda nem ao menos reconhece o governo como legítimo, continuamente sonhando e conspirando por sua derrubada. A Direita se entrincheira em sua vitória retumbante, na crescente popularidade presidencial e em algumas vitórias políticas e administrativas e assim só tem desprezo pela Esquerda.

Minha posição parece ser a do isentão, aquele que não quer saber de briga e se ofende com os insultos mútuos das duas partes. Pode ser, mas também sei que é no insentismo onde medra o ócio intelectual e a hubris dos enfatuados consigo mesmo.

Não, não estou isento. Mesmo pertencendo ao campo da Esquerda, torço para que o Governo Bolsonaro dê certo, que cumpra uma boa parte do que prometeu em matéria de controle da violência, punição à criminalidade e à corrupção, melhoria das condições de desenvolvimento econômico, quebra da hegemonia cultural da Esquerda e levantamento da moral tradicional brasileira.

Será importante que cumpra essas promessas mal ou bem alinhavadas. Também acho que no plano internacional o Brasil tem que demonstrar seu alinhamento ao mundo ocidental e marcar diferenças em relação à China, em razão da disputa que virá inevitavelmente nos próximos anos entre as duas grandes potências.

Entretanto, não estou nada satisfeito com diversas posições e ações do governo, tais como a falta de expertise político e administrativo e a consequente morosidade sobre como resolver os problemas educacionais brasileiros, especialmente na educação primária e secundária, uma visão desequilibrada sobre o meio ambiente e os povos indígenas (ainda que nada parecido com o quê falam as ONGs) e um exagerado e perigoso sentimento de potência diante de adversários.

Minha opinião política não importa quase nada. Importa que meu livro O Brasil Inevitável traz uma visão diferenciada, mais antropológica e menos ideológica, de vivência e convivência com todas as classes sociais, e que vê com ânimo e fé o potencial cultural que temos. Isto é que foi visto por Caetano Veloso e por Bolsonaro, cada um a seu modo.

Para mim, é o começo de um vislumbre de algo em comum que precisa ser enfatizado para que haja a possibilidade de um diálogo entre Esquerda e Direita. No futuro próximo.

Mércio Pereira Gomes

Ph.D em Antropologia, presidiu a Funai entre 2003 e 2007. Atualmente leciona na UFRJ. Autor de diversos livros, mantém o blog O Brasil Inevitável.

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