‘É preciso ter manha...’

Desmatamento na Amazônia e a desigualdade no rendimento dos negros.

Empresa Cidadã / 20:58 - 17 de nov de 2020

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

Dados do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) dão conta de que a Amazônia Legal teve sob alerta de desmatamento uma área de 836,23 km². Desde 2015, ano em que o monitoramento é realizado pelo Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), este foi o pior desempenho constatado para um mês de outubro.

A Amazônia Legal corresponde a 59% do território brasileiro e compreende as áreas de 8 UFs (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins) mais parte do Estado do Maranhão.

Ultimamente, o Estado do Pará tem sido o mais vitimado pelo desflorestamento, com a perda de 398km² em outubro (correspondentes a 48% da área desflorestada na Amazônia Legal, no mês e que, em setembro (964,45km² de área desflorestada) e agosto (1.358,78km²), foi também o que apresentou os números mais desfavoráveis entre todos da Amazônia Legal. Ainda referentes a outubro, os municípios mais desflorestados, com as áreas correspondentes foram Porto Velho (RO; 52,74 km²); Lábrea (AM; 36,67km²); Pacajá (PA; 36,55km²); São Félix do Xingu (PA; 28,09km²); Portel (PA; 27,76km²); Placas (PA; 23,97km²); Senador José Porfírio (PA; 23,26km²); Altamira (PA; 22,93km²); Anapu (21, 31km²); Uruará (PA; 18,51km²).

 

Maria, Maria

Dados divulgados pelo IBGE na semana mostram um país em que o trabalho dos negros importa menos. A remuneração horária do trabalho das pessoas brancas é maior em 68% do que a remuneração do trabalho das pessoas pretas e pardas para as mesmas obrigações e não mais do que 29,9% dos cargos de chefia são desempenhados por pretos e pardos.

Ainda de acordo com o IBGE, a remuneração média de pretos e pardos no Brasil é de R$ 10,10 por hora trabalhada, enquanto a remuneração média de brancos é de R$ 17 (informações referentes a 2018, as mais atuais entre as disponíveis.

Esta proporção indicativa de profunda iniquidade não é linear. Ela cai quando a observação percorre a diferença dos mais escolarizados. Pretos e pardos com o ensino superior ganham R$ 22,7 por hora de trabalho, 69% do rendimento horário de um egresso de curso superior branco, de R$ 32,8 em média. A diferença se estreita sem que com isso corrija a iniquidade, pois ocorre entre os trabalhadores com nível fundamental completo ou médio incompleto. Nessa faixa, negros e pardos recebem 82% do rendimento por hora dos brancos, ambos com remunerações profundamente deprimidas.

É preciso ter manha.” Como no dizer de Milton Nascimento, a quem esta coluna é dedicada, na peça Maria, Maria.

Se Marias, Marias são pretas ou pardas, 32,9% delas recebem menos de R$ 420 por mês (US$ 5,50 por dia), que é a linha de pobreza. Se Marias, Marias são brancas, a situação é um pouco mais leve – entre brancos, a proporção cai para 15,4%.

Já abaixo da linha da pobreza (R$ 145 por mês ou US$ 1,90 por dia) estavam 3,6% das Marias, Marias brancas e 8,8% das Marias, Marias pretas e pardas.

 

Paulo Márcio de Mello é servidor público Professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor