Ebulição à vista

No próximo dia 17 de agosto, completa um ano que a Rússia decretou moratória parcial de suas dívidas externa e interna, forçando a renegociação de débitos que superam os US$ 26 bilhões somente no caso das obrigações denominadas em dólar. Como previsto, no último dia 2, a Rússia não pagou uma parcela de US$ 578 milhões referentes a dívidas reclamadas por credores ainda da época do regime soviético e reconhecidas pelo debilitado governo Bóris Yeltsin.
A decisão, embora esperada, dividiu ainda mais os credores russos. Segundo a publicação Solidariedade Ibero-americana, um grupo de administradores de fundos especulativos, cujos títulos somam quase 10% da dívida soviética, ameaçam ajuizar a demanda judicial para forçar a declaração de inadimplência e acelerar o vencimento total de US$ 26 bilhões entre principal e juros. O objetivo seria buscar o congelamento de ativos russos em bancos estrangeiros, além de embargos de outros bens, como aviões e navios, para terem seus débitos ressarcidos.
Segundo a publicação, porém, essa decisão unilateral apavora muitos dos demais credores, que temem pelas conseqüências que deflagraria. Os representantes desses círculos financeiros preferem buscar algum tipo de acordo no que resta dos 30 dias de prazo que a Rússia tem para se pronunciar sobre o assunto.

Quem manda
A saída do Estado chinês da economia para dar vez a empresas estrangeiras está restrita à associação de estatais locais com empresas que garantam a tecnologia e os capitais inexistentes ou insuficientes. Os demais setores continuam sobre o controle do Estado, inclusive em setores onde essa presença é considerada exótica pelos privatistas. Um executivo brasileiro que se hospedou num dos mais luxuosos hotéis da China, por exemplo, descobriu que o proprietário do estabelecimento era o Exército Popular de Libertação, que se limitara a arrendá-lo a grupo japonês, sem abrir mão do direito de ter um representante no board da casa.

Extermínio
Ao contrário do prometido por seus defensores, a privatização de estatais não fortaleceu o mercado acionário brasileiro. Em vários casos, o número de acionistas encolheu. A Telebrás, por exemplo, que chegou a ter 3 milhões de acionistas, ao ser vendida tinha apenas 300 mil. Os demais tiveram suas ações compradas por iniciativa do então ministro Sérgio Motta, que queria passar a empresa com o menor número possível de sócios para seus futuros controladores.

Demofobia
Outro exemplo de antidemocracia do mercado de capitais pós-privatização vem da Telefônica. Com as cerca de 400 milhões de chamadas por ano para os números 0800 ou 102 movimentando aproximadamente R$ 300 milhões por ano em São Paulo, a Telefônica resolveu acabar com qualquer possibilidade de repassar dividendos mais gordos aos seus milhares de acionistas. Para isso, a empresa espanhola está criando um call center que será administrado por uma subsidiária de capital fechado. Mais uma vez o massacre aos minoritários ocorrerá sob à bênção da CVM.

Errata
A nota Palavras vazias publicada nesta coluna na última sexta-feira teve parte do seu trecho deletado involuntariamente. Onde saiu “As estrangeiras gastaram apenas US$ 650 milhões, dos quais 70% na compra de sondas no exterior.”; leia-se “As estrangeiras gastaram apenas US$ 1 bilhão, dos quais US$ US$ 650 milhões na compra de sondas no exterior.”

Mini-bombas
A Rússia produzirá 10 mil artefatos explosivos atômicos em miniatura, informa o boletim do Movimento de Solidariedade Ibero-americana (MSIA), que cita como fonte da notícia o Diário do Povo, jornal oficial da China. De acordo com a matéria, a estratégia foi tomada tendo em mente conflitos como o do ataque da Otan à Iugoslávia. O orçamento de defesa da Rússia passará de 2,8% para 3,5% do PIB, segundo o jornal chinês, para modernização do arsenal de armas nucleares russas, com objetivo de “se preparar para iniciar uma guerra atômica limitada”. As bombas miniaturas teriam poder explosivo equivalente a um milésimo da que os americanos explodiram em Hiroshima. Nas mãos de uma pessoa debilitada, como Yeltsin, o uso de um desses artefatos pode não ficar apenas no campo da ficção.

Nacionalismo italiano
Especialistas do setor de petróleo que não se deixam iludir pela retórica propragandística da ANP, alertam: das dez empresas estrangeiras que abocanharam bacias petrolíferas no país, apenas uma, a Agip, deve fazer investimentos de algum porte. Na opinião desses analistas, essa empresa deve investir de US$ 1 bilhão a US$ 2 bilhões, ao longo da primeira fase de concessão para exploração de petróleo no país. Não por acaso, a Agip, que não integra o cartel das Seis Irmãs, é uma estatal controlada pelo Estado italiano.

Audaz
Uma nova dúvida assalta a base governista: será que o novo diretor-geral da Polícia Federal também será escolhido exclusivamente pelo presidente, sem admitir “pressões de nenhuma ordem” dos aliados? Em sua última demonstração de independência tão destemida, FH levou três meses para nomear um diretor, que durou menos de 72 horas no cargo. Estará um novo recorde a caminho?

Terceirização às avessas
O líder do PCdoB na Câmara, deputado Aldo Rebelo, entrou com ação popular na 2ª Vara Federal de Brasília para tirar do ar a propaganda do governo FH e da Anatel sobre as mudanças nas ligações interurbanas. Para o deputado, o governo gasta dinheiro público para fazer propaganda que cabe a operadoras privadas: “Além de entregar o serviço, fazer propaganda? Assim é demais”, critica o parlamentar.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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