Economia Azul: potencial, perspectivas e investimentos

Segundo Lindalia Junqueira, a Economia Azul oferece oportunidades BBBs - Boas, Bonitas e Baratas - que podem receber investimentos e impactar na nossa forma de viver.

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Economia Azul, BlueRio
Economia Azul: lançamento do BlueRio (foto de Fernando Frazão, ABr)

Conversamos sobre a Economia Azul com Lindalia Sofia Junqueira, CEO da Ions Innovation e criadora do Hacking.Rio. Lindalia é organizadora do Global Ocean Day, evento sobre Economia Azul que será realizado nesta sexta-feira e no sábado (7 e 8 de junho) no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

O que é a Economia Azul?

A Economia Azul são novos arranjos de cadeias produtivas que desenvolvem economicamente uma região e que colocam o empreendedorismo no seu centro. Essa discussão começou com a Economia do Mar, que está relacionada à região costeira, tanto que quando esse assunto veio para o Brasil, a Marinha o apelidou de Amazônia Azul, sendo que a Economia Azul, ou Blue Economy, é uma extensão muito maior que isso.

Por exemplo, setores como pesca, portos, navegação e saneamento já são conhecidos, mas como a Ambev depende de água para produzir os seus produtos, ela está na Economia Azul. A cidade de Nazaré, Portugal, transformou suas ondas gigantes num pólo esportivo e turístico. Quando se fala no impacto climático gerado pela carbonização dos transportes e da energia, todo mundo fala das florestas, mas quem gera 50% do oxigênio do mundo são as algas, que também consomem 50% do gás carbônico do mundo.

Com relação às algas, o Brasil tem uma lei que não permite a sua produção, com exceção de um quadrilátero de Paraty e de uma região no sul de Santa Catarina. O Brasil não produz algas, mas importa 75% dos fertilizantes que usa, sendo que as algas são um dos maiores biofertilizantes do mundo. Além disso, elas são estimulantes e, no caso das microalgas, que são criadas em tanque, biocombustível, sem contar que alguns tipos, como a Spirulina e a Carragena, são utilizadas na indústria alimentícia.

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A Economia Azul tem uma dimensão para mudar o mundo. Antes, quando se falava na criação de uma indústria ou produto, se falava em Economia Circular, o que permitiria a reciclagem. Na Economia Azul não é mais para haver reciclagem, pois quando algo for criado, ele já nascerá sem criar impacto negativo para o meio ambiente, além de ser socialmente, ambientalmente e economicamente sustentável.

O Brasil explora todo o potencial da sua Economia Azul?

Lindalia Sofia Junqueira
Lindalia Sofia Junqueira (foto Ions Innovation, ZZN Press)

Não. O Brasil ainda está muito voltado para uma mentalidade de Economia do Mar, só de proteção e defesa da costa. Por exemplo, as novas cadeias produtivas de pesca, de maricultura, como algas e de energias vindas dos oceanos, e as novas tecnologias que podem limpar as águas sem a necessidade de grandes investimentos, ainda não estão sendo usadas massivamente pelo Brasil.

Por exemplo, o Estado do Rio é o primeiro a ter um programa de inovação em Economia Azul. Nós criamos o Blue Rio no ano passado, junto com a Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, e em parceria com a Beta-i, que é uma das maiores aceleradoras do mundo, sendo que esse programa envolve portos, navegação, logística, energia, sustentabilidade e saneamento.

As empresas parceiras deram os desafios do setor, nós fizemos um chamamento global, trezentas startups, de quarenta e sete vinte países, responderam, e vinte foram selecionadas para fazerem um piloto de três meses que está em andamento. Para que você veja como o potencial da Economia Azul não está sendo explorado, o Blue Rio é o primeiro programa de inovação em Economia Azul da América Latina.

Na Europa, foi criado o AspBAN (Atlantic Smart Ports Blue Acceleration Network), uma rede ligada a um consórcio de empresas de navegação, portos e energia, que resultou em índices de descarbonização espetaculares com as novas tecnologias que foram trazidas pelas startups. Para que possamos acelerar essas pautas, nós precisamos de hubs de inovação em todos os estados brasileiros.

Na Rocinha, nós temos um grande projeto de empreendedorismo azul. Um dos biólogos do projeto desenvolveu sabonetes feitos de elementos naturais que possuem micro-organismos. Quando eles são usados, esses micro-organismos são levados pela água e comem o esgoto. Esses sabonetes geram um impacto social e ambiental incrível, pois além de poderem ser feitos na própria região, com eles não será mais necessário gastar milhões em saneamento básico.

O que está acontecendo no exterior que ainda não está acontecendo no Brasil?

O Canadá é um dos maiores hubs de Economia Azul com 14 mil startups. Como muitas delas não se autodenominavam azuis, pois não conheciam esse conceito, está sendo feito um trabalho de evangelização sobre o que significa a Economia Azul e os desafios do setor.

Por exemplo, um dos maiores problemas de um porto é a segurança. Uma startup canadense, que havia criado um controle digital para outro setor, criou um controle para portos misturando IoT (Internet of Things), Inteligência Artificial e Blockchain, onde um caminhão só consegue puxar um contêiner se ele tiver um código específico.

Na Europa, Portugal é um dos grandes epicentros desse trabalho, tanto que o país possui um ministro da economia e do mar e uma secretária do mar, e tem o Fórum Oceano, que é o cluster oficial de Economia Azul ligado ao governo. Também existem universidades dos Estados Unidos, de Israel e da Europa que estão criando hubs azuis.

Contudo, esse é um assunto que ainda está sendo desenvolvido. Por exemplo, Gunter Pauli, pai da Economia Azul, criou um barco 100% sustentável, com placa solar e kite de vento, e que pode navegar por léguas e mais léguas sem precisar de energia fóssil. O problema é que ele foi preso como pirata quando navegava pelo Oceano Índico. Isso porque, pelas leis internacionais de navegação, ele era obrigado a levar uma quantidade mínima de diesel no barco. Isso mostra a necessidade de se mexer em políticas públicas e em regulatórios internacionais.

Como você tem visto o apoio do governo brasileiro à Economia Azul e as perspectivas de investimento nesse setor?

Com relação ao apoio, eu posso destacar o trabalho da deputada estadual pelo Rio Célia Jordão. O Estado do Rio possui três secretarias que envolvem a Economia Azul: a Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, a Secretaria de Energia e Economia do Mar e a Secretaria de Pesca e Economia do Mar. Com relação ao Governo Federal, ele está trabalhando no Corredor Bioceânico, que vai ligar o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico por terra, o que vai agilizar a competitividade brasileira em matéria de exportações.

Com relação à parte de investimentos, no começo do ano o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, lançou o BNDES Azul, que possui um valor significativo. O Planejamento Espacial Marinho (PEM) precisará de uma cobertura satelital, o que exigirá um alto investimento.

No último Congresso da ONU, uma empresa brasileira, a BRK Ambiental, lançou o primeiro Blue Bond do mundo, que é um novo instrumento financeiro e jurídico que vai financiar investimentos nesses setores. Isso porque quando falamos de um novo setor ou de nova mentalidade para a indústria, comércio e serviços, isso significa tombar uma cadeia produtiva inteira, o que demandará investimentos. Por exemplo, para que um navio, que leva etanol, seja movido a hidrogênio, essa é uma outra concepção, desde a construção até a sua operação no mar. 

Nós vamos ter um especialista no painel que vai comparar etanol, metanol, hidrogênio e biofuel para nos dizer o que é bom e economicamente viável, pois não adianta ser bom para o meio ambiente, mas não ter investimento.

Veja o caso da energia eólica. A indústria investe para fazer aqueles pirulitos de concreto imensos, que são uma fortuna, mas que não têm nada de sustentável. Eles levam uma quantidade enorme de concreto, sendo que concreto é uma das coisas que mais carboniza no mundo. Tem horas que a indústria é direcionada de uma maneira errada. Ela pega ondas, sendo agora isso e depois aquilo.

Nós vamos ter uma startup, de um pesquisador brasileiro, que capta energia gerada pelas correntes marítimas do fundo do mar. A empresa coloca uma pequena turbina, que é movida pelas correntes, e que gera uma quantidade de energia incrível. O mais genial no mundo é fazer um BBB – Bom, Bonito e Barato – que a população, as empresas e as indústrias possam investir e que mudem rapidamente a nossa forma de viver e de estar no mundo.

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