Educação: basta de retrocessos

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Passeata em defesa da educação pública (Foto: Rovena Rosa/ ABr)
Passeata em defesa da educação pública (Foto: Rovena Rosa/ ABr)

Quatro requisitos para aprimorar o ensino no Brasil do século 21

 

Atualmente a educação brasileira passa por uma grave crise que perpassa as várias etapas da educação formal: primeira infância, educação infantil, ensino fundamental e médio e ensino superior (graduação e pós-graduação).

As crianças e jovens não estão motivados e não aprendem, os professores estão cada vez mais desencantados. O número de analfabetos totais e funcionais no ensino básico é alarmante. A evasão é assustadora. As Universidades públicas estão à beira do colapso, e surgem protocolos provavelmente construídos fora do país sugerindo os primeiros passos para a privatização das instituições de ensino superior públicas.

As infelizes iniciativas recentes que estão sendo pouco discutidas no Congresso Nacional como a “educação domiciliar” ou “ensino domiciliar” (homescholloling) e o pagamento nas Universidades públicas.

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O texto aprovado pelos deputados prevê que a lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) seja alterada para admitir o ensino domiciliar na educação básica. A educação é um processo que se materializa nas escolas, na família e na sociedade.

Nada contra que a família se envolva no processo, com a participação de pais e mães, irmãos e irmãs, primos e primas, avôs e avós, e tios e tias. Nada contra contratarem tutores, pedagogos etc. com a intenção de complementar a educação escolar. O que não é pertinente nem inteligente é não entenderem essa proposta representa um risco à garantia do direito das crianças e jovens à educação, além de restringir a troca de ideias e visões do mundo contemporâneo.

Adicionalmente essa proposta vai impactar na socialização dessas crianças e jovens, fundamental para a formação da personalidade e a convivência pacífica dentro de uma diversidade. Espera-se que esse retrocesso seja sepultado no Senado, a não ser que haja uma pretensão de retrocedermos e voltarmos a sermos homens das cavernas, onde a proposta teria um certo sentido.

Quanto ao pagamento do ensino superior público por famílias privilegiadas, que representam uma minoria no país, é uma iniciativa que contradiz o artigo 205 da Constituição de 1988 que diz: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. A introdução de cotas mostrou ser um excelente caminho para a inclusão no ensino superior.

O caminho para aprimorar a educação brasileira passa por vários requisitos:

1 – Preparar os professores, para uma educação do século 21, substituindo as aulas expositivas por outras atividades onde os estudantes sejam protagonistas;

2 – Valorizar o professor, com salário digno e carreira atraente;

3 – Eliminar conteúdos inúteis e exercitar o estudante na procura, na sistematização e utilização do conhecimento;

4 – Estimular a criatividade e o pensamento crítico.

Seria importante prestar atenção aos pensamentos recentes do professor Renato Janine Ribeiro, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC):

“A educação tem algo que é praticado há milhares de anos: a escola. E apesar de possuir falhas e insuficiências, a escola é a melhor forma de você socializar uma pessoa. Educar não é simplesmente abarrotar a cabeça de uma pessoa com conteúdos. Educar é ensinar uma pessoa a sair de casa, a se relacionar com quem não é do seu mundo restrito e pequeno. Pela educação, você tem que aprender a lidar com adultos que não são seus pais, e isso acontece com os professores e demais funcionários das escolas, e a lidar com crianças que não são suas irmãs, que são os colegas de classe. Se você deixar as crianças em casa, elas não vão ter a possibilidade de se abrir para o mundo. E educar é isso, abrir as cabeças para o mundo, é mostrar que o mundo não se esgota no seu bairro, na sua casa, na sua família, na sua classe social, na sua religião. É mostrar que o mundo é muito mais amplo.”

 

Isaac Roitman é professor emérito da Universidade de Brasília, pesquisador emérito do CNPq, membro da Academia Brasileira de Ciências e membro do Movimento 2022–2030 O Brasil e o Mundo que queremos.

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