Educação superior não deve retroceder para o presencial

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Alunos (Imagem: divulgação)
Alunos (Imagem: divulgação)

Educação Superior além da crise: por que as IES não vão desaparecer?” foi o tema central do 25º Fórum Nacional do Ensino Superior Particular Brasileiro – FNESP, realizado no fim do mês passado de forma híbrida na capital paulista e considerado o maior congresso de educação superior do País.

Na oportunidade, alguns sinais importantes foram dados:

Primeiro porque, sendo híbrido, defende a ideia de resgate do presencial que os mantenedores estão fazendo, de maneira intensa, para que os investimentos já realizados em espaços físicos, megalomaníacos, voltem a ser justificados compondo as mensalidades dos cursos de graduação.

Além disso, o próprio tema central traz a preocupação de autoconservação, de manutenção do status quo das instituições que se estabeleceram no modelo tradicional do sistema feudal, com construções e muros que as separam das inovações tecnológicas, das necessidades do mercado de trabalho e mais ainda da realidade dos jovens que precisam formar.

A abertura foi feita pelo Ministro da Educação, Camilo Santana, que alinhado com a proposta conservadora de discutir a qualidade do ensino pela sua modalidade – e não pelo resultado real da eficiência da formação – acabou entrando por um caminho que o levou para a armadilha de demonizar o EAD, principalmente na formação de professores.

Camilo Santana e a professora Helena Sampaio, responsável pela Secretaria de Regulação do MEC – SERES, foram para a mesma linha de ler os resultados do ENADE, onde a média dos alunos dos cursos de Pedagogia é 3,6 em 5 pontos máximos, para destacar que é preciso mais atenção com esta formação, mas atribuindo ao EAD esta falta de atenção.

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Da forma apresentada, ambos conseguiram atender as expectativas dos promotores do evento, que é a busca pela retomada do presencial, mas esqueceram que a formação de professores no Brasil é tão ruim desde os primórdios da educação superior e que nos cursos presenciais, além dos conteúdos serem arcaicos e dissociados da realidade do jovem e das tecnologias, as atividades de estágio obrigatório foram sempre para “inglês ver”, ou seja, registradas de maneira maquiada sem o real vínculo do processo de aprendizagem aplicada.

Em todos os setores produtivos, de geração de renda, observou-se uma evolução natural das tecnologias para otimizar os insumos e promover o bem-estar social e benefícios dos usuários do produto ou do serviço prestado.

Assim, a atenção ao real uso de tecnologias, de flexibilização do momento de desenvolvimento do serviço e, ainda mais, com a proposta de estimular o protagonismo e a busca de soluções de problemas, deveria ser o foco da atenção do setor educacional, ao invés da absorção contínua e indigesta de volume enorme de conteúdo.

No setor da comunicação, evoluímos da TV aberta para a TV a cabo e, agora, chegamos ao streaming. No setor automotivo, saímos dos carros manuais para os carros automáticos e, agora, avançamos para os carros autônomos. No código do direito, saímos do código de Hamurabi para o Vade Mecum e, agora, para a Inteligência Artificial. Será que só na Educação Superior não vamos evoluir do presencial, passando pelo EAD e caminhando para o uso de Inteligência Artificial e Aprendizagem de Máquina?

Formar professores de maneira presencial como única alternativa é como dizer que o melhor café é o coado com “coador de pano”, desprezando a temperatura da água, o tipo do café e mais ainda o paladar dos que vão consumir.

A educação superior retrocedendo para a modalidade presencial só vai justificar as formas tradicionais (comprovadamente ineficientes) de docência, desconsiderando a capacidade de dedicação do seu cliente, o aluno, e mais ainda afasta das cátedras acadêmicas o compromisso de se inovar, de se reinventar e mais ainda de seguir os outros segmentos.

Apesar de ser mais lento e viscoso, o setor da educação, em especial o ensino superior, merece reguladores com visão mais ampla e inovadora, além de atores gestores menos protecionistas e acomodados às formas antigas que deram certo ao seu tempo. Se é que deram certo.

Acreditar que por legislação, limitando a oferta do EAD, vamos melhorar a qualidade do ensino é uma grande falácia, pois nem o presencial teve o seu resultado aprimorado. E acreditar que, por regulação, trazer mais presencialidade vai melhorar os resultados econômicos das Instituições de Ensino Superior, é o maior engano, pois para isso dar certo é preciso combinar antes com “os russos”, que são os alunos.

Tente convidar um jovem de 18 a 21 anos para assistir MasterChef na TV aberta, e ele provavelmente vai recusar o convite, pois prefere assistir gravado, com o resultado conhecido e em velocidade x1.5. Por isso a TV aberta não volta mais; o carro manual só existe para baixo custo; e o café coado no coador de pano é uma excentricidade dos raros que se intitulam “especialistas”.

Que a educação do nosso País seja protegida de mais falácias e da perda de eficiência na esfera tecnológica. Inovar é olhar para frente, não pelo retrovisor.

Por César Silva, presidente da Fundação de Apoio à Tecnologia (FAT)

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