“Efeito Varig”

Boa parte dos infortúnios impostos aos clientes do duopólio que domina a aviação brasileira deve-se à quebra da Varig, cujo fim o Governo Lula escusou-se de evitar. À época, ao lado da simpatia desfrutada por outras concorrentes junto a setores governistas, prevaleceu o argumento fiscalista, de que qualquer ajuda à área sacrificaria as contas públicas. A quebra da Varig, porém, não resultou apenas no rebaixamento do padrão da aviação nacional. Já nos estertores da empresa, resultou num déficit de US$ 1 bilhão na balança comercial do setor aéreo, devido à ocupação do mercado deixado pela Varig por empresas estrangeiras. Mais um caso emblemático de como a troca de políticas estratégicas por dogmatismos econômicos resulta em prejuízos econômicos e permanentes a um país.

Longe da produção
O investimento estrangeiro direto (IED) no Brasil tem muito pouco do que se chama de “capital para produção”. Alguns negócios feitos por empresas da China em 2010 exemplificam isto: a Sinopec comprou 40% do capital da Repsol, por US$ 7,1 bilhões; em maio, a Sinochem comprou, por US$ 3 bilhões, 40% do campo de Peregrino, pertencente à petrolífera norueguesa Statoil; a State Grid adquiriu por US$ 1,7 bilhão sete companhias de transmissão de energia da espanhola Plena; em agosto, a Wisco comprou 21,5% do capital da MMX, a mineradora de Eike Batista, por US$ 400 milhões, mesmo valor pago pela Honbridge para ficar com o projeto Salinas, da Votorantim Novos Negócios, na Bahia. Outra operação de porte foi a compra da Itaminas pela chinesa ECE, por US$ 1,2 bilhão. Ou seja, nenhum aumentou a capacidade produtiva, tratando-se na verdade de mera transferência de capital, em alguns casos com desnacionalização, em muitos com respectivo envio do dinheiro para as matrizes no exterior.

Ainda simbióticos
Ao comentar nota publicada nesta coluna, na véspera, sobre proximidade do limite de emissão de dívida pública dos Estados Unidos, paralela à onda de falências de estados e municípios naquele país, o economista Maurício Dias David lembrou que o fato de deter 21% dos papéis do Tesouro norte-americano faz da China um forte aliado dos EUA, pelo menos no médio prazo: “Embora não se saiba até quando será possível manter essa convivência com o acirramento da disputa pela hegemonia mundial, por enquanto essa associação também interessa aos EUA, inclusive porque as importações da China ajudam a controlar a inflação”, avalia.

Bola de neve
O Escritório de Orçamento do Congresso (CBO, na sigla em inglês) prevê que o déficit orçamentário nos Estados Unidos aumente 13,8% no fim do atual ano fiscal, para US$ 1,48 trilhão, ante US$ 1,3 trilhão no ano fiscal anterior, encerrado em 30 de setembro. Para David, integrante do Conselho Editorial do MM, a relação econômica entre China e EUA pode ser olhada como uma parceria estratégica que foi se consolidando ao longo do tempo: “Nesse jogo estratégico, não cabe o enfraquecimento do dólar nem dos EUA. Até porque o modelo chinês copia cada vez mais o estilo ocidental de desenvolvimento e ganha dinâmica própria, que escapa ao socialismo”, analisa o economista, que concorda com a tese de G2, termo cunhado pelo professor Carlos Lessa.

Fraco para ser forte
David lembrou, ainda, que na década de 70, quase ninguém previa que o Japão viveria a atual estagnação: “A China poderá entrar no mesmo processo, com o crescente poder de barganha dos sindicatos. Por isso, tenho dúvidas se interessa tanto para os chineses ter o iuan como moeda internacional.”

Imagem
O número de matérias sobre o Brasil cresceu 37% entre 2009 e 2010, segundo o oitavo levantamento trimestral da agência Imagem Corporativa.  De acordo com a agência, embora o índice de matérias positivas sobre o país permaneça alto, também é significativo o percentual de matérias negativas, como as notícias sobre violência no Rio de Janeiro. Iniciado há dois anos, o estudo baseia-se na análise de 15 publicações da imprensa de Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França, Japão, Espanha, Rússia, China, Índia, Argentina e Chile.

Artigo anteriorDilúvio
Próximo artigoAval
Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

Artigos Relacionados

Bolsonaro comanda pior resposta à pandemia da AL

Para formadores de opinião, Brasil foi pior até que a estigmatizada Venezuela.

Cem anos de Celso Furtado

A atualidade de um dos mais importantes intelectuais do planeta.

A Disneylândia espacial dos trilionários

Jornada nas estrelas escancara a desigualdade.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Últimas Notícias

Taxar dividendos aumentou investimentos na França

Redução, nos EUA e na Suécia, só elevou distribuição de lucros.

Petroleiro tem maior produtividade da indústria no Brasil

Mesmo com setor extrativista, participação industrial no PIB caiu de 25% para 20%.

Exportação cresce, mas só com produtos pouco elaborados

Superávit de quase US$ 7 bilhões até a quarta semana de julho.

Bolsonaro comanda pior resposta à pandemia da AL

Para formadores de opinião, Brasil foi pior até que a estigmatizada Venezuela.