Eleitores brasileiros

Por Paulo Metri.

Em 2022, o número de candidatos a cargos eletivos promete ser grande. Busco, pretensiosamente, dar um empurrãozinho para os eleitores, pois a verdade é que eles votam muito mal, pois votam contra seus próprios interesses. E não se trata de “votar certo”, significando votar em candidatos da esquerda ou da direita, apesar de eu ter posição com relação a este tema.

Diria que uns 30% da população com idade para votar, que vai de 16 anos até que a morte extinga este direito, não conseguirão exercê-lo porque, no presente, são drogados ou moradores de rua miseráveis ou estão muito doentes ou sentem muita fome ou perderam os documentos ou nunca os possuíram ou tudo isto junto ou muito pior.

Cerca de 20% dos eleitores, se tanto, professam o voto que imaginam ser correto e que não é o mesmo para diferentes grupos destes eleitores. Trata-se do voto consciente. No início do processo eleitoral, afloram características dos diversos candidatos, muitas até então não observadas. Estas características definirão boa parte dos votos a serem por ele recebidos. Por exemplo, se o candidato for estruturalmente racista e esta característica vier a tona, ele não receberá voto de eleitor antirracista e que valoriza este critério de escolha do seu voto. Em compensação, poderá receber votos de eleitores racistas e que, espantosamente, priorizam o racismo como critério de escolha do voto. Por isso, o voto consciente, não necessariamente, é um voto ético.

Em geral, os eleitores conscientes escolhem em quem votar por uma penca de posicionamentos do seu escolhido. Nunca há uma confluência total de opiniões entre o candidato e qualquer um dos seus eleitores. Pesquisas de opinião tradicionais, geralmente, fazem esta pergunta: “Que posicionamento do candidato é mais relevante para definição do seu voto?” Assim, existem certos temas que são escolhidos por um maior número de eleitores como prioritários para selecionar o candidato. Em geral, são os principais: a ética, a economia, o emprego, a saúde, a educação e a segurança. Arrisco dizer que, na eleição de 2022, mais uma vez, dentro do voto consciente, o candidato aparentemente ético marcará pontos adicionais.

Tendo já exposto os mecanismos que explicam os posicionamentos de 50% da população, os mecanismos acionados para os demais 50% são sustentados por um número exorbitante de fatos, argumentações, notícias falsas e outros dispositivos.

Neste grupo, está a coerção pesada, usada por milicianos, a chantagem da coerção leve, quando o voto deve ser dado senão algo combinado não acontecerá, podendo ser o recebimento puro e simples de dinheiro (compra de voto). Outro mecanismo de manipulação do eleitor para conquista do seu voto pode ser também a sustentação da não atratividade de um candidato opositor por agressão gratuita do tipo “o candidato tal é o candidato do diabo”. Ainda existem os candidatos que doam dentadura, financiam atividades de associações de moradores e os times de futebol das comunidades.

Mas nenhuma dessas “bondades” merece a entrega do voto que irá definir a vida futura do eleitor e de seus contemporâneos e compatriotas. Bertold Brecht definiu, no texto Analfabeto político, precisamente, as pessoas que não valorizam o voto, nestes trechos:

“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.”

“Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio dos exploradores do povo.”

Assim chegamos aos adoradores fervorosos da ética, que são, não por acaso, conservadores incapazes de realizar os benefícios para a sociedade como um todo, de programas sociais como os de opositores. Portanto, a ética supervalorizada pela mídia tradicional, formada pelos jornalões, televisões abertas, a maioria das revistas e das rádios, mais algumas plataformas digitais, que transmitem as notícias falsas, todos controlados pelo capital, torna-se a arma predileta, devido sua eficácia, de conservadores e de países imperialistas na guerra híbrida. Nela, eles aparentam ser o que não são, benéficos para o povo.

Acrescento que, neste complô contra o voto racional da sociedade, as forças contrárias aos interesses do povo ainda formam a opinião de um número considerável de eleitores. Infelizmente, o povo brasileiro não é suficientemente politizado. Nesta selva com muitos animais aéticos, o eleitor brasileiro, sem muito treinamento, na verdade “um ser pouco politizado”, é um esperançoso alimentado pelos próprios malfeitores, que buscam mantê-lo neste estado de torpor que permite o roubo do seu voto no curto prazo e, mais a frente, da sua mais valia ou de seus recursos naturais. Os conservadores, de engodo em engodo, vão mudando os personagens para, na prática, nada mudar.

 

Paulo Metri é conselheiro do Clube de Engenharia.

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