Elevar Selic para 7,75% será eficaz no combate à inflação?

Analistas prevêem taxa de 11% em maio de 2022.

A alta da inflação de alimentos, combustíveis e energia, fez o Banco Central (BC) apertar ainda mais os cintos na política monetária. Por unanimidade, o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a taxa Selic, juros básicos da economia, de 6,25% para 7,75% ao ano. A decisão surpreendeu os analistas financeiros, que esperavam reajuste para 7,5% ao ano.

Em comunicado, o Copom informou que a instabilidade no mercado financeiro provocada pela decisão de mudar o cálculo do teto de gastos fez o BC aumentar ainda mais o ritmo de aperto monetário. Na avaliação do órgão, os acontecimentos recentes elevaram o risco de a inflação subir mais que o previsto, justificando a alta dos juros. O Copom informou que também deverá elevar a Selic em 1,5 ponto percentual na próxima reunião do órgão, em dezembro.

Para o economista-chefe da Nova Futura Investimentos, Nicolas Borsoi, a decisão destaca que a inflação está alta e que tem surpreendido as expectativas, em meio à disseminação das pressões para itens menos voláteis da cesta. A alta do câmbio, com o dólar saindo da faixa dos R$ 5,30 para R$ 5,60, as últimas divulgações do IPCA acima do esperado e, principalmente, a piora no cenário fiscal justificaram a aceleração de 1% para 1,50% nesta reunião.

No modelo do Copom, as projeções de IPCA subiram de 8,5% para 9,5% em 2021 e de 3,7% para 4,1% em 2022. Para 2023, a projeção cedeu de 3,2% para 3,1%.

Borsoi explica que o comunicado ressaltou que os questionamentos do arcabouço fiscal (depreciação cambial e as chances de ajustes de preços defensivos por parte do setor produtivo) elevam a probabilidade de a inflação surpreender para cima as projeções do cenário base. O Copom também mudou a prescrição de política monetária, ao descrever que o ciclo de aperto deve avançar ainda mais no território contracionista.

Segundo o economista, frente à piora significativa nas projeções de inflação e o cenário de riscos, o comitê antevê um ajuste de mesma magnitude na próxima reunião, mas deixou a porta aberta para uma revisão do ritmo, caso haja um agravamento no processo de deterioração das expectativas de inflação. “Sendo assim, mantivemos nossa projeção de alta de 1,50% na reunião de 8/dez, com a taxa Selic terminando 2021 em 9,25%. Em nossa visão, o ciclo deve se estender até mai/22, com a taxa Selic terminando o ciclo em 11%”.

A Força Sindical considerou a decisão dos membros do Copom de aumentar a taxa de juros um grave erro. Em nota, a entidade explica que com “esta decisão equivocada, o Banco Central prejudica ainda mais, a já fragilizada economia do nosso país e só beneficia banqueiros e especuladores.”

Segundo a entidade, é importante ressaltar que o aumento da taxa de juros tem se mostrado, ao longo do tempo, um instrumento muito perverso e pouco eficaz no combate à inflação, encarece o crédito para consumo e para investimentos, causa mais desemprego, queda de renda, piora o cenário da economia. “Concentra cada vez mais renda nas mãos de banqueiros e especuladores financeiros. A crise é dolorosa para os trabalhadores, que, além de sofrerem com o flagelo do desemprego, amargam alta taxa de juros e a redução nefasta dos seus diretos e de sua proteção social.”

A Força Sindical defende que a resposta para a crise é o governo retomar a política de redução da taxa de juros e um projeto de desenvolvimento sustentável com geração de empregos, redução da desigualdade social, combate à pobreza e distribuição de renda.

Para o economista e head de Renda Variável da Messem Investimentos, Gustavo Bertotti, o aumento do aperto monetário deve continuar até o primeiro trimestre de 2022, com a taxa Selic atingindo até 10,50%.

“O nosso balanço de risco cresceu após as declarações do ministro Paulo Guedes de que iria furar o teto de gastos para conceder o Auxílio Brasil de R$ 400,00. Isso gerou a apreciação do dólar e consequente, a elevação das expectativas de previsões da inflação. O BC terá que adotar uma política monetária mais contracionista”, disse Bertotti. “O Brasil é muito dependente de insumos importados. O dólar alto causa grande impacto nos índices de inflação”, acrescenta.

Um grande risco, complementa Bertotti, é a “desancoragem fiscal”, abrindo precedentes para efetuar novos gastos, piorando ainda mais orçamento da União. “O presidente prometeu na semana passada uma ajuda financeira para 750 mil caminhoneiros, mas sem indicar a fonte de recursos. Isso deixa o mercado temoroso”, diz ele. O economista lista fatores adicionais que pressionam a inflação, sobretudo a alta da commodities, como o petróleo, carvão e gás.

Bertotti ressaltou que o Boletim Focus do Banco Central, que aponta que a mediana das estimativas do mercado para os principais indicadores econômicos do país, já mostram uma deteriorização do cenário macroecômico, com mudanças nas expectativas do mercado. A previsão do mercado financeiro para a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) disparou de 8,69% para 8,96% em 2021 e de 4,18% para 4,40% em 2022.

O mercado diminuiu a projeção para o Produto Interno Bruto (PIB), que mede o crescimento da economia brasileira, de 5,01% para 4,97% em 2021 e de 1,50% para 1,40% em 2022. A expectativa do mercado para o dólar também cresceu. Conforme o relatório, disparou de R$ 5,25 para R$ 5,45 no fim deste ano e no final do ano que vem.

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