O céu está em festa com a chegada da atriz, locutora, cantora e apresentadora Lolita Rodrigues, que faleceu no último domingo aos 94 anos em João Pessoa, capital na qual residia desde 2015, na companhia da filha Silvia. Essa festa se deve ao fato de Lolita ter se reunido novamente com suas inseparáveis amigas Nair Belo e Hebe Camargo, que chegaram lá anos atrás.
Juntas ou separadas, elas sempre foram imbatíveis na alegria de viver, contagiante, por sinal, nos gestos generosos que sempre destinaram aos amigos e fãs e, sobretudo, no amor e na dedicação às artes cênicas. Esse trio faz falta à televisão, pois, de forma leve, inteligente, com irreverência, graciosidade e muita luz, as três, durante décadas, divertiram os brasileiros por meio de caricaturas, olhares e trejeitos.
Na mesma semana, a atriz e cantora Elizângela, aos 68 anos, partiu para o plano superior. Ela começou criança na televisão, encantando a todos com o seu carisma, ao lado do Capitão Furacão e apresentando programas infantis, com muito charme e meiguice. Com 60 anos de carreira, Elizângela participou de numerosas novelas nas quais, sempre com muito talento e disponibilidade, encarnava seus personagens, vários deles de indiscutível sucesso de crítica e público.
Descendente de espanhóis, Lolita iniciou a carreira na década de 1940 como cantora nas rádios paulistas, até se tornar pioneira da televisão brasileira, tendo trabalhado nas principais emissoras do país. Na década de 1950, foi contratada pela TV Tupi, tendo atuado em uma série de programas, telenovelas e teleteatros da emissora.
Nessa época, dividiu com o marido Airton Rodrigues, com quem ficou casada por 32 anos, a apresentação dos programas Almoço com as Estrelas e A Casa dos Artistas, atrações que permaneceram no ar até o ano de 1980, época do fechamento da emissora. Entre os anos 1960 e 1970, também teve passagens pela TV Excelsior e Record, até ser contratada pela Globo na década de 80, tendo atuado em uma série de telenovelas, como Sassaricando, Rainha da Sucata, A Viagem, Uga, Uga, Kubanacan, Zorra Total e Viver a Vida.
Na inauguração da TV Tupi, em 1950, Lolita cantou o hino especialmente feito para aquela ocasião, o Hino da Televisão Brasileira, com letra do poeta Guilherme de Almeida.
O sonho de Lolita era se tornar atriz, realizando-o em 1957 a convite de Cassiano Gabus Mendes, quando interpretou a cigana Esmeralda, sua primeira protagonista, na telenovela O Corcunda de Notre Dame, exibida às terças e sextas-feiras, onde cantava, dançava, representava e tocava castanholas. Ela também participou da primeira novela diária, 2-5499 Ocupado, formando o triângulo romântico com Glória Menezes e Tarcísio Meira.
Em 2009, foi lançado De Carne e Osso, biografia de Lolita, escrita pela jornalista Eliana Castro, que faz parte da Coleção Aplauso. Um ano depois, após encerrar seu trabalho em Viver a Vida, a artista decidiu se aposentar e se mudar para a Paraíba, indo morar com sua filha.
Elizângela fez sua estreia ainda criança, apresentando vários programas infantis, como Essa Gente Inocente e Capitão Furacão. Em 1969, fez sua estreia como atriz no filme Quelé do Pajeú, pelo qual venceu o prêmio de Melhor Atriz Revelação no Festival de Cinema de Santos. Em 1971, estreou como atriz na televisão na novela O Cafona, da TV Globo. Alcançou o auge de seu sucesso na década de 1970 por sua intensa participação em produções televisivas, sobretudo por sua personagem Patrícia, uma das protagonistas de Locomotivas (1977).
Ao mesmo tempo, Elizângela iniciou carreira musical com o sucesso Pertinho de Você. A música se tornou um hit em todo o país no final dos anos 70, ficando no topo das paradas ao longo de vários meses. Ela se popularizou por suas personagens intensas, sensuais e extravagantes, geralmente cômicas, como a adolescente Emilene em Pecado Capital (1975), a dissimulada Mariúcha de Jogo da Vida (1982), a obsessiva Marilda Mathias de Roque Santeiro (1985), a extravagante Rosemary Pontes de Pedra sobre Pedra (1992) e a fogosa Noêmia de O Clone (2001). Em 2004, viveu um dos momentos mais marcantes e lembrados de sua carreira ao interpretar a chantagista Djenane Pereira em Senhora do Destino.
Elizângela recebeu aclamação do público e da crítica por sua performance dramática na novela do horário nobre A Força do Querer (2017), na pele da sofrida Dona Aurora, mãe da personagem Bibi Perigosa, interpretada por Juliana Paes. Em 2019, gravou uma participação especial na novela A Dona do Pedaço, seu último papel na televisão. Em 2021, repetiu a parceria de mãe e filha com Juliana na comédia Amor sem Medida, uma produção da Netflix, baseada no filme argentino Corazón de León.
Lolita Rodrigues e Elizângela deixam suas marcas como artistas vigorosas, talentosas, disciplinadas e sensíveis, além de legados importantes na dramaturgia do Brasil, que a cada dia tem ficado mais pobre com tantas partidas.
Paulo Alonso, jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula.

















