Em 2024, 94 anos de 3 grandes brasileiros (FHC, Conceição, Sarney)

Esperança de que podemos sonhar com um Brasil melhor e mais justo. Por maurício David.

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Este ano de 2024, cumprem-se 94 anos de existência de três grandes brasileiros: Maria da Conceição Tavares, Fernando Henrique Cardoso e José Sarney. Os três grandes vultos de nossa história dispensam apresentação, mas como fui grande amigo e próximo companheiro de viagem de dois deles (Fernando Henrique e Conceição) e reconhecido ao terceiro (José Sarney) por seu alinhamento, a partir de meados dos anos 80, com o movimento pela redemocratização do Brasil, gostaria de mencionar rapidamente três passagens da minha convivência – mais próxima em alguns casos, mais à distância em outros, com eles.

Fernando Henrique é o intelectual modelo para a minha geração. Comecei a ter contato com a sua obra ainda nos bancos universitários (apesar do Rio de Janeiro – onde eu vivia – e São Paulo – onde o carioca transviado Fernando Henrique se fixara – serem dois continentes separados pela Ponte Aérea). Ainda fosse pouco, minha vida universitária começou justamente em um período em que o Fernando Henrique partira para um autoexílio em Santiago do Chile, primeiro, e em Paris, a seguir. Fernando retornou ao Brasil em 68, e nossos caminhos se cruzaram; ele chegava para prestar as provas para o concurso de professor-titular na USP, e eu, que recém começava o terceiro ano dos estudos de Economia no Rio, acompanhava à distância a repercussão do seu concurso para professor da USP.

A seguir, veio a consolidação do arbítrio no Brasil com o AI-5 em dezembro de 68, que levou à nossa cassação. A do Fernando como professor da USP, a minha como a primeira aplicação do famigerado Decreto-lei 477, que expulsava líderes estudantis das Universidades e os punia com a exclusão, por três anos, de frequentar estabelecimentos de ensino superior no Brasil (não se espantem, foi assim mesmo…). Vi-me obrigado a partir para o exílio, no Chile, e só vim a encontrar o Fernando Henrique em Cambridge, na Inglaterra, em 1976, quando ele estava chegando para um período como professor-visitante na famosa universidade, e cruzei com ele ao participarmos em conjunto de seminário internacional que ali se realizava (o Fernando já como estrela reconhecida no âmbito internacional, eu como simples enviado pelo equivalente ao CNPq sueco para participar do seminário).

Acredito que posso dizer que foi amor à primeira vista, eu já de baba-ovo do FHC seguindo-o por toda parte e clamando aos seus ouvidos sobre a necessidade de organizarmos um partido social-democrata no Brasil nos moldes da social-democracia sueca – que substituíra nos meus sonhos juvenis a utopia desfeita do comunismo. Fernando Henrique me ouvia pacientemente, talvez até com simpatia por aquele representante ousado de um modelo social-democrata que ninguém sabia exatamente o que era, e de olho, talvez, em um apoio do poderoso partido social-democrata sueco às conversas embrionárias no Brasil de reorganização da oposição à ditadura militar.

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A partir daí, e com meu retorno ao Brasil com a Anistia em 1979, nossos caminhos políticos se cruzaram novamente. Quando fui cassado no BNDES, em 1980, o Fernando Henrique se ofereceu para fazer gestões junto à Cepal, no Chile, através do seu secretário-executivo, Enrique Iglesias, para saber se eu poderia eventualmente ir trabalhar na Cepal, o que parecia totalmente inviável porque eu fora expulso daquele país logo após o golpe contra o presidente Allende, com decreto de expulsão publicado no Diário Oficial daquele país e tudo mais.

O Fernando Henrique não desistiu. Em havendo a proibição, pelo SNI, para que fosse sequer cogitado para trabalhar no setor público, ele me disse que tinha relações com o presidente de uma das grandes empresas privadas do Brasil – a Alpargatas – e que este lhe havia pedido que indicasse nomes para trabalhar na Alpargatas (um sinal, possivelmente, de mudanças na posição da burguesia empresarial antevendo que algo mudaria no cenário político brasileiro em breve). Mas, neste meio tempo, minha esposa Beatriz, com apoio da Conceição, havia sido indicada para o Ipea, e tudo o que menos queríamos era estar separados, um em cada lado dos continentes Rio e São Paulo…

Depois disto, fui dos fundadores do PSDB, junto com o FHC, o Mário Covas, o Franco Montoro, integrando junto com ele – Fernando Henrique – o seu Diretório Nacional e sendo primeiro presidente da sua fundação de estudos políticos e econômicos, a Fundação Teotônio Vilela. Quando Fernando Henrique foi eleito presidente da República, em 1994, eu estava vivendo um segundo exílio – desta vez em Paris. Quando retornei ao Brasil, no ano seguinte, fui trabalhar em Brasília como um dos diretores do Ministério da Administração, a convite do ministro Bresser Pereira, que levou o meu nome à aprovação do Fernando Henrique. O resto é história, que um dia contarei com mais calma, se oportunidade e disposição tiver…

Quanto à brasileiríssima Conceição (ou a Ceiça, como a chamávamos os amigos mais íntimos), a mais brasileira dos portugueses vivendo no Brasil, fui, além de seu admirador, um colaborador quando ela abraçou, com o entusiasmo de sempre, a tarefa de presidir o Ierj – o Instituto dos Economistas do Rio de Janeiro. A Conceição é uma locomotiva, ou melhor, um vulcão despejando lava por todos os cantos e tomou a tarefa de tocar o Ierj na diretoria que assumiu após a gestão do nosso querido Pedro Malan – pasmem, o Malan e a Conceição, além de amigos, eram, nesta época, aliados políticos muito próximos, com o projeto de tornar o Ierj um poderoso instrumento de crítica à política econômica da ditadura, batendo duro no Delfim e seus boys que pululavam nos corredores de Brasília. A Conceição me chamou para colaborar em sua gestão no Instituto junto ao Eduardo Augusto, seu vice. Nesta ocasião, sugeri que publicássemos um livro de debates sobre a economia política da crise – exatamente com este título – que veio à luz em plena crise da dívida e que teve muitas reedições. Sempre adorei o lado vulcânico da Ceiça e acho que ela ainda será reconhecida não somente pela sua combatividade, mas também por suas contribuições teóricas nos estudos da economia brasileira. Gosto muito de contar uma história passada com o Simonsen, outro grande economista brasileiro.

Quando o mandato da Conceição à frente do Ierj terminou, o convidado a ficar a frente do Ierj foi outro grande economista brasileiro, Antonio Barros de Castro, outro grande amigo meu juntamente com sua esposa Ana Célia (minha companheira de movimento estudantil). O desaparecimento precoce do Castro – um intelectual excepcional – muito faz ao pensamento econômico brasileiro.

Quando foi convidado a presidir o Ierj, o Castro me procurou e me disse o seguinte: “Mauricio, só vou aceitar a indicação se você aceitar o convite meu para ser o meu vice”. Intimado por um grande amigo como o era o Castro, aceitei de pronto. Pois uma das ideias-chave do Castro era que o Ierj liderasse um grande ciclo de debates sobre a economia brasileira. Isto posto, começamos a discutir como poderia ser este ciclo. Uma das ideias centrais seria convidar o Simonsen para falar sobre a inflação, um dos grandes problemas que o Brasil enfrentava. Gostei da proposta do Castro e a endossei de imediato. Pois bem, o Castro agendou uma conversa com o Simonsen, ocasião em que faria o convite, e me convidou para acompanhá-lo na visita. Lá fomos nós conversar com o Mário Henrique. Ocasião quase que solene, depois dos rapapés iniciais, o Castro apresentou a ideia ao ex-ministro, que pareceu gostar muito… Em certo momento, Simonsen perguntou ao Castro: e quem mais você estaria pensando em convidar para integrar a mesa? O Castro, democrata radical, falou sem titubear: estou pensando na Conceição… Os olhos do Simonsen se reviraram, num espasmo: “Mas Castro, nem pensar… A gente vai começar a discutir, o tom de voz vai se alçar, haverá uma gritaria, daí a pouco ninguém saberá quem é a Maria e quem é o Mário”. E deu a conversa por encerrada…

Quanto ao Sarney, o que posso dizer é que também fui “envenenado” pelo ódio raivoso ao velho político que parecia ser um usurpador… Mas o que posso dizer é que ele foi sempre um político generoso e conciliador, ao estilo dos velhos políticos nordestinos. Acho que o Tancredo entendeu isto bem, e por isto o aceitou, com a sua cordialidade mineira, como vice em sua chapa da redemocratização brasileira. Estive uma única vez com o Sarney, por insistência de um seu afilhado político, o jornalista também maranhense Napoleão Sabóia, que conheci em Paris. O Napô, como o chamávamos, se tornou grande amigo meu e, com grande insistência, praticamente me exigiu que o procurasse em Brasília, quando do meu retorno ao Brasil.

Tanto o Napô insistiu que acabei pedindo uma entrevista com o Sarney que, nesta época, já havia deixado a Presidência da República, assumindo então a Presidência do Senado. Lá chego eu, todo encabulado no gabinete do Sarney. Ele me recebeu com grande cordialidade, conversamos algumas abobrinhas. Lá no gabinete estavam também, na ocasião, algumas senhoras vetustas, destas que pululam pelos gabinetes em Brasília. Vi, entre espantado e admirado, a maneira como agradeciam algo ao senador, ex-presidente da República e presidente do Senado. Pareceu-me uma cena do filme do Francis Ford Coppola, The Godfather (sempre amaldiçoei o desgraçado que traduziu The Godfather por O Poderoso Chefão, acho que só pode ser coisa de um tarado que deveria ser condenado à guilhotina…). Vi que o Sarney era venerado por aquelas senhoras, sibilinamente até pensei que haviam sido amantes de algum senador amigo do Sarney (ou do próprio Sarney)… De todos modos, vi que ele era um homem que fazia política pelo lado do bem, pensando no bem. Depois que vejo um presidente da República recomendando aos seus ministros que leiam menos livros (como o fez o semialfabetizado Lula esta semana…) me deu uma saudade imensa do Fernando Henrique. E também do Sarney, um literato que subestimo, mas que aprendi a respeitar. Bem, já enchi demais o saco de todos vocês, meus cinco ou seis leitores… Concluo apenas dizendo: feliz o país que pode festejar os 94 anos de Fernando Henrique Cardoso, de Maria da Conceição Tavares, de José Sarney! Eles me dão a esperança de que podemos sonhar com um Brasil melhor, mais humano e mais justo! Que assim seja…

Maurício Dias David é economista.

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