EMPRESA-CIDADÃ

O melhor negócio do mundo
Alguém já disse que o melhor negócio do mundo é um poço de petróleo bem administrado e que o segundo melhor negócio é um poço de petróleo mal administrado. Nos dias de hoje, o autor da frase certamente diria que o melhor negócio do mundo é um poço de petróleo administrado com responsabilidade social.
Não é novidade para ninguém que toda empresa valoriza o seu desempenho econômico e financeiro. Novidade é que, cada vez mais, as empresas valorizam também a performance social e ambiental, seja por exigência da legislação, dos consumidores, dos investidores ou dos credores.
“Por um mundo melhor” é lema do Rock in Rio III. Com esta chamada, a economia do rock mobilizou milhões de dólares, entre patrocínios, venda de ingressos, refeições, hotelaria, transporte, serviços e impostos. Estas são as palavras de ordem mais percebidas pelos consumidores do século XXI.
Ano Internacional do Voluntário, este é o homenageado em 2001. As empresas-cidadãs são também aquelas que reconhecem, valorizam e estimulam o trabalho voluntário. Elas oferecem benefícios, desenvolvem modelos de gestão e facilitam a carga horária dos colaboradores engajados neste tipo de trabalho.
Responsabilidade social, cidadania e ética empresarial são atributos hoje considerados no marketing social das empresas. Valorizar o produto ou priorizar a qualidade, em muitos setores, não são mais suficientes para fidelizar os clientes. A empresa-cidadã é a organização capaz de fazê-lo.
A empresa-cidadã tem seus gurus. No Brasil, o papel do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, tem destaque. Em 1997, Betinho, então diretor do Ibase, lançou o modelo de balanço social mais utilizado no Brasil. Simples e objetivo, este modelo vem sendo progressivamente utilizado pelas empresas-cidadãs para prestar contas à sociedade das suas ações ambientais e sociais.
No Congresso Nacional, em estados e municípios leis vêm sendo discutidas e votadas com o objetivo de estimular as empresas a divulgarem suas iniciativas sociais. Na verdade, o que se pretende é estimulá-las a empreender projetos comunitários. Entretanto, quem mais pode influenciar uma empresa neste sentido é o consumidor, exercendo o seu voto na hora de comprar.

QUALIDADE DE EMPRESA-CIDADÃ
A Previ, maior fundo de pensão brasileiro e 57o do mundo, já lançou três edições do seu balanço social. Nele, estão retratados os números dos seus indicadores sociais internos e externos, bem como os seus projetos comunitários, sociais e ambientais. A edição mais recente enfatizou os projetos educacionais das empresas nas quais investe. A Previ tornou-se assim o fundo de pensão pioneiro em investir com responsabilidade social no Brasil.

Empresas-cidadãs são aquelas que têm os colaboradores mais engajados. A Azaléia, empresa gaúcha que produz mais de 130 mil pares de calçados por dia, investiu pesado na qualidade de vida dos seus colaboradores. Com isso, em dez anos, saiu de uma situação em que 80% dos empregados eram analfabetos funcionais até chegar à situação em que 75% deles têm, no mínimo, o 1o grau concluído. Resultado dessa política é um turnover de 0,8% e absenteísmo de apenas 2% ao ano.

Nem só de números vive a empresa-cidadã. Muitas iniciativas são expressas por outros meios além dos índices. É o caso da Belgo-Mineira, que patrocina a Família Alcântara, quatro gerações de artistas descendentes de escravos, que preservam a tradição musical das Minas Gerais.

As organizações da sociedade civil, não só do eixo Rio-São Paulo, estão se voltando para os assuntos da cidadania empresarial. Em Aracaju (SE), em dezembro do ano passado, a Saci, organização não governamental dedicada aos direitos civis e à integração racial, com a participação do Governo do Estado e de órgãos de representação profissional, realizou o I Seminário Sergipano sobre o Balanço Social, com casos de empresas locais.

ATÉ A PRÓXIMA
Na próxima semana, o bem humorado decálogo da empresa-cidadã estará nesta coluna do MONITOR MERCANTIL, jornal cidadão.

Paulo Márcio de Mello
Professor e diretor de Planejamento da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Correio eletrônico: [email protected]

Paulo Márcio de Mello
Servidor público professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

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