Pesquisador do Ineep: O problema não é os leilões, o problema é a ANP

Empresas estão mais atentas aos riscos geológicos.

A instabilidade política e econômica do país, áreas ofertadas de extrema sensibilidade ambiental, além de outros fatores somados, afetaram o resultado da 17ª Rodada de Licitações de Blocos para exploração e produção de petróleo e gás natural da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O leilão, realizado na quinta-feira passada (7), foi considerado o pior da história da ANP que iniciou as rodadas em 1999. Pela primeira vez a Petrobras não participou da disputa de áreas.

Das 9 empresas inscritas na 17ª Rodada apenas duas concluíram lances, a Shell e EcoPetrol Óleo e Gás. O total de bônus arrecadado somou R$ 37,14 milhões e a previsão do investimento mínimo na fase de exploração é de R$ 136,345 milhões. A assinatura dos contratos está prevista para ocorrer até o dia 31/03/2022. Cinco blocos localizados na Bacia de Santos foram arrematados. Impactos socioambientais não considerados pela agência reguladora afastaram o interesse nas bacias de Campos, Potiguar e Pelotas, que não tiveram ofertas dos participantes.

O pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) Henrique Jäger, relatou à reportagem do Monitor Mercantil as suas impressões sobre todo o processo do leilão. Perguntado sobre como avalia o trabalho desempenhado pela ANP na condução das rodadas, ele explicou que “a autarquia não avançou no mapeamento das reservas existentes na bacia continental do país, e as empresas estão mais avessas aos riscos geológicos” (veja abaixo a entrevista completa).

O desfecho da 17ª rodada chegou a ser uma surpresa?

– Sim. Houve intensa mobilização de grupos sociais e ambientais contra o leilão, e a expectativa era de que não fossem apresentadas propostas para áreas críticas ambientalmente, as bacias Potiguar e de Pelotas. No entanto, a falta de propostas para as bacias de Campos e Santos, para as quais foram ofertados alguns campos que faziam fronteira com o polígono do pré-sal, não deixa de ser uma surpresa. E a ausência da Petrobras, pela primeira vez, em um leilão da ANP também foi outra surpresa e deve ter influenciado a decisão dos demais participantes.

As ameaças ao meio ambiente dessa rodada influenciaram o resultado, mas qual outro fator somado resultou nessa equação?

– As fragilidades ambientais, como a falta dos estudos necessários, com certeza, influenciaram o resultado para as bacias Potiguar e de Pelotas. Mas outros fatores contribuíram: a instabilidade política e econômica do país; as mudanças em andamento nas bacias de Santos (áreas fora do pré-sal) e Campos, nas quais a Petrobras vem diminuindo suas atividades, o que na prática representa uma redução da escala e, consequentemente, aumento dos custos operacionais; a maior distância dos blocos da costa brasileira; o fato de a ANP ter realizado uma série de leilões nos últimos anos, viabilizando a aquisição pelas empresas de diversas áreas que ainda nem começaram a ser exploradas; a descoberta de grandes reservatórios de petróleo em outros países, o que acaba competindo com o Brasil para atrair novos investimentos; e a venda pela Petrobras de campos sem risco geológico, como os campos de Albacora e Albacora Leste, competindo com a ANP pelos recursos das empresas privadas.

Como avalia o trabalho desempenhado pela ANP na condução das rodadas?

– O trabalho realizado pela ANP em relação aos leilões de blocos no regime de concessão é o mesmo que a autarquia faz há 22 anos, ou seja, desde 1999 quando ocorreu o primeiro leilão. Esse é um dos problemas. De lá para cá, o preço do barril de petróleo passou por um forte ciclo de alta, o que viabilizou novas descobertas e a entrada em produção de campos que antes não eram viáveis economicamente porque a produção era muito cara, como os de shale/oil gás nos EUA. Por mais que o preço do barril tenha caído a partir de 2014, a indústria do petróleo no mundo mudou, e pelo visto a ANP não percebeu isso. A autarquia não avançou no mapeamento das reservas existentes na bacia continental do país, e as empresas estão mais avessas aos riscos geológicos. Hoje há uma competição global pelos recursos das petrolíferas, públicas ou privadas, em atividades de exploração, e o risco geológico vem assumindo papel central. A inanição da ANP, que não desenvolveu os estudos que tinha que desenvolver, cobra seu custo agora. O problema não são os leilões, o problema é a ANP.

O país precisa de investimentos na indústria de petróleo e gás. É possível quantificar o déficit do Brasil?

– Precisamos de investimento, principalmente, no segmento de abastecimento, que engloba tanto as refinarias como a logística de transporte dos derivados até o consumidor final. Atualmente, o país exporta quase metade do petróleo bruto que produz, mas importa 30% do gás de cozinha, 25% do diesel e 20% da gasolina, por exemplo. Essa importação poderia ser menor se a Petrobras utilizasse toda a capacidade instalada de suas refinarias (atualmente a Petrobras utiliza, em média, 80%). Mas, mesmo que estivesse utilizando a capacidade total das refinarias o país ainda teria que importar derivados de petróleo. E todos os estudos apontam que esse déficit entre produção e consumo só vai aumentar, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. Em vez de a Petrobras estar vendendo suas refinarias, deveria estar construindo novas.

Em sua opinião, que aspectos teria uma rodada ideal de petróleo e gás?

– O conhecimento do que está sendo colocado à venda é um aspecto importante. Um exemplo interessante é o campo de Tupi, outrora campo de Lula, na bacia de Santos, que responde, atualmente, por quase metade da produção nacional de petróleo, e é considerado um dos mais produtivos do mundo, com reservas de petróleo gigantescas. A Petrobras comprou esse campo na quinta rodada de licitações de blocos da ANP e pagou R$ 6 milhões. Com o barril de petróleo a US$ 80, preço atual, e como as reservas já estão confirmadas, tem-se ali um patrimônio de aproximadamente US$ 400 bilhões. Ou seja, a ANP vendeu por US$ 6 milhões algo sem conhecer, e a Petrobras, em conjunto com a BP e a Galp, vai ganhar bilhões e bilhões com essa operação. Isso vale em situações como esta apontada, mas vale também para o contrário. As empresas querem diminuir seus riscos, e o conhecimento das áreas que estão sendo vendidas será uma exigência cada vez maior.

Quais as expectativas para a próxima rodada, marcada para dezembro?

– A expectativa é de que seja um sucesso. Primeiro, porque a Petrobras já achou petróleo nestes dois campos, ou seja, o risco geológico é baixo; segundo, porque tanto a Petrobras quanto o governo brasileiro promoveram uma verdadeira liquidação, na comparação com a primeira tentativa em 2019, para viabilizar a venda destas áreas. Por exemplo: o Governo baixou tanto o bônus de assinatura quanto sua participação no petróleo produzido em mais de 70%, e a Petrobras aceitou receber uma indenização pelos investimentos já realizados tendo por base o preço do barril do petróleo a US$ 40, contrariando portaria do Ministério de Minas e Energia (MME) que determinava esse preço em US$ 72,00; terceiro, a Petrobras já comunicou ao mercado que vai exercer seu direito de adquirir 30% dos blocos que serão ofertados, o que já garante a venda destas áreas e deve atrair parceiros para esta empreitada, principalmente os chineses.

Regina Teixeira – Especial para o Monitor Mercantil

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Artigos Relacionados

Usina TermoCamaçari ficará com a Unigel até 2030

A Petrobras, em continuidade ao comunicado divulgado em 11/05/2021, informa que, após a retomada das negociações com a Proquigel Química S.A., subsidiária da Unigel...

Congresso: Passado não existe no ‘orçamento secreto’

Molon: Projeto não garante transparência para as emendas de relator Sem levar em consideração o que já foi realizado nos exercícios de 2019 e 2020,...

SuperaRJ chega a R$ 200 milhões em recursos liberados pela AgeRio

Foram liberados cerca de R$ 57 milhões em recursos para MEIs, autônomos e informais.

Últimas Notícias

Cresce mercado de investimento em ações da China

O investimento em ações na China apresentou crescimento este ano, uma vez que o volume de fundos levantados e o investimento registraram um crescimento...

CVM alerta: Atuação irregular de Business Bank BNI Investiments S.A

A Comissão de Valores Mobiliários está alertando ao mercado de capitais e ao público em geral sobre a atuação irregular de Business Bank BNI...

Usina TermoCamaçari ficará com a Unigel até 2030

A Petrobras, em continuidade ao comunicado divulgado em 11/05/2021, informa que, após a retomada das negociações com a Proquigel Química S.A., subsidiária da Unigel...

STF é questionado sobre inconstitucionalidade de privatizações

O coordenador-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Deyvid Bacelar, defendeu nesta segunda-feira, em audiência pública na Câmara dos Deputados, que o Supremo Tribunal...

Mais um Fiagro na listagem da B3

Ocorreu nesta segunda-feira o toque de campainha que marcou o início de negociação do terceiro Fiagro na B3, o JGP Crédito FI Agro Imobiliário. As...