Energia é poder e o Brasil é prêmio

Venezuela não é o alvo, é o recado; trata-se de sinalizar que energia voltou ao centro da geopolítica e o verdadeiro prêmio chama-se Brasil Por Cláudio Oliveira

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Energia (foto de Fré Sonneveld na Unsplash)

Durante décadas repetimos dogmas antigos como se fossem leis naturais: capital é poder, exército é soberania, guerra resolve disputas estratégicas. Nada disso descreve o mundo real de hoje. Capital deixou de ser fator decisivo de produção. Hoje ele é abundante, móvel e barato. Quem tem projeto capta. Quem não tem, desperdiça.

O verdadeiro gargalo passou a ser outro: energia barata, abundante, contínua e confiável. Sem energia: não há indústria; não há dados; não há tecnologia; não há soberania.

A história recente confirma isso, mas insistimos em ignorar. O poder militar virou custo, não solução. Os impérios do passado conquistavam territórios. Os do presente quebram tentando mantê-los. Tropas de ocupação: custam caro; não produzem riqueza; geram resistência; corroem legitimidade. Os russos aprenderam isso no Leste Europeu. Os americanos aprenderam no Vietnã, no Iraque e no Afeganistão. A China aprendeu observando e fez o oposto. A China entendeu o jogo. A China não invade. Não ocupa. Não administra territórios hostis. Ela compra.

Compra energia, minas, portos, empresas, cadeias produtivas. Usa capital estrangeiro (inclusive americano), planejamento estatal, energia barata e mão de obra competitiva. Resultado? Produz mais barato do que qualquer outro país e domina a indústria global sem disparar um tiro.

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Isso é poder real. Os EUA sabem disso — e reagiram tarde. Os Estados Unidos sabem que perderam hegemonia industrial. Sabem que erraram ao transformar guerra em política econômica. Sabem que financiaram, involuntariamente, o crescimento do seu maior rival. Por isso, tentam reindustrializar; tentam reorganizar cadeias; tentam recuperar segurança energética; mas agora jogam na defensiva.

Venezuela não é o alvo. É o recado. O petróleo venezuelano é pesado, caro, ambientalmente problemático, de uso limitado. Não resolve o problema energético de ninguém.

Então por que tanta pressão? Porque não se trata da Venezuela. Trata-se de sinalizar que energia voltou ao centro da geopolítica. O verdadeiro prêmio chama-se Brasil. Poucos países no mundo concentram petróleo de boa qualidade; hidrelétrica em larga escala; eólica e solar competitivas; biomassa; potencial de hidrogênio verde; estabilidade territorial; ausência de conflitos armados.

O Brasil concentra tudo isso. Isso não é detalhe. É raridade estratégica. A nova dominação não usa tanques. Não é preciso guerra para controlar energia. Basta acordos políticos; financiamento; participação acionária; influência regulatória; controle tecnológico; governança corporativa.

Sem tiros. Sem ocupação. Sem manchetes. É mais barato, mais eficiente e mais duradouro. A disputa não é Brasil x EUA. A disputa é outra: quem controla a energia brasileira. Quem decide: para quem vendemos; a que preço; com que contrapartidas; com qual grau de industrialização nacional.

O Brasil pode ser protagonista energético ou plataforma energética de terceiros. Isso não se decide no discurso. Decide-se em estratégia, planejamento e soberania real. A energia é o novo poder; guerra é o velho erro; Brasil é o ativo crítico. Quem não entender isso continuará discutindo ideologia enquanto outros assinam contratos.


Cláudio da Costa Oliveira é economista aposentado

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