O acesso à educação será finalmente universalizado no Brasil. Embora 4% das crianças com mais de sete anos de idade ainda não tenham entrado em sala de aula, essa taxa, que em 1994 era de 11%, vai baixando rapidamente. Mas, alcançada a meta “todas as crianças na escola”, resta saber de que escola, afinal, estamos falando. O que (e como) ela vai ensinar? O que significa formar para o trabalho e cidadania, como ordenam as novas diretrizes curriculares? Mas não há respostas prontas, apenas intenções. A realidade de cada escola terá que ser construída, passo a passo, pelas comunidades em que se inserem, em conjunto com educadores e dirigentes.
Mas, para isso, a sociedade precisa agarrar a chance que o estímulo às parcerias, ao trabalho voluntário e à atuação da comunidade está oferecendo para que participe efetivamente da formulação de uma política pública em educação. A melhoria da qualidade do ensino fundamental dependerá, logicamente, de muitos fatores: preparação do corpo docente para adoção de novos parâmetros curriculares; salários dignos para os funcionários; investimento em material didático e computadores; democratização da gestão escolar; envolvimento de pais, professores, alunos e população local na tomada de decisões e no atendimento às necessidades da instituição. Porém, é certo que vamos nos deparar com grandes dificuldades no que diz respeito ao último item, porque ele tem como princípio o exercício da cidadania, e, no Brasil, de modo geral, não se tem idéia do que isso quer dizer.
Cidadania significa estar ciente dos deveres para com o Estado e a sociedade, gozar os direitos civis e políticos, ter voz em decisões que nos afetem. Cidadania exige compreensão dos problemas sociais, só possível a partir de muita troca de informações e opiniões. E, a partir de agora, de acordo com os novos parâmetros curriculares nacionais, cidadania se aprende é na escola. Mas, quem vai ensinar, se ninguém praticou e costumamos encarar nossos direitos como graças concedidas pelos governos, e não como conquistas nossas?
Todos terão que ensinar e aprender ao mesmo tempo. Talvez ainda não tenha ficado claro, mas o que os novos parâmetros têm de inovador não são apenas os “temas transversais” – disciplinas que, somadas ao currículo básico, estabelecem a relação entre educação fundamental e vida cidadã (informações sobre saúde, sexualidade, vida social, meio ambiente, trabalho, etc.). A inovação está em abrir brechas para que o aprendizado da cidadania atinja também pais, vizinhos, professores e diretores, na medida em que são todos convidados a contribuir para o bem coletivo e a decidir em conjunto. Do sucesso dessa empreitada depende, em grande parte, o salto qualitativo da educação básica.
Por quê? Porque só é possível ensinar, verdadeiramente, a partir do que a pessoa já conhece. E o que uma criança conhece? Sua família, seu bairro, sua comunidade. O ensino, para ser ensino, deve se ancorar na realidade e, além disso, preencher as necessidades reais da criança, estimular sua criatividade e lhe dar a sensação de estar evoluindo em direção a algo. Este é o motivo primeiro pelo qual a comunidade deve ajudar a educar, embora as famílias brasileiras tenham se habituado a delegar essa função exclusivamente à escola.
Os currículos, até hoje, se constituíram em conjunto de regras e conhecimentos que as crianças decoravam com o único intuito de concluir os estudos e arrumar emprego anos depois; currículos que pareciam tão distantes da sua realidade quanto as decisões do governo sempre pareceram distantes dos cidadãos. As avaliações mediam o quanto havia sido decorado e separavam os “bons” dos “maus”. A motivação para aprender residia num futuro distante e o aluno ia à escola como se fosse para o cadafalso, quando não largava tudo para engordar as taxas de evasão (depois de anos engordando taxas de repetência).
Hoje, já se sabe que o indivíduo aprende mil vezes melhor ao usar o novo conhecimento para alcançar objetivos que ele mesmo estabelece, tendo o professor como orientador. Mas esse processo precisa continuar fora dos muros da escola para ser fixado.
Da mesma forma, dificuldades que o aluno eventualmente enfrenta na aprendizagem pedem a participação da família para serem resolvidas. Já, no que diz respeito aos valores da vida cidadã ensinados na escola, não podem conflitar com os que predominam nas famílias ou bairros dos alunos. Se conflitos existirem, que sejam analisados e harmonizados através do diálogo com todos os que giram em torno da criança. Em resumo, professores e diretores têm que estabelecer estreito contato com a comunidade, orientando-a na solução de seus problemas e fazendo o convite para que ela o ajude na solução dos seus próprios.
Além do mais, dar sugestões e contribuir para que a escola de seu filho funcione melhor, ensine melhor, seja mais agradável, convidativa e atraente é um direito que todo cidadão tem, mas raramente é exercido. É hora de começar. As escolas estão sendo abertas a parcerias com empresas, organizações não governamentais, associações de bairros e entidades do gênero. O trabalho voluntário está sendo incentivado em grande campanha através da mídia. Isso permite que as pessoas vejam e opinem sobre o que acontece em nosso sistema de ensino. E, no que elas são esclarecidas sobre os motivos de uma instituição agir de uma forma e não de outra, passam a colaborar com ela ou sugerem mudanças. Para isso, associam-se e aprendem a pensar coletivamente, visando o bem geral. Isso é exercício de cidadania, numa escola aberta, dinâmica e, finalmente, voltada para crianças de carne e osso, de um mundo real.
Magno de Aguiar Maranhão
Presidente da Associação Nacional dos Centros Universitários – Anaceu, Reitor do Centro Universitário Augusto Motta (RJ) e Diretor Geral da Associação de Ensino Superior do Rio de Janeiro – Aesrj















