Então, é Carnaval… (II)

Sustentabilidade deveria ser pré-requisito na avaliação dos desfiles.

Empresa Cidadã / 17:30 - 3 de mar de 2020

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O Carnaval brasileiro sempre foi um momento de livre (livre até a página quatro...) manifestação de opiniões e de intenções contidas, às vezes, sob sete chaves no armário do controle social, familiar, religioso etc etc.

Na atualidade, o que se observa é um tipo de ressurgimento do Carnaval de rua, em cidades e bairros onde, antes, só havia silêncio, ainda que se perceba que pular Carnaval não é a única intenção, sobretudo entre os produtores. Acontece com a manifestação dos mesmos fenômenos que um dia serviram para explicar o “fim” do Carnaval de rua, como a violência urbana, o uso abusivo de bebidas alcoólicas e outros tóxicos ilícitos, desconforto, dificuldades com acessibilidade, dinheiro curto e por aí vai.

 

Edorézio

No subúrbio distante da “república independente” de Del Castillo, no Rio de Janeiro (hoje não é mais distante, pois a medida não é geográfica) onde habitei a maior parte da minha infância, havia um tipo, desses que só surgem no Carnaval, que se instalava nos caminhos mais movimentados do bairro, durante os três dias da festa, com uma crítica ácida sobre algum aspecto da República. Durante os dias do ano, era um respeitável e discreto senhor, até que o Carnaval chegava. Aqueles três dias eram de brilho intenso dele, fantasiado, engraçado e ácido. O seu nome já era carnavalesco. Edorézio.

 

Sustentabilidade e outras virtudes

Durante os anos da ditadura, da qual devemos ter ódio e nojo (nas palavras do presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Dr. Ulysses Guimarães), fomos levados a calar ou dissimular para sobreviver, e até surpreende, como hoje a crítica social, política, religiosa etc. ressurgiu bem elaborada e com instituições muito mais responsáveis quanto ao seu papel nas comunidades.

 

No Rio

De novo, as escolas de samba do Rio, de São Paulo e de outras cidades deram um show de organização, talento e responsabilidade. A alta frequência com que temas como empoderamento de mulheres, preservação do meio ambiente e sustentabilidade, promoção da liberdade religiosa e reverência à ancestralidade africana ou indígena figuraram nos enredos parece ser uma opção recompensadora também.

No Rio, ganhou a Viradouro. Seu enredo, Viradouro de alma lavada, concebido pelos carnavalescos Marcos e Tarcísio, falou sobre o grupo das Ganhadeiras de Itaupã, quinta geração de mulheres que lavam roupa na Lagoa do Abaeté e prestam outros serviços, arrecadando assim o necessário para a compra de sua alforria, no período da escravidão.

 

Em São Paulo

Em São Paulo, ganhou a escola Águia de Ouro (pela primeira vez nos seus 43 anos de existência) com o enredo concebido pelo carnavalesco Sydnei França, O Poder do Saber – Se saber é poder…Quem sabe faz a hora, não espera acontecer, com destacada reverência ao educador Paulo Freire.

 

A baiana trans

Emblemática polêmica observou-se no autoproclamado “segundo melhor Carnaval do estado”, na cidade de Nova Friburgo. Lá, onde quatro agremiações concorreram pelo campeonato no grupo Especial, uma das escolas, a Unidos da Saudade (segunda colocada), entrou com recurso contra outra escola, a Alunos do Samba (terceira colocada). Tudo por que esta teria infiltrado um homem na ala das baianas, como participante, o que não é permitido pelo regulamento da Liga. O homem em questão é Francisca de Souza (37 anos), mulher transgênero com registro civil da mudança. A escola reclamante meteu os pés pelas mãos, tentando justificar a sua iniciativa, ante as muitas acusações de preconceito. Negou-as, argumentando que “na década de 80, fazia concursos de beleza gay.” O recurso da reclamante não teve acolhimento pela Liga.

 

Cocô de cachorro na calçada

Entre as virtudes mais demandadas nos desfiles das escolas, figura a sustentabilidade. A palavra está definitivamente incorporada às preocupações cotidianas das comunidades e é falada e repetida com naturalidade. Confunde-se, no entanto, com outras iniciativas que limitam o seu alcance. É como se não recolher o cocô do cachorrinho de estimação da calçada fosse uma agressão à sustentabilidade.

No âmbito das escolas de samba, o alcance da sustentabilidade está circunscrita a reutilizar o chassi dos carros alegóricos do carnaval anterior, a substituir por penas artificiais as penas de faisão e de outras aves das fantasias das rainhas de bateria e dos destaques e, finalmente, a utilização do maior número possível de garrafas PET recicladas nas fantasias e alegorias da escola.

Bom que o conceito tenha sido acolhido de forma amistosa pelas comunidades, mas sustentabilidade é muito mais do que isso. Tão importante que deveria ser um quesito de avaliação dos desfiles. Ou mais, um pré-requisito como é o tempo de desfile em que, para cada minuto extrapolado, a escola paga uma penalidade correspondente a 0,1 ponto. No caso, bonificar com frações de pontos a escola que atingir o índice-sarrafo de desempenho. E este índice incluiria dimensões críticas da sustentabilidade, a exemplo do uso de energia (relativo, por sambista desfilante), quilos de lixo gerados no desfile (relativo por sambista), uso de matéria obtida de animal (com sofrimento), transporte dos passistas para o desfile e disponibilizado para o retorno do desfile, e outros indicadores de dimensões desejáveis.

Feliz Ano Novo!!!

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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