Entre executivos, salário do presidente da Petrobras é fichinha

CEO de capital aberto no Brasil tinha uma remuneração 663 vezes maior que a média paga aos funcionários.

O impasse envolvendo o presidente Jair Bolsonaro e a Petrobras nesta semana trouxe à tona um aspecto muito ignorado pelos investidores. É a remuneração dos CEOs e diretores das companhias de capital aberto, que anualmente embolsam cifras milionárias.
Em conversa com seus apoiadores, Bolsonaro teria questionado se eles sabiam quanto um presidente da Petrobras ganhava. Criticou o fato de que o então presidente da estatal, Roberto Castello Branco, estava em home office há 11 meses e “recebia mais de R$ 50 mil por semana”
No entanto, pesquisas revelam que o salário do presidente da Petrobras está dentro da realidade. E se considerado o ano de 2019, a remuneração ainda estaria abaixo da média das principais empresas do Ibovespa, que foi de R$ 11,3 milhões para os CEOs das companhias.
Segundo um levantamento de Felipe Ferreira, diretor da Comdinheiro, em 2019 o presidente da Petrobras teria recebido R$ 2,7 milhões de remuneração anual (incluindo bônus). Na época, a companhia teve um lucro líquido anual de R$ 40,97 bilhões. A remuneração média do presidente da Petrobras seria um salário de R$ 226 mil por mês.
A remuneração mais elevada do capital aberto foi do presidente do Itaú Unibanco, que recebeu R$ 52 milhões em 2019. O banco registrou um lucro de R$ 27,81 bilhões no período. Por mês, o presidente do Itaú teria recebido, em média, um salário de R$ 4 milhões.
O levantamento foi realizado em janeiro de 2021, a partir das informações que as companhias enviam à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). As empresas devem informar a remuneração anual da diretoria, discriminando o valor mais alto e o mais baixo. A pesquisa da ComDinheiro considera a maior remuneração da diretoria, que geralmente é a do presidente.
Os dados referentes a 2020 serão informados pelas companhias apenas em maio. A pesquisa da ComDinheiro inclui 78 companhias. Se ordenadas conforme a maior remuneração paga ao presidente, a Petrobras ocupa a 61ª posição.

Bancos no top5

Entre as cinco empresas que pagam melhor os seus CEOs, a maioria são bancos. O Itaú lidera o ranking com uma remuneração anual de R$ 52 milhões, seguido da B3 que pagou R$ 51,25 milhões em 2019. Figuram também no top5: Banco Santander (R$ 45,32 milhões), JBS (R$ 32,14 milhões) e Bradesco (R$ 30,65 milhões).
A menor remuneração dos executivos do capital aberto informada em 2019 foi da Sulamérica, que teria pago R$ 136 mil ao seu CEO.
Se comparada com a remuneração de uma nanica do setor, a PetroRio (PRIO3), o salário do presidente da Petrobras (PETR4) não parece tão exorbitante. Em 2019, o presidente da PetroRio teve uma remuneração de R$ 5,1 milhões; a estatal desembolsou quase a metade.
Segundo Ronald Bozza, sócio da BR Rating, primeira agência de classificação de risco em governança corporativa do Brasil, é fundamental entender que administrar uma companhia de atuação internacional como a Petrobras, com milhares de empregados e exposta a macroeconomia de diversos países, não é tarefa simples, e poucos executivos estão dispostos a assumir tal responsabilidade.
É por este motivo que presidentes e diretores recebem salários e bonificações elevados, porém condizentes com o desafio. “É até uma forma de convencê-los a atuar pela companhia”, defende.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IGBE) a remuneração média do trabalhador brasileiro foi de R$ 2,3 mil por mês em 2019.

Como é a remuneração?

Segundo o Código de Melhores Práticas do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), a remuneração de CEOs e diretores deve servir como uma ferramenta efetiva de atração, motivação e retenção, além de ser compatível com as funções e riscos de cada cargo.
Em companhias de capital aberto, nem o presidente ou os diretores podem decidir sobre sua própria remuneração. Essa é tarefa do Conselho de Administração que debate nas Assembleias Gerais a aprovação dos valores e políticas salariais. A remuneração também não pode incentivar atitudes imediatistas, focadas apenas no curto prazo.
De acordo com Bozza, companhias brasileiras de capital aberto costumam adotar quatro tipos de remuneração:
– A primeira é o salário-base (SB), que é aquele valor fixo mensal que todo profissional recebe e não é atrelado a resultados. “Um CEO recebe em média 13,33 salários por ano, considerando 12 salários mensais, além das férias e gratificações”, explica Bozza.
– O segundo tipo e remuneração é o total em dinheiro (TD); neste está incluso, além do salário, o bônus de curto prazo que é atrelado aos resultados da companhia (lucro ou ebitda).
Segundo a BR Rating, a média das companhias brasileiras de capital aberto é pagar entre 8 e 10 salários como incentivo de curto prazo para o alto escalão, isso se forem cumpridas todas as exigências da companhia, entre estas o faturamento “A principal preocupação dos conselhos é pagar de forma competitiva, porque não querem perder o executivo por dinheiro, para isso servem os bônus de curto e longo prazo”, afirma Bozza.
– O terceiro tipo de remuneração é a Remuneração Total 1 (RT1), que inclui o salário fixo, o bônus de curto prazo e os benefícios que um executivo de alto escalão possa receber.
Bozza explica que aqui são consideradas também as regalias que entram como remuneração indireta. Estas vão desde um carro corporativo, motorista particular, segurança, para o executivo e muitas vezes também para a família.
O alto escalão também conta com previdência privada, plano médico de alto nível e internacional, check up em hospitais de 1ª linha e auxílio-moradia, caso resida em outra cidade que não seja a sede da empresa.
Somado a isso tem a Remuneração Total 2 (RT2) que se refere aos incentivos de longo prazo, a principal estratégia de atração e retenção de executivos. Isso é pago em forma de ações, que eles terão direito a realizar em determinados períodos, se a companhia estiver bem. “Em 2019, um CEO ou presidente de companhia de capital aberto realizou cerca de 12,9 salários. Para 2020 a previsão é 12,4, mas pode ser menor pelos impactos da pandemia”, comenta Bozza.
Ele exemplifica: “Suponhamos que um executivo recebe mensalmente R$ 50 mil. Em um ano, ele ganhou 13 salários. Somente de remuneração fixa, R$ 650 mil. Se o executivo receber incentivo de curto prazo, de 8 salários, terá direito a mais R$ 400 mil em bônus. E se naquele ano for permitido realizar o incentivo de longo prazo, ele terá direito a receber mais 12 salários, em média R$ 600 mil. No mínimo a remuneração total deste executivo será de R$ 1,65 milhão”, afirma.

O fundo do poço tem porão

Embora a remuneração do alto escalão do capital aberto seja compatível e justa para o mercado brasileiro, especialistas em governança corporativa consultados pela reportagem enxergam alguns conflitos nesta estratégia.
Para Alexandre Di Miceli, fundador da consultoria Virtuous Company, a remuneração milionária de executivos, longe de ser uma solução, é a raiz do problema. Ele acredita que bônus elevados para que os CEOs e diretores se sintam “motivados” contraria a visão de propósito. “Você está colocando o elemento financeiro como o principal objetivo do trabalho; muitos executivos podem focar apenas no dinheiro e perder a visão de tudo”, avalia.
Para Miceli isso também pode afetar o desempenho do alto escalão, especialmente quando as companhias apresentam prejuízos e o bônus é reduzido ou não é pago. Ele também cita como conflito a desigualdade entre a remuneração dos CEOs, executivos e demais colaboradores.
Um levantamento publicado em outubro de 2020 pelo ex-diretor da Previ Renato Chaves revelou que um CEO de capital aberto no Brasil tinha uma remuneração 663 vezes maior que a média paga dos funcionários. Um dado assustador se comparado com a realidade de outros países, nos Estados Unidos a diferença máxima já é de espantosas 434 vezes.
Miceli avalia que uma discrepância salarial tão grande entre funcionários e executivos acaba provocando ressentimento, falta de cooperação e uma concorrência insana. “Muitas vezes, a diferença de um diretor para outro pode ser de 50 vezes o salário, então as pessoas querem subir de qualquer jeito”, comenta.
Ele cita como um bom exemplo de remuneração e propósito a empresa americana Whole Foods, onde a diferença salarial entre funcionários e a cúpula não ultrapassa 20 vezes.

Ganhos versus prejuízos

Felipe Ferreira, diretor da ComDinheiro, enxerga problemas quando o assunto são as métricas utilizadas para permitir o pagamento de incentivos em períodos complexos das companhias. Ele questiona que, em 2019, nove companhias apresentaram prejuízos nos seus resultados financeiros, mas seus presidentes ainda embolsaram lucros milionários. É o caso da Azul, que teve um prejuízo de R$ 2,4 bilhões naquele ano, mas a remuneração mais elevada da diretoria foi de R$ 6,9 milhões.
Com a pandemia e seus efeitos, além de uma nova onda ESG (ambiental, social e governança, ASG na sigla em português) nos investimentos que pode ser precificada, será que teremos mudanças perceptíveis na remuneração dos executivos em 2020? Agora só resta ao investidor esperar para ver.

Por Kate Monteiro, especial para o Monitor Mercantil

Empresas Remuneração (CEO, anual, 2019) R$ Lucro Líquido 12 meses
(31/12/2019) R$ bilhões
ITUB4 52.060.000,00 27,81
B3SA3 51.250.578,90 2,71
SANB11 45.325.345,00 16,63
JBSS3 32.142.620,00 6,46
BBDC4 30.659.720,00 21,17
CSAN3 27.251.867,91 2,48
COGN3 22.817.852,62 0,24
MGLU3 21.253.745,80 0,92
BRKM5 21.124.337,61 -2,90
MULT3 20.150.773,26 0,47
PCAR3 19.668.196,68 0,84
LAME4 19.402.611,00 0,58
RENT3 18.121.558,04 0,83
SUZB3 16.048.947,94 -2,81
VALE3 15.102.649,02 -8,70
ENEV3 14.882.056,00 0,60
ABEV3 14.170.295,57 12,19
IRBR3 13.447.567,66 1,21
UGPA3 12.824.612,99 0,40
QUAL3 11.409.642,30 0,39
HYPE3 11.384.766,85 1,16
BRAP4 11.177.154,00 -0,40
CRFB3 10.910.740,00 1,33
VIVT3 10.823.903,40 5,00
RADL3 10.782.560,00 0,79
KLBN11 10.603.660,45 0,71
BRFS3 10.105.934,64 0,30
CCRO3 9.516.717,00 1,43
HAPV3 9.507.728,31 0,85
BRML3 9.155.328,72 1,38
BTOW3 9.137.149,00 -0,32
CIEL3 9.113.955,18 1,79
BEEF3 8.769.205,16 0,02
ITSA4 8.543.000,00 10,57
CPFE3 8.484.000,00 2,75
GNDI3 8.204.164,00 0,42
IGTA3 7.411.755,55 0,31
GOLL4 7.289.386,56 0,18
AZUL4 6.978.955,34 -2,40
HGTX3 6.811.996,08 0,21
EMBR3 6.715.947,00 -1,29
MRFG3 6.320.524,61 1,58
YDUQ3 5.622.339,80 0,65
VVAR3 5.573.204,34 -1,43
EQTL3 5.435.929,00 2,72
CSNA3 5.239.985,00 2,24
PRIO3 5.159.519,00 0,84
FLRY3 5.116.958,00 0,31
RAIL3 4.993.877,51 0,79
USIM5 4.931.845,64 0,38
GGBR4 4.585.691,00 1,22
JHSF3 4.383.165,05 0,33
LCAM3 4.376.925,63 0,34
TIMS3 4.305.525,00 3,86
LREN3 4.028.573,56 1,10
MRVE3 3.924.928,00 0,75
CVCB3 3.871.441,46 0,00
TOTS3 3.495.449,93 0,21
EGIE3 3.155.311,03 2,31
ECOR3 2.735.697,16 -0,19
PETR4 2.711.572,79 40,97
TAEE11 2.523.695,29 1,00
BPAC11 2.400.000,00 4,05
ENGI11 2.339.633,00 0,53
BRDT3 2.276.929,99 2,21
EZTC3 1.932.000,00 0,29
CMIG4 1.911.826,60 3,13
BBAS3 1.810.828,37 18,89
ENBR3 1.756.874,00 1,48
CPLE6 1.731.448,67 2,06
CYRE3 1.545.244,46 0,53
BBSE3 1.514.848,64 6,66
ELET3 1.029.791,51 10,74
ELET6 1.029.791,51 10,74
SBSP3 866.950,50 3,37
GOAU4 721.701,00 1,20
WEGE3 584.032,46 1,63
SULA11 136.802,69 1,18

 

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