Entregadores de aplicativos fazem greve nesta 4ª feira

Queda no valor das entregas e fim dos bloqueios indevidos estão entre as principais reivindicações.

Conjuntura / 20:21 - 30 de jun de 2020

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Os entregadores de aplicativos vão fazer uma paralisação nas principais cidades do Brasil nesta quarta-feira. A greve deve alcançar outros países da América Latina, como Argentina, Chile e México, já que as mesmas empresas estão presentes em diversos locais.

As principais reivindicações são o aumento do valor mínimo das entregas e dos pagamentos recebidos por quilômetro rodado. Eles querem o fim dos bloqueios indevidos. Também consideram injustos os sistemas de pontuação das plataformas.

Em meio ao coronavírus, pedem ainda o custeio pelas empresas dos equipamentos de proteção individual (EPIs) – luva, máscara, álcool em gel – e licença remunerada para os trabalhadores que foram contaminados. Além disso, os entregadores reivindicam benefícios, como vale-refeição e seguro contra roubo, acidente e de vida.

Em São Paulo, os entregadores marcaram pontos de encontro, às 9h, em cada zona da cidade, na região central, e também em Barueri, Osasco, Embu das Artes e no ABC. Primeiramente, devem percorrer as respectivas regiões, buscando a adesão dos demais colegas. Na sequência, se encontrarão às 14h, na Avenida Paulista, onde realizam uma manifestação.

Posteriormente, ainda na parte da tarde, os entregadores se dirigem até a Ponte Estaiada, na Marginal Pinheiros, zona sul da cidade. Além de “brecar” as entregas do jantar, eles querem que a TV Globo faça a cobertura da manifestação, no horário do jornal local.

O presidente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Sérgio Nobre, convocou todos os sindicatos, federações, confederações e estaduais da Central Única dos Trabalhadores a apoiar a organização da greve dos entregadores. “A categoria tem toda a nossa solidariedade. Essa é uma greve mais do que justa contra a precarização imposta a esses trabalhadores”, afirma Sérgio Nobre, ao se referir aos entregadores, que são 10,1 milhões no país, segundo dados do Pnad-IBGE 2018, divulgados em dezembro de 2019. Os motoristas de aplicativos são 3,4 milhões, de acordo com o mesmo levantamento.

Sergio Nobre afirma ainda que “é absurdo, triste ver esses trabalhadores que cumprem jornadas de 12 horas por dia, sem descanso aos fins de semana, de domingo a domingo, chegar no final do mês e levar até menos de um salário mínimo para casa, sem direitos, sem proteção social, sem condições de trabalho nenhuma, sem regulamentação. Não podemos aceitar essa precarização”, disse o presidente da CUT.

 

América Latina

 

A greve está recebendo apoio internacional demonstrando que a luta da categoria por melhores condições de trabalho e remuneração é mundial e regulamentação da profissão é um dos grandes desafios dos trabalhadores.

Entregadores por aplicativos da Argentina, Chile, Costa Rica, Equador , Guatemala e México que reforçaram a unidade da luta em prol de melhores condições de trabalho, principalmente diante da pandemia.

Em nota, a associação argentina Agrupación de Trabajadores de Reparto (Grupo de Trabalhadores de Entrega, em tradução livre) afirma que a paralisação desta quarta é pela luta em busca de direitos e pela "regularização" do trabalho, assim como para "desmascarar a relação de 'colaboradores'".

Além do ATR, outros grupos também compõem o #YoNoReparto (em tradução livre, algo como "Eu não entrego"), como o RedApps Unidos Argentina, Treta no Trampo, Entregadores Antifascistas, RiderUnidosYaChile, Glovers, Repartidorxs Unidxz, entre outros.

Em um vídeo publicado nas redes, entregadores argentinos do grupo La Red, que compõem a Assembleia Nacional dos Entregadores da Argentina, saudaram os trabalhadores brasileiros e afirmaram que estarão juntos na paralisação internacional.

"Estas empresas nos tratam como material descartável em todas as partes do mundo enquanto enchem seus bolsos às custas das nossas vidas", diz um dos entregadores na filmagem.

Embora em alguns países como França e Inglaterra e alguns estados dos Estados Unidos, como a Califórnia, tenham uma regulamentação da profissão, no mundo inteiro o trabalho dos entregadores por aplicativos é precarizado, diz o professor do Departamento de Prática Jurídica e Coordenador da Clínica de Direito do Trabalho da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Sidnei Machado.

O professor atuou no projeto da UFPR que resultou na pesquisa da Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista (Remir), que mostrou que os entregadores por aplicativo tiveram durante a pandemia aumento da jornada de trabalho, mas o rendimento, ao contrário, caiu.

“O protótipo de trabalho precário é modelo dessas empresas que são capitalistas globais. Elas acabam promovendo o entendimento do trabalhador de que ele é autônomo, mas que na verdade não é. E como o lobby dessas empresas, tanto aqui como no exterior, é muito poderoso, dificilmente haverá uma regulamentação da profissão”, diz Machado.

 

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