Equipes multidisciplinares projetam cenários para o vinho do futuro sob altas temperaturas

Resultados de estudos científicos de instituições francesas sobre os impactos das mudanças climáticas na vitivinicultura.

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Laccave

De tempos em tempos, compartilho, nesta coluna, resultados de estudos científicos que se debruçam sobre os desafios da vitivinicultura mundial. Hoje, uma dessas questões passa pelos efeitos do aquecimento global sobre os vinhedos, uma vez que os bons resultados da viticultura dependem amplamente da questão climática.

Compartilho agora alguns resultados do projeto Laccave, do qual cheguei a participar de seminário em Bordeaux. O projeto foi desenvolvido durante 10 anos por uma equipe multidisciplinar de mais de 100 pesquisadores dos centros de pesquisa franceses INRAE (Instituto Nacional de Pesquisa em Agricultura, Alimentos e Meio Ambiente) e CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica), além de integrantes de instituições importantes do campo dos vinhos franceses, como o INAO (Instituto Nacional de Denominações de Origem), centros de promoção e sindicatos do vinho. A pergunta que o projeto Laccave tentou responder foi: “Como podemos ajudar quem trabalha na indústria do vinho a preparar-se para o clima de amanhã?” Seguem algumas dessas respostas e proposições.

A conservação e melhoria dos solos vitícolas surge como uma emergência para promover a resiliência das vinhas, considerada a toxicidade de algumas práticas da viticultura mais agressiva, que comporta muitos bioácidos, diminuindo a longevidade dos solos. Isso já tem sido um forte ponto de apoio para a relevância da viticultura orgânica e biodinâmica.

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A renovação e diversificação do material vegetal podem ser uma grande opção, com a introdução de variedades de uva mais adaptadas à nova realidade e a utilização de pares castas/porta-enxerto de maturação mais tardia, resistentes à seca e a altas temperaturas, evitando a tendência natural de, sob temperaturas cada vez mais elevadas, produzir-se açúcar demais e acidez de menos.

A gestão da água deve ser pensada de forma sistêmica, em função do tipo de vinho, das castas e das práticas vitícolas. A irrigação, proibitiva em muitas DOC’s, pode ser substituída por uma gestão responsável, a partir de um estudo particularizado, garantindo a sustentabilidade das qualidades alcançadas em cada território. A vinificação, por sua vez, deve evoluir mais e mais no sentido de limitar os efeitos das alterações climáticas (redução do teor alcoólico, ajuste da acidez) na qualidade das uvas.

Os riscos climáticos têm perturbado as estratégias econômicas. Os seguros privados devem estar associados a apoios e investimentos públicos ligados à prevenção e alerta dos desastres climáticos e seus impactos nos mercados vitivinícolas. Ter em conta as preferências dos consumidores é essencial para promover adaptações, mas também é necessário ter o consumidor como um aliado sensibilizado e implicado nas mudanças necessárias para fazer face às alterações climáticas. Seguindo-se a esses resultados, publicados em 2021, uma equipe internacional do INRAE e do Bordeaux Sciences Agro criou uma metodologia para analisar o comportamento de 11 variedades de uvas num cenário de aumento médio da temperatura de 2°C em 2050 e de 4°C em 2100. As variedades em teste foram Cabernet-Sauvignon, Chasselas, Chardonnay, Grenache, Merlot, Mourvèdre, Pinot Noir, Riesling, Sauvignon Blanc, Syrah e Ugni Blanc, que representam 35% da área plantada mundial.

Castas tardias como Syrah, Grenache e Mourvèdre poderiam desenvolver-se muito mais nas atuais regiões vitivinícolas, justamente por serem mais resistentes ao calor e à seca. Castas precoces como Chasselas, Pinot Noir e Chardonnay poderiam espalhar-se por novas regiões, anteriormente muito frias até para cepas precoces.

Os cientistas avaliaram impactos do aumento de temperatura em algumas das atuais regiões vitivinícolas mundiais e a conclusão foi de que países mediterrânicos, como a Itália e a Espanha, apresentam muitas possíveis perdas (cerca de 65%) e poucos ganhos (menos de 10%), enquanto as regiões correspondentes a latitudes mais elevadas, como a Nova Zelândia ou o norte dos Estados Unidos, apresentam principalmente ganhos. Finalmente, os países das zonas mais temperadas, como a França e a Alemanha, registraram tanto perdas como ganhos.

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