Era das trevas

À medida em que a maquiagem vai sendo borrada, as comparações entre as décadas de 80 e 90 se mostram ainda mais desfavoráveis à ultima, marcada pelo fundamentalismo neoliberal. Na década de 80, mesmo com investimentos de R$ 17,5 bilhões anuais a preços de hoje, a capacidade de gerar energia já crescia, em média, pouco menos que os 6% ao ano do consumo. Esse ritmo era quase três vezes maior que o do PIB. É que, apesar do fraco crescimento da chamada década perdida, o aumento dos preços do petróleo e a política do “exportar é a solução” estimularam fortemente a substituição de petróleo por eletricidade. Entre 1990 e 1994, os investimentos caíram drasticamente, fazendo o crescimento da capacidade em geração de eletricidade baixar para 2% ao ano.
O ritmo do crescimento econômico, porém, era  ainda mais fraco e o petróleo voltou a ser barato. Com isso, o aumento médio do consumo foi de apenas 3% ao ano. Collor retomou a construção da hidrelétrica de Xingó, mas deixou à míngua quase todo o restante do sistema. Já com Itamar, obras paralisadas começaram a ser retomadas, mas o volume dos investimentos continuou a cair.

Era das trevas II
Construída de 1982 a 1997, Xingó foi uma das obras semi-acabadas inauguradas pelo presidente FH e que fazem a alegria da mídia “chapa branca”. Apesar disso, o aumento de capacidade desde 1994 ficou muito aquém do necessário. Paralisadas ou em ritmo de obra de igreja, dezenas de construções do início da década de 80 ainda se arrastavam em 1994. Quando da edição do Plano Real, faltava relativamente pouco para a conclusão de obras fundamentais de geração.
Assim, apesar de os investimentos totais (incluindo os do setor privado) continuarem em patamar muito baixo em termos reais, o ritmo do aumento de capacidade de 1994 a 1998 teve ligeira retomada, chegando perto de 3% ao ano. Esse movimento, porém, era insuficiente para deter o risco de racionamento, caso o país retomasse, ainda que timidamente, o crescimento, como aconteceu com o fim do populismo cambial, no começo de 1999.

Era das trevas III
O Plano Decenal da Eletrobrás previa investimentos de US$ 6 bilhões por ano até 2004, quase três vezes mais do que foi efetivamente investido para atender ao crescimento anual do consumo de 4,6%. De 1994 a 1998, com investimentos em indústrias eletrointensivas, modernização do comércio e crescimento das vendas a prazo de eletrodomésticos, o consumo cresceu 5% ao ano.
Em 1999 e 2000 a Eletrobrás entesourou R$ 3 bilhões, para atender as necessidades de superávit primário (exclui gastos com juros). Se em vez de pagar juros, esses recursos tivessem sido investidos em geração termelétrica, o país teria produzido mais 2 mil megawatts, suficientes para suprir o déficit de energia no Nordeste. O caixa da Petrobras, no mesmo período, foi de R$ 13 bilhões, privando o país de mais de 8 mil megawatts necessários para evitar o racionamento em todo o país. Como se vê, surpreendidos pelo racionamento apenas os cínicos ou os que subestimam os efeitos da sua política de terra arrasada.

Colônia
O ministro Pedro Malan não esconde sua preferência pela língua de Shakespeare: em recente entrevista, se referiu ao FMI como IMF (sigla da instituição em inglês). O problema é que a predileção pelo que vem de fora – especialmente dos Estados Unidos – não é somente no campo da linguagem.

Deu no NYT
As notícias publicadas sobre a crise de energia elétrica no brasil repercutiram na seção de cartas do The New York Times. O economista americano Eugene Coyle, especializado em recursos naturais, escreveu afirmando: “O Congresso do Brasil me convidou recentemente para falar sobre a crise de eletricidade ali e na Califórnia. O Brasil é dependente de hidrelétricas, mas seus reservatórios têm capacidade de guardar até cinco anos de suprimento. Então, o problema não é a seca e sim as onerosas regras impostas pelas instituições de crédito internacionais durante a reestruturação da dívida, exigindo a privatização do setor e proibindo o sistema elétrico de aumentar sua capacidade. A necessidade de geração adicional de energia estava clara e as empresas tinham dinheiro para construir usinas, mas as mesmas companhias privadas de geração de eletricidade que estão saqueando a Califórnia não as construirão até que tenham a garantia de lucros exorbitantes sem risco quase nenhum.”

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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