Era uma vez, o mercado

Adoradores confiam no seu poder místico e rezam todo dia, quando cai o sol, todos voltados para Wall Street.

É, no mínimo, curioso o interesse que o brasileiro tem no assim chamado “mercado”. Os humores da bolsa, bolsa subiu, bolsa desceu, bolsa andou de lado etc. etc. Tirando os brasileiros verdadeiramente investidores (superavitários), e é claro, os tomadores (deficitários), é curioso. Mesmo considerando o bombardeio da mídia inflando o glamour da bolsa de valores e o gosto do brasileiro por hipódromos, loterias, bingos, roletas e carteados é curioso.

Nos anos 1970, o Menestrel Juca Chaves dizia que “morar numa casa com piscina é uma garantia de que o morador desta casa não se tornará comunista”. Hoje, talvez dissesse que a melhor garantia para não se tornar comunista é deter alguns dos papéis negociados no “mercado”.

Acostumei-me, como professor de Economia, ao ser apresentado a alguém como economista (ao que sempre acrescentei “ninguém é perfeito”…) ser perguntado, no instante seguinte “e aí ? A bolsa vai ou não vai?” Como se eu fosse um vendedor de prognósticos, ou como se fosse um especialista em corridas de cavalo, sempre com uma “barbada” guardada para os súbitos apostadores…“é que a gente quer apostar,” normalmente acrescentam…

Nesta situação, fico me perguntando, e se eu fosse um médico, obstetra por exemplo, pediriam “e aí? Beleza? Faz um parto aí pra gente saber se é menino ou menina”… “é que a gente quer apostar”…

Os humores da bolsa, como expressão do “mercado”, ah este endeusado “mercado”, com sua onipotência, para o qual há adoradores que confiam no seu poder místico e que rezam todo dia, quando cai o sol, todos voltados para Wall Street, é uma esfinge (“decifra-me ou te devoro”), que se dispõe todos os dias, o dia todo, a servir de explicação, ou até de justificativa para os bem feitos e mal feitos dos Homens no mundo, justamente por que é deles não mais do que uma abstração, inimputável, portanto.

Sensação de onipresença deriva da complexidade institucional arquitetada em seu nome. Este complexo tem diversificados objetos, a saber: ações, câmbio, juros, commodities, derivativos, títulos públicos, títulos privados e moedas.

Operando produtos e métodos específicos à circunscrição de cada objeto, a árvore de instituições contém em seus ramos 162 bancos comerciais e bancos múltiplos; mais bancos de desenvolvimento “puros” (só crédito especializado, como o BNDES); mais de 100 corretoras; mais de 40 distribuidoras; mais de 270 fundos de pensão com patrimônio que gira em torno de R$ 200 bilhões); mais de 100 seguradoras; cerca de 400 empresas de capital aberto (negociam na BM&FBovespa ações, títulos privados ou públicos; moedas, commodities; além de derivativos).

Os números, sempre inexatos, são para ressaltar a alta volatilidade do mercado, sujeito às bolhas expansivas circunstanciais ou provocadas, às guerras, às endemias e pandemias, enfim aos humores do mercado etc.

Há também uns ramos nesta árvore responsáveis por protocolos de regulação e fiscalização, como o Banco Central (Bacen) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Há também os “influencers” que, mesmo não sendo sediados no país, podem exercer grande influência sobre o “tal do mercado”, casos de vendedores de estratégias de ganhos (Goldman Sachs, Morgan Stanley, CS First Boston, Prudential; Merrill Lynch; UBS Warburg e JP Morgan – o maior operador no mercado secundário de Cbonds e outros títulos da dívida brasileira, tanto no mercado interno, quanto no externo).

São como “leões de chácara” dos investidores que aqui aportam com malas de dólares e euros, atraídos pelas taxas altíssimas estipuladas pelas autoridades monetárias brasileiras e que precisam de alguns insuspeitos fiscais e “corneteiros” de confiança (deles) que rezam a missa do mercado, com um olho no padre e o outro no jogo de arbitragem entre as taxas, realizada principal mente no pano verde das tesourarias dos bancos comerciais – o coração do mercado.

E os bancos brasileiros não fazem feio. No campo da rentabilidade dos grandes bancos do mundo (patrimônio igual ou maior do que US$ 100 bilhões), há quatro sediados no Brasil, quatro na Inglaterra, quatro no Canadá, três no Japão e na Coreia do Sul, dois na Espanha e na Índia.

A seguir, a relação dos mais rentáveis, pelo indicador de retorno sobre o patrimônio líquido (RPL), que indica a capacidade do banco gerar valor com recursos próprios.

  1. Banco Capital One (EUA; RPL de 20,4%, em 2021);
  2. Banco Ally Finantial (EUA, RPL de 19,3%, em 2021);
  3. Filial do Banco Santander (Brasil, RPL de 6% em 2010, para RPL de 18,9%, em 2021);
  4. Banco Itaú Unibanco (Brasil, RPL de 24%, em 2010, e de 17,3%; em 2021, detentor de US$ 388 bilhões em ativos);
  5. Banco JP Morgan (EUA, RPL de 16,9% em 2010, detentor de US$ 3,7 trilhões em ativos);
  6. Banco do Brasil (RPL de 24%, em 2010, para 15,7%, em 2021); e
  7. Banco Bradesco (Brasil, RPL de 22,3 %, em 2010, para 15,2%, em 2021).

Integram o mercado outras instituições, a saber. Bancos de investimento (brasileiros e estrangeiros), como Safra, Pactual, Votorantim, Deutsche Bank, CS First Boston , JP Morgan, Morgan Stanley, Citibank, e BNP Paribas. Integram também o mercado Corretoras, Distribuidoras, Fundos de Pensão, Seguradoras e Empresas de capital aberto.

O assim chamado “mercado” é integrado também pelo mercado monetário, mercado de crédito, mercado de capitais, mercado de cãmbio, e mercado de valores mobiliários.

 

O abominável Homo Economicus

Recuperando um pouco de Benjamin Graham, autor do livro O investidor inteligente, (1949) lembramo-nos da personagem por ele criada para apontar as decisões confusas (para dizer o mínimo), contradizendo o princípio da racionalidade das decisões econômicas Mas este assunto é para a quarta-feira que vem (4 de maio).

Feliz Ano Novo

Paulo Márcio de Mello
Servidor público professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

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