Era uma vez um planeta que virou pó

“…depois de se consumirem mil anos, Satanás será solto da prisão, saindo para seduzir as nações dos quatro cantos da Terra e reuni-las para a luta (…) mas desceu um fogo do céu e as devorou (…) e os mortos foram julgados segundo suas obras (…). Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra desapareceram e o mar já não existe”.

Apocalipse de São João

 

No ano 1000 da era cristã, os padres da Igreja interpretaram o Apocalipse de João como a predição de que o mundo se acabaria naquele ano. Muita gente doou suas posses e muitos se infligiram flagelos terríveis em busca da penitência e da salvação. Mas o primeiro dia do ano de 1001 acordou lindo e radioso e o mundo não acabou. Depois disso, muitas outras profecias anunciaram o fim do mundo, mas ele continua aí, firme e forte, apesar dos maus tratos que a Humanidade lhe pespega, dia após dia, noite após noite. A Covid-19 já foi anunciada como o início do fim dos tempos, e depois dela virão outras pestes ainda mais terríveis, e outras guerras, e outras catástrofes, e para cada uma delas um profeta de ocasião predirá o fim do mundo e das coisas e o mundo e as coisas continuarão aí, alheios a esses arautos de eternos Armagedons.

Pense comigo: agora mesmo, enquanto você lê este meu artigo e certamente se pergunta “onde é que essa louca quer chegar com isso?”, a Terra, o único lugar que temos para morar, está girando em torno do seu próprio eixo a uma velocidade de 1.666 quilômetros por hora, ou 465 metros por segundo. Nesse mísero segundo em que você tirou os olhos do computador para pensar no que eu disse, a Terra girou 465 metros, ou andou pelo vazio uma distância equivalente a cinco campos de futebol. Além disso, a Terra gira em torno do Sol a uma velocidade de 100.000 quilômetros por hora.

Segundo os cientistas, a Terra pesa cerca de 5.970.000.000.000.000.000.000.000 quilos. Ou seja: quase 6 septilhões de quilos. Ou 6 sextilhões de toneladas. Existem cerca de 100 bilhões de galáxias iguais à nossa, 160 bilhões de planetas fora do nosso sistema solar, 8 planetas no nosso sistema solar, 193 países na Terra e 7 bilhões e 594 milhões de almas morando aqui. Este planetinha, que as pessoas chamam carinhosamente de “minha casa”, é, na verdade, uma imensa bola de 6 sextilhões de toneladas girando a esmo pelo espaço a uma velocidade de 100.000 quilômetros por hora. Se ela errar o caminho e se chocar com algum astro maior e mais pesado, nós simplesmente viraremos pó.

Não se preocupe. Está escrito: “tu és pó e ao pó voltarás”.

Agora que você e eu sabemos que não somos mais do que inúteis vermes microscópicos nos agarrando à poeira de um imenso buraco negro para sobreviver num latifúndio cósmico hostil e desconhecido, talvez fique mais fácil entender por que a Covid-19 assusta tanto, e por que é tão difícil convencer certas pessoas de que o perigo é real, o inimigo é invisível, e se não fizermos a nossa parte o vírus vai aniquilar o planeta antes que nós mesmos o façamos com nossas inexplicáveis imbecilidades.

Este planeta, visto de fora, é uma imensa lata de lixo. Toda a água e ar de que precisamos para viver estão ali desde que o planeta nasceu. É nossa única reserva. Quando acabarem, acabaram. Simplesmente não temos onde buscar um tanque reserva. O planeta vai secar, mas, antes disso, todos morreremos asfixiados. Mas as pessoas continuam vomitando o seu lixo no quintal do outro como se estivessem de fato sujando o quintal do outro, e não o seu próprio quintal.

Leia mais:

Politicamente correto está deixando mundo pateticamente chato

O direito de ser deixado em paz

Mônica Gusmão
Professora de Direito Empresarial, do Consumidor e do Trabalho.

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