Escolhas e consequências

Por Ranulfo Vidigal.

Opinião / 17:15 - 5 de dez de 2019

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Há um ditado popular que diz: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. Esse bordão se ajusta como uma luva para as atitudes recentes do “aliado” Donald Trump (um presidente de raiz política nacionalista), em relação ao Brasil, suas riquezas e os interesses concretos em jogo, tanto na economia, quanto no acesso a ativos estratégicos (terra, recursos minerais e empresas produtivas).

Vivemos tempos de intensa polarização, tanto no Primeiro Mundo, quando na América Latina. O desconforto se traduz em manifestações de rua e greves. Nesse contexto, a terra da jabuticaba está longe de ser um oásis. Na divisão internacional do trabalho, apesar de ter construído no século passado um belo parque de indústrias, nossa Nação, depois do período de forte regressão, nos anos 1990, somente se capacitou para ofertar matérias primas minerais, alimentos, biodiversidade e energia – ativos cruciais que poderiam gerar cadeias produtivas locais e industrialização pagando bons salários.

 

No acumulado em quatro trimestres,

o PIB desacelerou mais um pouco

 

Entretanto, a opção da elite de plantão parece ser a de abrir mão dessa prerrogativa. Isso significa retroceder a um colonialismo cultural, financeiro e tecnológico perigoso e danoso para nossa rica sociedade. A maioria silenciosa convive com alto desemprego, altas taxas de violência rural e urbana e desmandos administrativos de toda ordem.

Vejamos por exemplo, a narrativa da recuperação econômica (desejada por todos nós, é claro). O PIB cresceu 0,6% no terceiro trimestre de 2019, em relação ao trimestre anterior. Outra forma de analisar é pela taxa acumulada em quatro trimestres, por exemplo. Nessa métrica, o PIB desacelerou mais um pouco, convergindo para 1% anualizado. Essa desaceleração vem desde o início de 2018.

Sem euforia dá para ver que o consumo acelerou, a taxa de investimento voltou a crescer, mas com velocidade menor. A grande frustração está nas exportações, que sempre foram importante para a recuperação cíclica. E o consumo do governo continua negativo.

Por outro lado, houve forte crescimento da produção extrativa mineral que havia sido muito afetada pelo rompimento da barragem em Minas Gerais. A notícia positiva é a construção civil que aos poucos volta a respirar. Os serviços relacionados ao governo caem e a indústria continua apanhando feio.

Resumo da ópera: com a produção movendo-se 3,6% inferior ao patamar alcançado em 2014 e tendo a taxa de investimentos respondendo por apenas 4/5 da verificada cinco anos atrás, a economia vive a mais prolongada e instável recuperação desde que o capitalismo se tornou dominante no Brasil, ou seja, há 13 décadas.

Nesse quadro temos ainda muito pouco a comemorar. Ou não?

Ranulfo Vidigal

Economista.

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