Escravocratas de ontem e de hoje

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Racismo e desigualdade (charge de Vanes)
Racismo e desigualdade (charge de Vanes)

O que leva alguém a agir dessa maneira em 2023?

 

Em 2017, a Rede Globo de Televisão levou ao ar a novela Novo Mundo, cujo pano de fundo era o Brasil no período em torno da Independência, da qual a curiosidade despertada pela ambientação histórica me levou a assisti-la sempre que podia. Tramas ficcionais à parte, o enredo proporcionava uma visão das lutas que antecederam o 7 de setembro de 1822 e se seguiram a ele, algo sempre interessante em um País em que a ignorância da própria história é regra geral.

Uma cena que recordo até hoje tornou-se para mim uma síntese do grande drama brasileiro: a escravidão e a mentalidade escravocrata de boa parte das ditas elites nacionais – e, principalmente, das “subelites”, ou a “subcasta”, como prefiro chamá-la – algo que, tragicamente, ainda nos acompanha. Já tentei encontrá-la várias vezes no YouTube, mas como não tive sucesso recorro à memória e me desculpo pelas eventuais falhas.

Nela, a personagem da atriz Isabella Dragão (nome artístico bastante injusto com a sua beleza), filha de um escravocrata de alto coturno interpretado pelo soberbo ator Roberto Cordovani, contestava veementemente o castigo físico que o pai aplicava a uma escrava já idosa, papel da grande Dhu Moraes, a Tia Nastácia de uma das encarnações globais do Sítio do Picapau Amarelo.

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A filha diz algo como: “Você não pode fazer isso com ela!…”

O escravocrata ensandecido infla o peito, se ruboriza de fúria e troveja uma frase que sintetiza a visão do mundo que compartilha com os oligarcas contemporâneos:

“Eu posso sim! Ela é minha! Eu paguei por ela!…”

Essa cena sempre me vem à lembrança diante de episódios do nosso cotidiano nos quais emergem manifestações desse ranço que ainda nos persegue na terceira década do século 21. Um deles ocorreu dias atrás, com uma bizarra série de agressões de uma mulher ensandecida em São Conrado, Zona Sul do Rio de Janeiro, a um entregador de aplicativo cujo único “delito” aparente foi compartilhar o mesmo espaço físico que ela. Gravações das inevitáveis câmeras de vídeo e dos ainda mais onipresentes celulares divulgaram ao País inteiro o brado de intolerância da criatura, que, não satisfeita, passou a agredi-lo:

“Você não está na favela. Você está aqui. Quem paga o IPTU aqui sou eu, rapaz!”

E a desequilibrada pagadora de IPTU ainda fez uma ameaça contra qualquer tentativa de denúncia da sua estupidez, alegando ser prima do governador e de um delegado da Polícia Federal (parentesco prontamente negado pelo governador Cláudio Castro).

Max Ângelo dos Santos, o entregador agredido com uma coleira de cachorro, captou bem o que, muito provavelmente, foi uma motivação da agressão:

“Eu me senti muito mal, porque pareceu que ela tava dando chicotada num escravo. O escravo não fez um serviço direito, ela foi lá e deu chicotada nele. Me senti muito humilhado.”

Não precisa dizer que ele, um pai de três filhos que trabalha mais de 10 horas por dia para sustentá-los, é negro.

Assim, no mundo das redes sociais e comunicações em tempo real, Sandra Mathias Correia de Sá saiu da merecida obscuridade para receber o seu quinhão de notoriedade instantânea, ainda que da pior variedade possível.

Ficamos sabendo que foi jogadora de vôlei de praia, que tem uma escolinha do esporte na Praia do Leblon – cuja renovação de licença foi suspensa pela Prefeitura até o esclarecimento total dos fatos – e que seu relacionamento com colegas de trabalho na areia e com vizinhos do condomínio onde vive de aluguel não é dos melhores.

Por que será?

Fico pensando: o que leva alguém a agir dessa maneira em 2023? Pelo visto, nem a onipresença de celulares e câmeras de segurança e a possibilidade de ver a sua própria intolerância exposta em questão de minutos nas redes sociais e na mídia foram suficientes para dissuadir a celerada. Quantas e que perturbações devem passar pela mente de uma pessoa dessas, que ainda vê seres humanos de pele escura como o escravocrata da novela?

Todavia, para esses escravocratas mentais, que ainda existem em número infelizmente considerável, nada como a execração pública e punições como a imposta pela Secretaria Municipal de Esportes, que, espero, se torne definitiva.

Triste Brasil. Não sei se a minha geração verá a mudança de rumo positiva pela qual grande parte dela tem se empenhado em nossa vida adulta, mas se isto estiver no nosso futuro, se deverá ao empenho e exemplo dos Max Ângelos, e não ao ranço das Sandras Mathias que teimam em viver no século 19, enquanto empesteiam o 21.

 

Geraldo Luís Lino é geólogo, escritor e cidadão brasileiro.

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