Escravos de economia morta

Como será o mundo neopandemia de coronavírus.

Empresa Cidadã / 19:57 - 28 de abr de 2020

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

Em mais uma frase conhecida do seu apurado humor típico inglês, John Maynard Keynes (Cambridge, 5 de junho de 1883 – Tilton, East Sussex, 21 de abril de 1946), disse que “os homens práticos, que acreditam estar livres de qualquer influência intelectual, geralmente são escravos de algum economista morto”.

Na carona do economista inglês, diria que, geralmente, são escravos de alguma economia morta. Como acontece em nosso país. Políticas econômicas injustas (iníquas), concentradoras de renda, excludentes, ambientalmente predatórias são despidas e exibem descaradamente as suas vergonhas quando uma crise como a que vivemos com o coronavírus se apresenta.

Austeridade que se transforma em “austericídio”, quando são cortados recursos da saúde, da educação e outros recursos para fins sociais. Foi o que aconteceu com a aprovação da Emenda Constitucional do Teto dos Gastos, derivada da PEC 241, que mexeu na CF88, para instituir o auto-proclamado “Novo Regime Fiscal” (NRF). O tal NRF significa o congelamento, por 20 anos, dos gastos públicos da União, admitindo-se apenas a correção dos valores pela inflação, conforme variações captadas pelo IPCA/IBGE. Apesar de nenhum debate consequente com a sociedade sobre a “nova” política ter sido promovido, não faltaram avisos.

Na Saúde, pesquisadores da Fiocruz estimaram as perdas em algo situado entre R$ 400 bilhões e R$ 430 bilhões, até 2036. O objetivo da Emenda foi o de conter o crescimento da relação entre a dívida pública e o PIB, através do congelamento da despesa. A dívida pública é o resultado da relação entre gastos e arrecadação, sendo esta última, suscetível à farra da renúncia fiscal com que as corporações são contempladas. Subsídios, incentivos e até frouxidão ante a cobrança de impostos (haja vista a relação de devedores da Receita, um leão manso ou bravo, conforme a caça...).

 

A Covid-19 entra em cena

Aí, entra em cena a pandemia do novo coronavírus. Faltam médicos e demais profissionais da saúde. Muitos são cruelmente abatidos, por falta de EPIs. Falta de EPIs ou de gastos públicos em EPIs? Preocupação com as favelas, onde o distanciamento social é obstado pela precariedade e proximidade das habitações. Ou por falta de gastos públicos com saneamento, urbanização e habitação popular digna deste nome? Os “homens brancos de terno” que cuidam destas políticas públicas são 100% mercado financeiro, de onde vieram e para onde voltarão. Não conhecem o Brasil real e, apesar do peso das opiniões contrárias, estão satisfeitos e falam em “quando tudo voltar ao normal”. Como “normal” refere-se somente a distribuição de frequência, não sendo sinônimo de natural, nem tampouco de inevitável, questiona-se: como será o mundo neocoronavírus?

 

O mundo neopandemia de coronavírus

Desde já, são perceptíveis alguns valores que decantarão no mundo neopandemia de coronavírus. Entre os que deverão desaparecer está a necroeconomia neoliberal, a economia do 1% (há uma corretora em Wall Street que se anuncia assim, “a corretora do 1% que realmente importa”).

O secretário-geral da ONU, António Guterres sinalizou algumas alternativas, por exemplo, do que deverá ser prioritário na execução do gasto público ao dizer que, o fim da pandemia “exige o esforço de saúde pública mais maciço da história do mundo.” Acrescentou que todos os novos recursos que sejam desenvolvidos devem ser considerados “um bem público global e essencial.” Os bens públicos caracterizam-se pela condição de indivisíveis e, portanto, não permitem o status de tomadores de preços de mercado. São, e serão cada vez mais, células de negociação entre os agentes econômicos e sociais.

Guterres prevê que o mundo necessita de soluções acessíveis, seguras, universalmente disponíveis, com o compartilhamento de dados e o envolvimento comunitário. Fundamentando as suas previsões, ele acrescentou que, por muito tempo, o mundo sentiu falta de investimentos em ambiente limpo, segurança cibernética e paz.

 

Aliança global

Uma iniciativa da OMS bem exemplifica a natureza dos processos dispostos no mundo neopandemia de coronavírus. Trata-se da criação da Aliança Global. É uma parceria ampla, entre governos, ONGs e empresas privadas, para buscar a cura da Covid-19. Foram convidados e participaram Melinda Gates, presidente da Fundação Bill e Melinda Gates; Fundo Global contra HIV, Tuberculose e Malária; Aliança Global de Vacinação (Gavi); Cruz Vermelha; Crescente Vermelho; Comunidade Europeia; chefes de Estado ou de governos de diversos países (África do Sul, Itália, Costa Rica, Alemanha, Ruanda, Arábia Saudita, Noruega, Espanha, Reino Unido, G20 e países da União Africana). Banco Mundial; associações científicas e associações de representação industrial (Federação Internacional de Farmacêuticos e Associação Internacional de Medicamentos Genéricos).

Esse é o mundo que se aproxima.

O governo brasileiro não participou. Não foi convidado.

 

#fiqueemcasa

Bons livros, bons vídeos, boas companhias.

 

Paulo Márcio de Mello é professor servidor público aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor