Escuridão se alastra

Fabiola Sulpino Vieira pediu exoneração do cargo de coordenadora da área de saúde do Ipea. Funcionários do Instituto garantiram à BBC que a decisão foi fruto de “pressão interna” e “intimidação” – que a entidade nega – após a pesquisadora ter divulgado estudo, feito junto com o pesquisador Rodrigo Benevides, que aponta que a PEC 241 pode resultar em perdas de até R$ 743 bilhões para a saúde. O presidente do Ipea, Ernesto Lozardo, divulgou nesta semana nota contestando a posição da pesquisadora e declarando apoio do instituto à proposta.

Se alguns nomes conservadores acusavam o Instituto de simpatia pelas teses petistas, antes do golpe, a situação ficou bem mais turva após a mudança no comando da instituição feita pelo Governo Temer. Pesquisas otimistas sobre uma possível recuperação da economia – nem tanto os estudos em si, mas a forma como são divulgados – têm saído das gavetas do Ipea, embora com números contraditórios que em momento algum permitem se chegar às conclusões que se tenta passar à sociedade.

Tais sinais são preocupantes. Será que a Fundação Getulio Vargas perderá convênios com o Governo Federal após ter mostrado que, se a imposição de teto de gastos estivesse em vigor desde 1988, o salário mínimo seria hoje de R$ 400, pouco menos da metade do valor atual? A direção da FGV rapidamente assinalou que o estudo não reflete a posição da instituição, e sim pessoal do autor, Bráulio Borges. Calar vozes contrárias não só aprofunda a divisão, mas reforça o discurso dos que vêm um estado de exceção em crescimento.

Convicção

A revelação de dados das investigações da Polícia Federal sobre os últimos episódios da Lava Jato reforçam as suspeitas de que as delações são até agora os grandes argumentos sobre os quais se baseiam as condenações feitas pelo juiz Sérgio Moro.

JD, apontado como sendo José Dirceu para justificar a prisão do ex-ministro, virou Juscelino Dourado (faltou um mea-culpa da PF) quando Antonio Palocci passou a ser o investigado. A polícia pede agora a conversão da prisão do “Italiano” de preventiva para provisória alegando que ele tentou destruir provas.

Diversas estações de trabalhos na empresa (Pace, de Palocci) estavam plenamente equipadas, à exceção dos gabinetes dos computadores, o que pode indicar que tenham sido até mesmo destruídos ou colocados fora do alcance da Polícia Federal”, diz documento da PF enviado a Moro.

(A Redação do MM no Rio se declara culpada; há duas estações em que as CPUs – que a PF chama de gabinetes – não estão no lugar, pois serão substituídas por outras mais novas)

Os investigadores da Lava Jato atribuem a Palocci tratativas para a aprovação do projeto de transformação da Medida Provisória 460, de 2009, em lei, o que resultaria em benefícios fiscais para a Odebrecht. Bastaria consultar o site da Câmara dos Deputados – afinal, nem seria uma investigação tão demorada assim – para verificar que o então deputado votou contra esta MP. Posteriormente, defendeu veto, o que o presidente Lula acabou fazendo.

Para solicitar a prisão do igualmente ex-ministro da Fazenda Guido Mantega a Polícia Federal alegou que ele e sua esposa, Eliane Berger, tinham passagens compradas para Paris para o dia seguinte à operação da mulher de Mantega. Como fica difícil acreditar que alguém fosse fazer uma viajem de 10 horas um dia depois de se submeter a delicada cirurgia, a PF passou a alegar que a passagem poderia ser marcada para qualquer momento.

Ou seja, pedem a prisão do ex-ministro porque ele gastou um punhado de dólares a mais para comprar um bilhete de embarque que permite remarcação sem pagar multa – uma decisão mais que óbvia para quem tem um problema delicado de doença que pode resultar em imprevistos.

Quem sabe mais adiante a PF não vá dizer que “Italiano” é o codinome do presidente Lula, que disse que pediria asilo em Garanhuns (Pernambuco), já que lá existe uma Rua Itália?

Rápidas

A ministra Carmem Lúcia, presidente do STF, fará a palestra “Liberdade de expressão na comunicação tecnológica”, no X Fórum Aner, da Associação Nacional de Editores de Revistas, dia 20, em São Paulo *** Aliás, a presidente do STF deveria ter certa precaução com o excesso de presença na mídia tradicional *** O próximo “Encontro de Games”, no Shopping Jardim Guadalupe (RJ), será neste domingo *** A Studio Law fará três oficinas em São Paulo sobre oportunidades seguras de discussões judiciais em matéria de créditos tributários. A primeira será em 27 de outubro. Inscrições: goo.gl/forms/U9ul9H9v3o4FqS513 *** A Roncato Advogados realizará na próxima terça-feira a palestra “Passivo Tributário – Como administrá-lo em tempos de crise”. Inscrições gratuitas por e-mail ([email protected]) ou telefone (11 3171-0588), com com Gracielle Leite *** O Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro convida para a Noite Cultural dos Médicos, próximo dia 21, às 20 horas, no Espaço Cultural Edison Rodrigues da Paixão, na sede do SinMed/RJ. O evento homenageará o Dia do Médico, comemorado em 18 de outubro.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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