Vivemos um momento de transformação estrutural no mundo dos negócios. O que, há alguns anos, era visto como iniciativa voluntária de sustentabilidade, responsabilidade socioambiental, transparência e ética na gestão, hoje compõe critérios centrais na alocação de capital global e na definição de riscos estratégicos. A sigla ESG (Environmental, Social and Governance), longe de ser um modismo, está consolidada como referencial nas decisões de investidores institucionais e gestores de ativos.
Segundo projeções de organizações especializadas, ativos globais sob critérios ESG deverão alcançar cerca de US$ 34 trilhões em 2026, o equivalente a mais de 21 % do total mundial de ativos sob gestão (assets under management), sinalizando o crescimento contínuo da disciplina em níveis próximos ao mainstream financeiro.
Esses números demonstram que ESG deixou de ser apenas uma etiqueta ou um discurso de marca para se tornar parte indissociável do processo de avaliação de valor e risco nos mercados de capitais. Essa relevância crescente pode ser observada não apenas no tamanho absoluto dos recursos que se alinharem a critérios sustentáveis, mas também na forma como grandes gestores e fundos soberanos — como o fundo de riqueza da Noruega, com mais de US$ 2,2 trilhões sob administração — empregam ferramentas sofisticadas, incluindo inteligência artificial para rastrear riscos ESG em milhares de empresas globalmente.
No entanto, por mais robusta que seja a adoção de critérios ESG pelos mercados financeiros, o que essa evolução revela é uma verdade ainda mais profunda: ESG não pode ser um projeto isolado dentro de uma empresa, ele é consequência da postura do dono e da cultura que esse líder constrói.
A percepção de ESG como consequência da liderança começa pela cultura corporativa. Empresas não se tornam ambientalmente responsáveis ou socialmente justas por decretos internos ou pela criação de comitês específicos. Elas se tornam assim quando o líder encarna esses valores no dia a dia, comunicando-os de forma consistente e alinhando decisões estratégicas com princípios claros. Cada contratação, cada negociação com fornecedores, cada investimento em tecnologia ou expansão é um reflexo direto da postura do dono.
Essa lógica também se aplica à governança corporativa, o “G” do ESG. Ética, transparência e responsabilidade não são itens que podem ser terceirizados. Um conselho de administração só terá efetividade se os líderes demonstrarem coerência entre discurso e prática. Quando o dono atua de forma íntegra e responsável, ele estabelece padrões que permeiam toda a empresa, desde a cadeia de suprimentos até a relação com clientes e investidores. Por outro lado, quando há desalinhamento entre a postura do líder e os princípios declarados, qualquer iniciativa ESG se reduz a um projeto simbólico, incapaz de gerar impacto real ou valor sustentável.
Além disso, a postura do dono influencia diretamente a resiliência e a longevidade da empresa. Negócios conduzidos com atenção a critérios ambientais, sociais e de governança tendem a se adaptar melhor a mudanças regulatórias, crises econômicas e transformações de mercado. Estudos recentes indicam que empresas com práticas ESG consolidadas apresentam risco financeiro inferior e maior valorização de mercado, justamente porque a liderança incorporou a visão de sustentabilidade no centro da estratégia corporativa, e não apenas como uma iniciativa complementar.
No contexto de fusões e aquisições, essa diferença se torna ainda mais evidente. Investidores e fundos avaliam diligentemente fatores ESG, não apenas por exigência regulatória, mas porque eles são indicadores da maturidade e da confiabilidade da gestão. Uma empresa com postura consistente do dono em ESG tende a apresentar processos mais claros, riscos mitigados e, consequentemente, maior atratividade no mercado de M&A. Isso demonstra que ESG é, acima de tudo, um reflexo do estilo de liderança e da visão de longo prazo de quem está no topo.
A transformação de uma empresa começa pelo líder. Da mesma forma, uma empresa só se torna genuinamente ESG quando o dono atua com consistência, integridade e propósito. ESG, portanto, não é um checklist ou um projeto isolado, mas a manifestação natural da postura do líder que entende seu papel e impacto, dentro e fora da organização.
Rodrigo Baraldi, advogado e conselheiro estratégico de M&A

















