‘Está vivo quem pelea’

'Mas não basta, para ser livre/Ser forte, aguerrido e bravo./Povo que não tem virtudes/Acaba por ser escravo' (Hino do Rio Grande do Sul).

Empresa Cidadã / 19:57 - 8 de set de 2020

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Em tempo de entreguismo explícito, capaz de fazer corar até o ex-vice presidente dos EUA, Al Gore, é bom lembrar-se, quando do 20 de setembro, da Batalha do Fanfa à Carta de Alegrete, das memórias vivas de Bento Gonçalves, Anita e Giuseppe Garibaldi, João Goulart, Leonel Brizola, Alberto Pasqualini, Universindo Rodríguez Díaz, Lílian Celiberti e tantos mais, guerreiros natos nas lutas por ideais. Inesquecíveis.

Está vivo quem pelea” (expressão do senso comum gaúcho).

 

A arte invade as ruas

Um fenômeno sugestivo avança há alguns anos. Trata-se da aceitação como manifestações de arte popular (sobretudo das artes plásticas), de rua, também conhecidas como “street art”. Sem os cuidados que receberiam nas tradicionais galerias, estas manifestações não têm donos (razão da contrariedade dos que preferem se adonar de tudo), não podem ser levadas para casa, acabam sendo perecíveis, já que ficam expostas ao tempo e à poluição. Renunciam ao ambiente “neutro” das salas de exposição em troca de outro, com clima, sons, estética com ideologia popular e preocupações inerentes ao contexto em que são criadas ou retratam. Podem ser fotografadas, mas preocupe-se com o equipamento.

E, acima de tudo, sempre que há alguma distração dos interessados, estas realizações são destruídas ou reprimidas pelos estamentos mais reacionários, escravistas e antipopulares da sociedade. Alguns casos se tornaram emblemáticos, como a reação do “prefeito engomadinho”, que mandou cobrir painéis com nata cinzenta de concreto. Apesar de tudo, alguns artistas de rua tornaram-se conhecidos e reconhecidos internacionalmente. Quem não conhece o brasileiro Kobra, dos painéis gigantescos da área restaurada do porto do Rio de Janeiro e da High Line, em New York?

 

O projeto ‘Arte Fora do Museu’

Há cerca de dez anos, Andre Deak e Felipe Lavignatti criaram o projeto “Arte Fora do Museu”, um inventário vivo e interativo da arte disposta pelas ruas de São Paulo (SP). São cerca de 2 mil obras cadastradas, classificadas em quatro categorias, a saber: street-art; esculturas; murais e arquitetura.

Cada um pode fazer assim o seu roteiro pessoal das obras a serem apreciadas, a partir do georreferenciamento do celular ou do computador, uma outra forma de conhecer a cidade. Pode também alimentar o banco de dados do “Arte Fora do Museu”, bastando fotografar o que pretende incluir usando a #arteforadomuseu no Instagram e a obra será incluída.

Para quem acha que só é possível amar o que se conhece, este é um caminho para amar ainda mais São Paulo.

 

30 Anos do Código de Defesa do Consumidor

Um brasileiro que tentar trocar uma mercadoria com defeito tem que saltar muitos obstáculos para convencer o comerciante a fazê-lo. Normalmente, o consumidor é visto e tratado com desconfiança e má vontade. As relações com o consumidor são potencialmente belicosas. Quem já teve a experiência de trocar um eletrônico ou uma banheira plástica nos EUA, por exemplo, e sequer foi capaz de embalar a mercadoria trocada (caso da banheira), teve a surpresa de simplesmente falar para um balconista que queria fazer a troca, para ter o seu objetivo prontamente atendido. Diante disso, o Código de Defesa do Consumidor (CDC, Lei Federal 8078/1990) representa um avanço nas relações de urbanidade no Brasil. Sobretudo, com o crescimento acentuado do comércio eletrônico nos anos mais recentes.

Entre os desafios previstos no avanço das relações com os consumidores encontram-se aperfeiçoamentos com vistas à segurança; sustentabilidade, publicidade ética; acessibilidade; privacidade; inclusão das atividades financeiras; e transparência; entre outros.

Hoje, a cidadania se confunde equivocadamente com o consumo, em muitos aspectos. Importante também lembrar-se que o estágio alcançado pelas relações sociais de consumo de bens e serviços em todo o mundo deve-se ao pioneirismo, coragem e luta incansável do advogado Ralph Nader (27 de fevereiro de 1934, 86 anos), um dos nomes do século XX. Seu livro, Unsafe at Any Speed, que retrata as suas lutas contra as grandes empresas envolvidas em crimes corporativos, causou grande impacto.

Esta edição da coluna Empresa-Cidadã é uma homenagem e agradecimento a Ralph Nader.

 

Agenda

Lançamento do livro América Latina em Tempos de Pandemia Live 17 de setembro, 16h. Mais informações: nucleas@gmail.com

Nesta temporada das “lives”, há uma excelente dica para o próximo dia 17 de setembro, de um encontro com Maria Teresa Toríbio Brittes Lemos e Alexis T. Dantas, no lançamento do livro América Latina em Tempos de Pandemia – Crises, Mortes, Descasos e Solidão, por eles organizado. O livro traz artigos de ávida leitura, como os de Sebastião Pimentel Franco, professor de História da UFES, e Maria Cristina Alochio Paiva, médica e doutoranda em História, sobre a gripe espanhola no estado do Espírito Santo, sendo o resultado de estudos de pesquisadores latino-americanos sobre impactos de crises sanitárias, sociais e econômicas na América Latina.

A organizadora Maria Teresa Toríbio, usina inesgotável de saber, é Professora Titular em História da América; Mestre em História das Américas (UFF); Doutora em Filosofia, Pensamento Luso-Brasileiro (UGF); com Pós-Doutorado pela Universidade de Varsóvia (Cesla/UW); Coordenadora do Núcleo de Estudos das Américas (Nucleas); autora e organizadora de livros sobre América Latina. Como os frutos não caem longe da árvore, o coorganizador Alexis T. Dantas é o diretor da mais antiga Faculdade de Ciências Econômicas do Brasil (FCE/Uerj).

Imperdível.

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do RJ (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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