Estimativa de uma contração de 7,2% para o PIB do Agro no 1T24

Nesta entrevista Felippe Serigati analisa o que aconteceu em 2023, quando o PIB do Agro cresceu 15,1%, e que não está acontecendo em 2024.

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Felippe Serigati (foto FGV Agro)
Felippe Serigati (foto FGV Agro)

Conversamos com Felippe Serigati, pesquisador do FGV Agro, sobre a expectativa da instituição para o PIB do Setor Agropecuário que será divulgado no próximo dia 6 de junho, quinta-feira.

Qual a expectativa do FGV Agro para o PIB do 1T24 do Setor Agropecuário?

O FGV Agro não faz esse tipo de estimativa, até porque nós temos o FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia) que gera esses números. O Ibre está estimando para o PIB do Agro do 1T24, comparado ao 1T23, uma contração de 7,2%.

O que aconteceu em 2023, principalmente no 1T23, que não está se repetindo em 2024?

No ano passado, nós tivemos uma supersafra, com especial destaque, justamente, para os grãos, quando nós chegamos a colher 162 milhões de toneladas de soja. Nós também tivemos uma primeira safra muito boa de milho, que quando se juntou a segunda safra, que só entra na conta do segundo trimestre, também gerou uma safra recorde, o que permitiu que o Brasil fosse o maior exportador de milho do planeta.

Além disso, nós tivemos condições climáticas, de forma geral, bem favoráveis, sendo a única exceção uma seca no Rio Grande do Sul. Combinado com isso, nós tivemos produtores que conseguiram viabilizar sua produção mesmo com os custos mais elevados devido à Guerra na Ucrânia. Isso porque, por mais que o conflito tenha inicado em fev/2022, a colheita que foi feita no 1T23 era de um plantio que havia sido feito no 4T22, cujos fertilizantes haviam sido comprados em algum momento do 2T22 e do 3T22. Ou seja, não é algo imediato, mas um processo.

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No ano passado, houve condições que deram muito certo e que geraram uma supersafra, só que agora, em 2024, não está sendo assim, com grande destaque para as questões climáticas. Nós operamos a Safra 2023/2024, principalmente a safra de verão, sobre as condições do El Niño, o que gerou uma condição de seca, principalmente nas regiões Centro e Norte do país, além de temperaturas acima da média que acabaram reduzindo a produtividade de diversas regiões.

Por fim, quem estava com uma situação mais confortável era justamente a região Sul, com especial destaque para o Rio Grande do Sul, tanto que o estado seria nesta safra o segundo maior produtor de soja do país, mas, devido à tragédia ocorrida na virada de abril para maio, não temos claro qual será o volume da safra final do Rio Grande do Sul.

Contudo, há uma preocupação adicional quando se olha para o Rio Grande do Sul, que é justamente a qualidade dos grãos. Mesmo que eles sejam produzidos e entrem na contabilidade oficial, se os grãos tiverem um teor muito grande de umidade, a própria indústria esmagadora ou o próprio exportador podem não recebê-los. Nós só vamos saber disso através de relatos de mercado, pois essa situação não vai aparecer nos números oficiais.

Como o problema do Rio Grande do Sul deve impactar o PIB do 2T24 e o PIB do ano do Setor Agropecuário?

Em primeiro lugar, nós temos um enorme ponto de interrogação. Provavelmente, nós vamos ter uma contração do PIB das atividades agropecuárias neste ano, mas nós não podemos atribuir a fração majoritária dessa contração aos problemas do Rio Grande do Sul.

Embora o estado tenha sido afetado, não é a fração majoritária da sua produção agropecuária que foi perdida, pois a maior parte da soja e do arroz já haviam sido colhidos. Nós vamos ter alguma perda daqueles produtos que haviam sido colhidos e que estavam nos estoques, embora ainda não tenhamos a dimensão disso, mas essa não será a fração majoritária. O estado também teve perdas na criação de animais, como frangos e suínos, e em menor medida na pecuária de corte e na pecuária de leite.

Infelizmente, tudo isso vai contribuir de forma negativa, mas não sabemos a dimensão desse número negativo. Como as águas estão começando a baixar, nós não temos nem condições de fazer essa contabilidade. Junto com isso, o Rio Grande do Sul é um importante produtor de trigo e de culturas de inverno, ou seja, culturas que começariam a ser plantadas ao longo do 2T24, mas não está claro quais são as condições desses plantios.

Entenda-se por condições, três pontos. Primeiro: os produtores, machucados pela tragédia, vão ter condições de realizar os plantios? Segundo: quais são as condições do solo? Se ele estiver muito encharcado, será necessário esperar um pouco mais para realizar esse plantio? Terceiro: vamos imaginar que esse produtor estivesse aguardando a chegada de insumos de produção, sendo que o mesmo caminhão que leva o grão é o que traz os fertilizantes e os defensivos. Esse produtor tem os insumos prontos para realizar a produção ou estava esperando eles chegarem? Se estava esperando, ele vai receber? Se ele já tinha recebido, os insumos foram perdidos ou ainda estão em condições de uso?

Veja que nós temos enormes pontos de interrogação. Isso porque estamos olhando para a questão de volume, já que o PIB olha para volume de produção, pois nem estamos falando de renda no momento.

Qual a expectativa do Ibre para o PIB do Agro de 2024?

No momento, a expectativa do Ibre é de uma contração de 3,4% do PIB da atividade agropecuária para 2024.

Tecnicamente, o Governo Federal está apoiando o Setor Agropecuário de forma apropriada?

Depende. O governo tem buscado apoio do setor, pois vamos lembrar que a atual gestão não é um grupo político que iniciou seu mandato com o seu apoio, que recebeu muitas falas duras por parte dessa gestão, mas é difícil dizer que existe uma afinidade natural.

Há um esforço do governo de tentar buscar esse apoio por meio da concessão de recursos, principalmente via crédito, mas o Plano Safra responde por uma fração bem limitada da necessidade de financiamento total do setor. Não é um Plano Safra maior ou menor que vai fazer o setor produzir uma safra recorde ou não. Naturalmente, ele tem a sua importância ao atuar, principalmente, no que chamamos de falhas de mercado.

Por exemplo, o Pronaf (Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar) consumiu no ano passado quase R$ 6 bilhões. O crédito para custeio, pouco mais de R$ 1 bilhão. O crédito para investimento, seja rural, seja agroindustrial, se não me engano, foi em torno de R$ 3 bilhões. O Pronaf é de longe o que mais consome, o que faz sentido, porque está atuando num conjunto de produtores que têm dificuldades enormes para buscar seus recursos junto ao setor privado.

Além disso, nós temos a questão do Seguro Rural, que foi uma perna do Plano Safra que veio muito frágil no ano passado. Neste ponto, nós poderíamos ter um papel dos governos estaduais, que poderiam complementar a subvenção do Governo Federal referente ao Seguro Rural dentro dos seus estados.

Os governos estaduais poderiam pagar uma fração dos prêmios que são pagos às seguradoras, o que reduziria o custo para o produtor e ampliaria a cobertura do seguro. Isso tem acontecido no Estado de São Paulo, mas eu não sei dizer como está a situação nos outros estados. Ainda assim, seria algo complementar, pois o principal é uma política pública que seja horizontal. Independente de se estar produzindo soja no Mato Grosso ou em Goiás, a regra tem que ser a mesma.

Há uma aproximação equivocada do governo, que está achando que vai ter apoio do setor oferecendo recursos. Não é bem assim, pois a agenda do setor vai bem além da necessidade de crédito em linhas oficiais. Por exemplo, existem questões regulatórias e associadas à infraestrutura. Um governo com uma agenda pró mercado, que reduzisse a burocracia, teria um impacto maior para o setor. Não é colocando dinheiro na mesa que o Governo Federal vai receber apoio total e irrestrito do setor. Se essa é a lógica do governo, não me parece que ele vai ser bem sucedido.

Você gostaria de acrescentar algum ponto a esta entrevista?

Fala-se muito de safra recorde, de volumes expressivos, o que dá a sensação de que está tudo bem, mas em termos de renda, o setor não teve um ano de 2023 tão bonito assim. Como ele produziu muito, o aumento da quantidade ofertada reduziu preços, então a renda do produtor, que imobilizou capital para viabilizar a safra, não foi tão grande assim.

Em 2024, nós tivemos uma quebra de safra e os produtores estão desesperados com uma contração de preços, notadamente dos grãos, só que isso não tem acontecido quando se compara com as cotações do final do ano passado de Chicago. Como se trata de um mercado global, se o Brasil teve uma quebra de safra, a Argentina teve uma safra muito boa. O resultado disso é que na oferta total de grãos na América do Sul, esta safra está maior que a anterior, o que não joga a cotação para cima.

Do outro lado, a safra norte-americana, que está acontecendo neste momento, está caminhando muito bem. Óbvio, os modelos climáticos sempre podem reservar surpresas, mas até onde é possível enxergar com eles, as condições têm se mostrado bastante favoráveis, o que significa que haverá uma safra cheia, o que também não joga o preço para cima.

Temos outras questões, como o Leste Asiático, que tem sofrido com o El Niño neste ano, o que tem prejudicado, justamente, a safra de arroz e também a safra de café, o que nos tem favorecido, naturalmente, em termos de renda. Ou seja, quando olhamos o arroz mais caro, parte pode ser reflexo do Rio Grande do Sul, mas ele já vinha mais caro antes, pois grandes produtores mundiais de arroz como Tailândia, Vietnã, Laos, Camboja e a Índia tiveram quebra nas suas safras. Como eles não são apenas os grandes produtores do planeta, mas também os grandes consumidores, isso resultou numa oferta menor que a demanda, o que faz com que os preços fiquem mais pressionados.

Com exceção de um ou outro produto, a renda do setor não está tão grande assim. Pode-se dizer, com total razão, que isso é normal, o que é verdade, pois o setor terá anos bons e ruins, safras cheias e quebras de safras. Isso faz parte, mas vamos deixar claro que a produção de uma safra recorde não significa que os produtores e o setor estão conseguindo colocar um bom volume de dinheiro no bolso.

Nota: Para 2024, a projeção da FGV Ibre, no momento, é de um crescimento de 2% para o PIB, um crescimento de 2,4% para a Indústria, e um crescimento de 2,2% para Serviços. Para o 1T24, comparado com o 1T23, a projeção é de um crescimento de 2,4% para o PIB, um crescimento de 3,1% para a Indústria, e um crescimento de 3,2% para Serviços.

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