Estratosfera

A tímida e tardia queda na taxa de juros básica (Selic) não vai fazer a festa de quem recorre ao crediário ou ao cheque especial. Segundo Miguel José Ribeiro de Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), quem comprava uma geladeira no valor à vista de R$ 800 pagava em 12 meses, em média, prestação de R$ 89,11; depois da queda dos juros, vai pagar R$ 0,18 a menos por mês – ou R$ 2,16, pouco mais que uma cerveja, ao final do financiamento. Quem costuma apelar para o cheque especial para fechar as contas no final do mês, usando, por exemplo, R$ 1 mil a cada 20 dias, vai economizar R$ 0,20. Já a mesma quantia, rolada no rotativo do cartão de crédito, vai resultar em menos R$ 0,30.

A instabilidade do caos
Mesmo leitores não iniciados no jargão do economês já hão de ter desconfiado da existência de algo inexplicável na tese dos “bons fundamentos econômicos” sempre brandida pelo ministro Pedro Malan a cada repique da crise, a essa altura, endêmica. Como o acirramento da crise é cada vez menos espaçado, o leitor leigo, porém, dotado de espírito crítico, conclui que os tais “fundamentos” guardam contradição dantesca, posto que, embora apresentados como sólidos como ferro, segundo o próprio Malan, não resistem à alternância de poder, fundamento pétreo da democracia.

Vida inteligente
Diante da fragilidade permanente dos “fundamentos”, resta ao tucanato papagaiar que a instabilidade do caos é modelo único no mundo. Trata-se mais de um dogma do que um fato concreto. A China, por exemplo, acaba de crescer 7,8% no primeiro trimestre, acumulando incremento de 7,6% no primeiro semestre. Seus fundamentos? Nada de superávit primário (exclui gastos financeiros), taxa de juros astronômica ou meta inflacionária. Em vez disso, o Estado chinês investe cada vez mais pesado na economia, principalmente em infra-estrutura. Apenas durante os seis primeiros meses do ano, o governo chinês aumentou seus gastos em projetos de infra-estrutura em 24,4%. Além disso, as exportações avançaram 14%, apesar da recessão dos Estados Unidos e do Japão e do crescimento a meia bomba da Europa.

Oráculo sem função
A tímida recuperação das bolsas norte-americanas ontem – a Bolsa de Nova York subiu 0,82% e a Nasdaq, 1,60% – depois de sete pregões seguidos em queda, não desatualiza piadinha contada por analistas bem-humorados sobre o ocaso de Alan Greenspan, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos): Hoje em dia, Greenspan, não cheira nem Fed.

O dia seguinte
A depressão das bolsas norte-americanas atingiu em cheio investidores brasileiros “comprados” em Estados Unidos. Um grande executivo de uma mineradora brasileira está arrasado. Não é para menos, o cara perdeu nas bolsas do Tio Sam o equivalente a três anos de trabalho do seu gordo salário.

Cravo e ferradura
Esta coluna, que nunca nutriu simpatia por José Serra e sempre se alinhou aos lúcidos críticos do governo FH, sente-se à vontade para contestar aqueles que criticaram Serra quando o Banco Central manteve os juros (mês passado) e ontem se apressaram a novamente atacar o candidato oficial por considerar política a decisão do BC de baixar os juros.

Dois pesos
Se a grande mídia dedicasse aos escândalos do governo FH apenas 25% do tempo e do espaço que dedicam ao suposto problema de propina na prefeitura petista de Santo André (SP), a corrupção no Brasil diminuiria num piscar de olhos. Parafraseando Delfim Netto, para a mídia governista parece valer a máxima de que, para escândalo novo, deve-se esperar que fique velho; e escândalo velho é denúncia requentada.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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