Conversamos sobre ETFs (Exchange Traded Funds) com Rodrigo Aloi, Head de Strategy & Research da HMC Capital, que representa e distribui no Brasil os BDRs (Brazilian Depositary Receipts) dos ETFs da gestora americana First Trust.
Como escolher um ETF para investir?
Existem duas maneiras de responder essa pergunta. A primeira serve para todos os ativos do mercado, e a segunda é exclusiva para ETFs.
A primeira resposta é analisar o histórico do ativo para verificar seus perfis de retorno e de risco e a relação entre essas duas variáveis (retorno por unidade de risco). Por mais que o mercado possua a máxima de que “retornos passados não são garantia de retornos futuros”, e de fato não são, eles são uma boa indicação. Isso é muito importante, pois cada investidor vai ter um nível de sensibilidade em relação ao risco que consegue suportar dentro da sua carteira de investimento, sendo que essa sensibilidade vai depender de outras variáveis que são mais subjetivas, como o horizonte de investimento e a necessidade de usar os recursos que estão sendo investidos. Como disse, essa resposta não serve só para ETFs, mas para qualquer investimento.
Na segunda resposta, existem dois grandes fatores na hora de escolher um ETF. Dando um passo para trás antes de analisarmos esses dois fatores, é importante deixar claro que não existe um só ETF que vai funcionar como uma solução mágica e única para um investidor. Em termos de melhor opção de investimento, a única resposta é um portfólio bem diversificado.
Dessa forma, na hora de escolher um ETF, um investidor deve levar em consideração o que já tem no seu portfólio e analisar a maneira como esse ETF pode compô-lo, de forma a ter uma carteira diversificada e eficiente. Lembrando que quanto mais diversificada for uma carteira, mais eficiente ela é no sentido de gerar um retorno mais ajustado ao risco que se está incorrendo.
Com relação aos dois fatores para escolha de um ETF, o primeiro é ao que o investidor quer estar exposto. Por exemplo, exposição a um setor, a um determinado tema ou a um mercado de uma determinada geografia, como a bolsa do Brasil, a bolsa dos Estados Unidos, o setor de biotecnologia nos Estados Unidos ou ações de tecnologia na China. Eu sempre gosto de frisar que para se conseguir uma exposição fidedigna e pura, o ETF é o melhor instrumento. Em um fundo de investimento discricionário, por trás do qual existe um gestor tomando decisões e selecionando diversos ativos, é muito difícil um investidor conseguir uma exposição ao que ele quer estar exposto.
O segundo fator é a análise de duas características técnicas de um ETF: seu custo, ou seja, a taxa de administração, e se ele está conseguindo, de fato, oferecer uma exposição fidedigna ao fator que o investidor quer estar exposto, ou seja, se o ETF está seguindo de perto o seu índice objetivo.
Por exemplo, assumindo que eu quero ter uma exposição às ações de tecnologia dos Estados Unidos, eu tenho que procurar um ETF que tenha como objetivo de investimento um índice que siga as ações de tecnologia dos Estados Unidos. A partir daí, eu vejo qual ETF tem uma taxa de administração mais competitiva e se ele está de fato espelhando a performance do índice. A partir desses três fatores, o investidor consegue atingir seus objetivos em termos do que ele quer ter no seu portfólio e a maneira mais eficiente de implementar essa estratégia de investimentos.
Como acompanhar de forma apropriada um ETF que recebeu o seu investimento?
Pegando alguns aspectos da primeira resposta, antes de se fazer qualquer investimento, é preciso analisar os dados históricos de retorno e de risco do ativo, pelo menos para se ter um parâmetro do que se espera dali para frente. Um investidor precisa saber se o que aconteceu no passado, de fato, está acontecendo no presente; se o ativo respeita às suas restrições em termos de tolerância de risco ou se tem uma volatilidade maior do que se estava esperando, ou seja, se os dados históricos não estão explicando muito o que ele está enxergando no cenário prospectivo. Se isso acontecer, é melhor reavaliar o que se quer dentro do portfólio.
Quando estamos falando especificamente de ETFs, nós temos que analisar se a exposição fornecida é similar à exposição que o índice forneceria. Em outras palavras, o quão perto o ETF está acompanhando o índice ao qual eu quero estar exposto. Voltando ao exemplo da exposição a empresas de tecnologia nos Estados Unidos, após um investidor achar um índice, ele vai verificar se a performance do ETF está acompanhando de perto a performance do índice, pois, como eu coloquei no começo da nossa conversa, o objetivo de quem está investindo em um ETF é ter uma exposição fidedigna e pura a um determinado mercado.
Quais são os cuidados que um investidor deve ter quando for investir num ETF, tanto brasileiro quanto estrangeiro?
Antes de analisar um ETF em si, é preciso analisar qual é a gestora por trás do desenvolvimento desse ETF. Isso é um pouco do que fazemos na HMC. Como o investidor conta com a nossa análise prévia, há uma camada adicional de segurança e de tranquilidade de que a gestora já foi analisada.
Um investidor deve verificar o tempo de mercado da instituição gestora, volume de recursos administrados, diversificação da grade de produtos e se a gestora tem experiência no tipo de produto que ele está procurando (exemplo: se o investidor está procurando um ETF de ações, a gestora tem que ter experiência em ETFs de ações).
Quando se analisa o produto em si, se esbarra um pouco nas coisas que falei antes, no sentido de quão bem foi desenhado aquele produto e quão bem está sendo implementada a estratégia de investimento por meio do ETF. Por exemplo, o retorno do ETF está próximo ao retorno do índice ou não?
Outra coisa que deve ser analisada, e que já mencionei antes, é o custo. Quanto maior for o custo do ETF, maior será o seu descolamento do índice de referência. Isso aumenta o tracking error do produto, a diferença do retorno do índice e o retorno do ETF.
Quando um ETF é uma boa opção de investimento?
Em primeiro lugar, um investidor deve analisar o mercado no qual ele quer investir e se esse investimento deve ser feito por meio de um ETF ou não. Para isso, é preciso verificar se esse mercado é ineficiente ou eficiente.
Em um mercado ineficiente, os gestores ativos vão ter sucesso quando tentarem obter uma performance melhor que a do índice de referência, explorando as ineficiências do mercado de maneira a gerar retornos superiores ao índice. Em um mercado eficiente, diminui o percentual de gestores que conseguem entregar um resultado superior ao índice de referência. É nesse momento que um investidor deve considerar um ETF como uma alternativa eficiente de investimento.
Antes de investir ou não num ETF, um investidor deve responder a seguinte pergunta: é preciso contratar um gestor de fundo de investimento, pagando uma taxa de administração cara, próxima de 2%, quando ele não gera um retorno superior ao índice de referência, quando isso pode ser conseguido através de um ETF pagando uma taxa de administração de 0,10%, 0,20%?
Em um mercado extremamente eficiente, como o S&P dos Estados Unidos, faz muito sentido um investidor usar um ETF para ter exposição a esse mercado. Se for um mercado ineficiente, como o mercado acionário chinês, que possui um grande nível de ineficiência informacional, os gestores ativos vão ter sucesso em superar os índices de referência. Nesse caso, faz sentido contratar um gestor, pagando um pouco mais caro em termos de taxa de administração, para explorar esse mercado.
Como um investidor deve avaliar a liquidez de um ETF?
No caso de uma ação, normalmente se associa um maior nível de liquidez a uma maior segurança no investimento. Essa associação é natural e está certa, pois quanto maior for a liquidez, maior a facilidade para um investidor entrar e sair daquela posição.
Um ETF, assim como uma ação, é listado em bolsa, mas a sua análise de liquidez não é tão intuitiva quanto a de uma ação, pois o seu volume de negociação não reflete a sua liquidez. Por mais que existam vários casos em que o volume de negociação de um ETF é pequeno, um investidor deve avaliar os ativos que estão dentro dele, pois a liquidez de um ETF não é a dele em si, mas a dos ativos subjacentes que estão debaixo dele.
Dando um exemplo tangível, o BOVA11 tem volume extremamente relevante de negociações, mas o que assegura o seu nível de liquidez não é quantas vezes ele é negociado, e sim o valor de liquidez das ações subjacentes dentro dele. A razão por trás disso é que existem formadores de mercado (market makers) que conseguem transformar o ETF nas ações subjacentes ou transformar as ações subjacentes no ETF.
Em muitas ocasiões, um investidor vai olhar o volume de negociações de um ETF e dizer que ele é ilíquido, que ele tem uma liquidez baixa, quando, na verdade, a forma de se avaliar a liquidez de um ETF é analisando o volume de negociação dos seus ativos subjacentes.
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