EUA na Venezuela: ‘O que vale para um, vale para o outro’

Segundo Aloysio Nunes, a operação feita pelos Estados Unidos para prender Nicolás Maduro foi uma agressão à soberania da Venezuela.

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Aloysio Nunes Ferreira, ex-senador e ex-ministro
Aloysio Nunes Ferreira (foto de Jefferson Rudy, Ag Senado)

Conversamos sobre a questão envolvendo Estados Unidos e Venezuela com Aloysio Nunes Ferreira. Dentre os muitos cargos que ocupou, Aloysio Nunes foi ministro das Relações Exteriores do governo Temer, de mar/2017 a jan/2019, ministro da Justiça do governo FHC, de nov/2001 a abr/2002, e senador por São Paulo de fev/2011 a fev/2019.

Qual a sua avaliação sobre a questão envolvendo os Estados Unidos e a Venezuela?

A operação para sequestrar um chefe de Estado, que eu considero um ditador execrável, mas que é o chefe de um Estado, e levá-lo para uma prisão norte-americana para ser julgado, foi uma agressão à soberania do país, em desrespeito à Carta das Nações Unidas e às boas práticas do direito internacional.

Trata-se de uma coisa absolutamente inaceitável do ponto de vista de quem preza às regras do direito, inclusive do direito norte-americano. Isso porque a operação militar foi feita sem que o Congresso americano fosse consultado, sob a justificativa de que poderia haver um vazamento de informações confidenciais. Ou seja, além de desrespeitar a Constituição, Trump desqualificou o Congresso dos Estados Unidos. De todos os pontos de vista, isso foi uma barbaridade.

Que mensagem os Estados Unidos estão enviando para os demais países da América Latina?

A mensagem é a seguinte: a América Latina é nosso território. Não se metam à besta conosco e nem ousem desafiar os nossos interesses, pois senão usaremos a força que temos para fazer com que eles prevaleçam.

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Que mensagem os Estados Unidos estão enviando para países como China e Rússia?

Trump explicitou isso em um documento sobre política externa e defesa dos Estados Unidos. Ele vê o mundo dividido em esferas de influência, como aconteceu ao final da Segunda Guerra Mundial, quando, na Conferência de Yalta, Roosevelt, Stalin e Churchill estabeleceram a área de influência de cada um. Essa visão permanece na cabeça de Trump, e, talvez, pois não posso afirmar, na cabeça dos dirigentes da Rússia e da China.

Como o governo Maduro era alinhado com a China e a Rússia, a China não pode utilizar o mesmo princípio para atuar em países da Ásia, mesmo que alinhados aos Estados Unidos, como Taiwan?

Claro que sim, mas a China tem uma direção clarividente que não se move por considerações de curto prazo. Existe uma lenda política que diz que quando Zhou Enlai foi questionado sobre a influência da Revolução Francesa na China; ele teria dito que a Revolução Francesa havia acontecido em 1789 e que havia muito pouco tempo para avaliar a sua repercussão sobre a China.

Agora, não há dúvida de que os dirigentes de Taiwan devem estar hoje com as barbas de molho, pois, de alguma maneira, se franqueou uma expedição, semelhante à que foi executada contra Nicolás Maduro, em relação aos dirigentes de Taiwan, já que o que vale para um, vale para o outro.

As questões levantadas pelo presidente Trump, no início do seu segundo mandato, referentes ao Canadá, Groenlândia e Panamá devem ser levadas a sério a partir do evento ocorrido na Venezuela?

Seguramente sim, mas com relação ao Canadá, eu não creio que Trump se valha da retórica para transformar o país em mais um dos estados da Federação Norte-Americana.

Com relação à Groenlândia, Trump não fez apenas uma declaração, mas transformou a sua ambição sobre a ilha em um dos pilares de projeção externa dos Estados Unidos. Essa postura tem que ser levada a sério como uma ameaça real. Esse pensamento não é apenas meu, tanto que ontem (5) os dirigentes da França, Inglaterra, Alemanha, Polônia, Itália e Espanha emitiram uma nota lembrando que a Dinamarca é membro da Otan, assim como os Estados Unidos. Ou seja, Trump deve tirar suas garras sobre a Groenlândia e a Dinamarca. Essa demonstração mostra que essa questão deve ser levada a sério.

Com relação ao Panamá, o país é uma das várias situações em que ocorreu um procedimento semelhante ao da Venezuela (sequestro e julgamento de Manuel Noriega), sem que houvesse uma real mudança política.

O recado de Trump para os países mais fracos é que o que vale a lei do mais forte. No dia em que um dirigente de um país da América Latina resolver afrontar diretamente os interesses dos Estados Unidos, os americanos vão lá e o tiram do poder. Isso vale para o Panamá, assim como para todos os países da América Latina.

O senhor foi responsável pelas relações entre Brasil e Estados Unidos durante, praticamente, metade do primeiro governo Trump. Qual a sua avaliação sobre as atuações do governo Trump no primeiro e no segundo mandato?

No segundo mandato, Trump se cercou de pessoas absolutamente subservientes à sua vontade. Inclusive, houve uma mudança na composição do Partido Republicano. Por exemplo, Mike Pence, que foi vice-presidente de Trump no primeiro mandato, foi inteiramente alijado de qualquer tipo de influência no segundo mandato.

Trump voltou mais radical e explícito na reivindicação dos seus interesses, ao mesmo tempo em que está disposto a utilizar toda a força econômica dos Estados Unidos, mediante tarifas, e militar, como atestado pelo deslocamento da armada norte-americana pelo Caribe e pelas costas da Venezuela.

No segundo mandato, nós temos um Trump mais agressivo, encarnando, mais nitidamente, o comportamento e a visão do imperialismo.

Qual a sua avaliação sobre a condução do governo brasileiro nesse episódio?

O Brasil teve uma condução sóbria, rigorosa, tanto através da nota do Ministério das Relações Exteriores quanto do pronunciamento do embaixador Sérgio Danese na ONU, condenando a intervenção e o sequestro de Nicolás Maduro. Eu não esperava outro comportamento do presidente Lula, assim como de muitos outros chefes de estado, que não são, necessariamente, de esquerda, pelo mundo afora.

Considerando a nossa conversa, o senhor gostaria de acrescentar algum ponto à sua entrevista?

Eu queria registrar a absoluta ausência de dimensão de muitos governadores de estado que podem ser candidatos à presidência da República. É inacreditável que Tarcísio de Freitas, que é governador do estado mais rico do país, não tenha dito uma palavra a respeito da violação do direito internacional cometida por Donald Trump.

O fato de Nicolás Maduro ser um ditador execrável não deve justificar, pelo menos aos olhos de quem pretende ser presidente da República, uma agressão tão flagrante ao direito internacional, que coloca, inclusive, o Brasil sob a ameaça da força. Eu não me refiro ao cretinismo parlamentar de um bufão como esse Nicolas Ferreira, mas às pessoas que são responsáveis pela direção de estados do nosso país.

Entre os governadores de oposição, a exceção foi o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, que, no seu pronunciamento, chamou Maduro pelo nome que ele deve ser chamado, mas defendeu a soberania das nações, condenando a ação militar e preconizando uma saída democrática para a crise da Venezuela. Eduardo Leite foi uma exceção honrosa entre os governadores da oposição que, pelo menos, dizem aspirar à Presidência da República.

Aloysio Nunes com Mike Pence, vice-presidente de Donald Trump no seu primeiro mandato, no Itamaraty, em jun/2018. Imagem: Wikipedia.
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