Eugenia?

Com habitações precárias, transporte desumano, sem creches para deixar as crianças, sair do distanciamento social é trabalho que liberta?

Empresa Cidadã / 19:53 - 11 de ago de 2020

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A divulgação na última quinta-feira (9 de agosto) da II fase do Inquérito Sorológico realizado pela Prefeitura de São Paulo indica o forte efeito da subnotificação nas informações sobre a Pandemia da Covid-19 (em São Paulo, a maior cidade do país).

Conforme a pesquisa, 9,8% da população já teve contato com o novo corona vírus. Extrapolando-se este percentual para o total dos habitantes da cidade, significa algo como 1,2 milhão de pessoas. No entanto, os casos notificados de pessoas contaminadas são de pouco mais de 144 mil notificações, ou seja, apenas 1/8 do número verdadeiro. Uma margem de erro inaceitável. Isto na maior, mais rica e mais bem equipada capital do Brasil. Se, em São Paulo, é assim, imagina na...

O perfil dos infectados é de quem tem de 35 a 49 anos; que nunca adotou práticas de isolamento social; que tem regime de trabalho fora de casa ou misto; que habita em domicílios com cinco ou mais pessoas com mais de 18 anos; que tem renda nas faixas “D” e “E” (de 2 a 4 salários mínimos e até 2 salários mínimos, respectivamente); que é pardo; e que nunca estudou.

Não é o vírus que escolhe suas vítimas… então quem é?

 

Quem escolhe?

Desde que o mais recente ministro da Saúde do Brasil jogou a toalha, em 15 de maio deste ano, o médico oncologista Nelson Luiz Sperle Teich, que o Brasil não tem um ministro da Saúde efetivo, mas um interino. É como se fosse o auxiliar técnico assumindo a função do técnico demitido do time, só para quebrar um galho, se estivéssemos em uma partida de futebol. Só que estamos é na mais grave crise sanitária da História do país, com mais de 100 vidas perdidas.

O médico ortopedista Luiz Henrique Mandetta, junto ao seu sucessor, o médico oncologista Teich, e o médico infectologista David Uip, em debate realizado no sábado, 8 de agosto, no canal GloboNews, afirmou que a prática do presidente Jair Bolsonaro, foi “como se entregasse o jogo no primeiro tempo (...). Tinha uma pedra no meio do caminho, que era o chefe da nação, minando o esforço suprapartidário, supraideológico e político que envolvia todas as unidades da Federação”.

 

Eugenia

A palavra “eugenia” deriva do grego eu (significa bom) e genesis (significa criação). Tem na genética um dos seus braços, empenhado na criação de antídotos corretivos e preventivos para o novo coronavírus. E tem na própria Covid-19 o outro braço, só que este é um braço empenhado na destruição dos indesejáveis, como os velhos, que oneram o sistema público de saúde e previdência sem a correspondente retribuição; ou os portadores das chamadas comorbidades (doenças crônicas, degenerativas), ou os pobres, que pouco consomem; ou os não-alfabetizados, que tem menor produtividade. E por aí vai.

Campos de concentração nazistas, como Dachau (o primeiro) e depois Auschwitz exibiam nos seus pórticos a inscrição “Arbeit macht frei”, que significa “Este trabalho liberta”. Seguiram os campos de concentração de Gross-Rosen, KZ, Sachsenhausen e Theresienstadt. A frase foi extraída do título de um romance do Rev. Lorenz Diefenbach (1806-1883), ligado ao movimento nacionalista alemão do século XIX.

A expressão foi assumida, em 1928, pelo governo da República de Weimar. A constituição da República de Weimar tinha um texto avançado em aspectos socais e trabalhistas, mas não o bastante para impedir que Hitler governasse com ela (foi a primeira constituição europeia a regular jornada de trabalho).

Uma simples emenda constitucional que congele por 20 anos os investimentos em educação e saúde pode ser a fresta por onde eles entram. E depois começam a faltar respiradores nos hospitais e água para lavar as mãos nas torneiras. O lema “Arbeit macht frei” foi adotado pela República de Weimar para exaltar o programa de investimentos públicos em obras que visavam o fim do desemprego. Após a tomada do poder pelos nazistas, em 1933, o uso do lema foi intensificado.

 

Onde eles estão?

Recentemente, o executivo principal do Grupo Volkswagen, Herbert Diess, para exortar os executivos do grupo a assumirem metas mais rigorosas de lucro, valeu-se da seguinte frase: “Ebit macht frei”. Significa “Ebit liberta”. Ebit é a sigla do mundo dos negócios que corresponde a “earnings before interest and taxes" (ou lucro antes de juros e impostos).

Causou polêmica, e Herbert Diess desculpou-se publicamente. Entretanto, é para não se esquecer de que a Volkswagen foi criada pelos nazistas, em 1937, e que, para a sua criação, foram usados bens sindicais expropriados e que, durante a Segunda Guerra, a Volkswagen fez uso de trabalho forçado em suas instalações.

Com habitações precárias, transporte coletivo desumano, ou sem creches para deixar as crianças, sair do distanciamento social é trabalho que liberta?

 

Paulo Márcio de Mello é servidor público aposentado (professor da Universidade do Estado do RJ – Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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