A sucessão de eventos climáticos extremos no Brasil e no mundo deixou de ser uma abstração científica para se tornar uma realidade econômica concreta. Enchentes que destroem cidades inteiras, tempestades cada vez mais intensas e frequentes, secas prolongadas e furacões têm provocado perdas humanas, desorganizado cadeias produtivas, destruído infraestrutura e imposto custos fiscais recorrentes aos governos. Esses episódios revelam um fato incontornável: a crise climática já está impactando o crescimento, as contas públicas e a estabilidade econômica.
Nesse contexto, a transição verde não pode ser tratada como uma agenda acessória ou opcional no planejamento das empresas e do governo, tampouco como um conjunto de despesas equivalentes aos gastos correntes do Estado. Trata-se de um processo de transformação estrutural que exige investimentos de longo prazo em energia limpa, infraestrutura resiliente, inovação tecnológica, adaptação climática e proteção ambiental. A incerteza envolvida no longo prazo para a maturação dos retornos desses investimentos indica que apenas incentivos de mercado podem não ser suficientes para mobilizar os recursos necessários, tornando indispensável a presença ativa do investimento público como farol capaz de orientar e induzir decisões privadas.
Nesse processo, as empresas estatais desempenham papel particularmente relevante. Em setores como energia, infraestrutura, saneamento, crédito e inovação, são essas instituições que reúnem escala, horizonte de longo prazo e mandato público compatíveis com a natureza estrutural da transição verde. Diferentemente de agentes privados sujeitos a retornos imediatos e maior aversão ao risco, empresas estatais podem internalizar externalidades climáticas, operar investimentos de maturação longa e atuar como plataformas de coordenação de cadeias produtivas sustentáveis. A forma como esses investimentos são enquadrados no orçamento público e na estratégia macroeconômica é, portanto, decisiva.
A distinção entre gasto corrente e investimento de capital é crucial para compreender o problema. Investimentos em transição climática não se destinam apenas à redução de emissões futuras, mas também à diminuição da vulnerabilidade econômica diante de choques climáticos cada vez mais frequentes. Infraestrutura resiliente reduz perdas associadas a enchentes e deslizamentos; sistemas energéticos limpos e descentralizados aumentam a segurança energética; políticas de adaptação evitam gastos emergenciais repetidos e imprevisíveis. Os retornos desses investimentos são econômicos, sociais e também fiscais, ainda que se materializem ao longo do tempo.
Quando esses dispêndios são tratados como simples gastos correntes, submetidos a restrições financeiras de curto prazo, o resultado é um subinvestimento crônico. Consolida-se, assim, a falsa percepção de que o Estado “não pode” agir por falta de recursos, quando, na realidade, o custo da inação tem se mostrado sistematicamente maior. Cada desastre climático não adequadamente prevenido ou mal mitigado impõe novas despesas emergenciais, reconstruções improvisadas e perdas permanentes de capital físico e humano. A ausência de investimento hoje em mitigação e adaptação transforma-se em déficit recorrente amanhã.
Essa lógica foi claramente antecipada por John Maynard Keynes ao defender a separação entre orçamento corrente e orçamento de capital. Para Keynes, investimentos públicos com retorno de longo prazo deveriam ser avaliados por sua capacidade de ampliar a renda futura e a base produtiva da economia, e não por seu impacto imediato sobre o resultado fiscal. O financiamento do investimento público deve, portanto, ser compatível com seu retorno intertemporal. Essa visão é especialmente relevante para a agenda climática, cuja temporalidade não se ajusta aos horizontes curtos da contabilidade fiscal tradicional.
No caso brasileiro, essa discussão ganha ainda mais urgência. O país combina elevada vulnerabilidade a eventos climáticos extremos com enorme potencial para liderar a transição verde, seja na geração de energia limpa, na bioeconomia ou na reconstrução de infraestrutura resiliente. Além disso, dispõe de um conjunto robusto de empresas estatais com experiência acumulada em setores estratégicos para essa transformação. Essas instituições constituem uma vantagem comparativa institucional rara, capaz de acelerar investimentos, reduzir riscos e coordenar esforços em escala nacional. No entanto, enquanto os investimentos climáticos forem tratados como custos a serem contidos, e não como ativos estratégicos de proteção econômica e social, esse potencial seguirá subexplorado.
A recente retomada da política industrial, com iniciativas voltadas à sustentabilidade e à inovação, sinaliza uma mudança relevante de direção. Seu sucesso, contudo, depende do reconhecimento de que enfrentar a crise climática exige capacidade estatal de planejar, investir e coordenar esforços de longo prazo. Isso não se faz apenas com incentivos pontuais ao setor privado, mas com uma estratégia clara de investimento público estruturante, liderada por instituições públicas — entre elas, empresas estatais — com mandato, escala e capacidade operacional adequados.
Em um mundo marcado por choques climáticos cada vez mais frequentes e destrutivos, insistir em tratar investimentos verdes como despesas comuns é um erro econômico, não um sinal de prudência. A verdadeira responsabilidade consiste em reconhecer que a transição climática é, antes de tudo, uma política de proteção do crescimento, da estabilidade econômica e do bem-estar social. Ignorar essa realidade significa aceitar um futuro de perdas recorrentes, reconstruções constantes e oportunidades desperdiçadas.
A escolha, portanto, não é entre investir ou preservar as contas públicas. É entre investir agora, de forma planejada e estratégica — mobilizando plenamente as capacidades do Estado e de suas empresas — ou pagar repetidamente, de maneira caótica e muito mais cara, pelos efeitos da inação diante da emergência climática.
Eliane Araújo (Universidade Estadual de Maringá, pesquisadora CNPq)
Carmem Feijó (Universidade Federal Fluminense, pesquisadora CNPq)
Paulo Gala (FGV-SP)

















