Evergrande e nova Guerra Fria

Semana passada já tinha sido de grande tensão, mesmo considerando a capitulação do presidente Bolsonaro em atacar o STF e o TSE.

Semana começando novamente tensa nos mercados do mundo por conta dos problemas financeiros da incorporadora chinesa Evergrande e também pelas relações tensas entre os EUA e a China, que podem originar, segundo a Organização das Nações Unidas, uma nova Guerra Fria.

Antes disso, a semana passada já tinha sido de grande tensão, mesmo considerando a capitulação do presidente Jair Bolsonaro em atacar o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral. Petróleo volátil em Nova Iorque, queda acentuada do minério de ferro (-21%) na semana em Qingdao, na China, vencimento quádruplo no mercado de derivativos dos EUA e vencimento de opções no mercado local deram o tom dos mercados. Além disso, previsões piores sobre dados de conjuntura de 2022 (PIB e inflação). A Bovespa terminou a semana com queda de 2,49% (no ano -6,37%) e índice em 111.439 pontos, dólar com alta de 0,45%, cotado a R$ 5,29, e juros também com altas.

A nova semana começa com fortes perdas, apesar de feriados em Xangai e Tóquio, com as Bolsas estressadas. Europa com quedas maiores que 2% e futuros do mercado americano também com quedas acentuadas. Aqui, neste ambiente, a Bovespa pode perder a zona de suporte em 110 pontos, o que poderia detonar maior precipitação de vendas.

Na China, problemas com a incorporadora Evergrande trouxeram queda de mais de 13% no mercado de Hong Kong (aberto), e credores começam a fazer provisões para calotes. Na Alemanha, a inflação medida pelo PPI de agosto foi de 1,5%, com taxa anual de 12%, a maior desde dezembro de 1974. Já a ONU, por seu diretor, pediu que os EUA e a China consertem suas relações para evitar o que classificou de “nova Guerra Fria”.

No mercado internacional, o petróleo WTI, negociado em Nova Iorque, mostrava queda de 2,21%, com o barril cotado a US$ 70,38. O euro era transacionado em queda para US$ 1,171, e notes americanos de 10 anos com taxa de juros em queda para 1,33%. O ouro e a prata como proteção tinham altas na Comex, e commodities agrícolas com desempenho negativo na Bolsa de Chicago.

Aqui, o presidente Bolsonaro foi ontem para a abertura da assembleia da ONU, entrou com sua comitiva pelos fundos do hotel para evitar manifestantes e pretende fazer um discurso tranquilo, segundo o noticiário. O governo também enviou um Projeto de Lei com mudanças no marco da internet, depois de Rodrigo Pacheco devolver a MP do último dia 6 de setembro, e o objetivo é dificultar a remoção de conteúdo pelas redes sociais. Lembrem que Bolsonaro defendeu fake news recentemente. Também foram divulgadas novas denúncias sobre gastos do orçamento secreto pelo ministro Rogério Marinho.

A agenda do dia é fraca, mas a semana será poderosa em informações e reuniões de Bancos Centrais sobre política monetária. Hoje, teremos a nova pesquisa semanal Focus do BC, a segunda prévia do IGP-M de setembro e o saldo da balança comercial da semana anterior. Nos EUA, a confiança do construtor NAHB de setembro. Expectativa de Bovespa em queda, dólar pressionado e juros em alta.

Na última sexta-feira, a agenda não estava tão cheia, mas o dia acabou sendo de grande agitação e mudança de curso dos mercados. A Ásia terminou o dia com boas altas, apesar dos problemas relacionados com a incorporadora chinesa Evergrande. Esse movimento positivo foi estendido para as aberturas dos mercados na Europa, que acabou durando pouco por conta da fraqueza do mercado americano e apreensão dos investidores. Aqui, o dia teria que começar com os investidores ajustando a percepção sobre a elevação da alíquota de IOF para pessoas físicas e jurídicas.

Tudo isso numa visão mais ampla da economia, mas tendo que considerar dois fatores estritos de mercado. Nos EUA, vencimento quádruplo nos mercados de derivativos que sempre traz apreensão e volatilidade aos mercados, especialmente, nesta fase conturbada de Covid-19 e variante Delta. Já na Bovespa, dia de vencimento de opções de ações, depois de fortes quedas de ações líderes, notadamente bancos e Vale, em função da queda do preço do minério.

Não podia dar outra coisa e mercados reajustaram forte, tanto aqui como no exterior. No mercado externo, tivemos a divulgação da inflação medida pelo CPI (consumidor) na Zona do Euro de agosto, que na comparação anual subiu para 3%, com o núcleo em 1,8% na mesma base de comparação. O BCE também diagnosticou que a inflação pode subir ainda mais em 2021, por conta da pressão por falta de insumo na cadeia de fornecimento.

Já nos EUA, a confiança do consumidor de Michigan de setembro registrou alta para 71 pontos, mas a previsão era que ficasse em 72 pontos. Boa parte afetada pela expansão da inflação. Já o índice de condições atuais caiu para 77,1 pontos, vindo de 78,5 pontos, e a expectativa do consumidor subiu para 67,1 pontos, de anterior em 65,1 pontos. Mas o que segue preocupando os investidores é a falta de acordo para elevação do teto da dívida americana, que pode cercear a atividade de órgãos do governo. Além disso, pelo noticiário presente, há risco de não haver acordo com a oposição liderada por McConnell.

Menos mal para o Japão, onde o atual primeiro-ministro, Yoshihide Suga, apoia a indicação de Taro Kono para o cargo, o que gera maior tranquilidade para transmissão. Porém, as tensões entre os EUA e a China voltaram a estar presentes, com a China pedindo adesão ao acordo Ásia-Pacífico nas disputas particulares com os EUA por parcerias.

No mercado internacional, o petróleo WTI, negociado em Nova Iorque, mostrava queda de 1,06%, com o barril cotado a IUS$ 71,84. O euro era transacionado em queda para 1,173, e notes americanos mostrando forte alta da taxa de juros dos títulos de 10 anos para 1,37%. O ouro e a prata voltando a mostrar quedas na Comex, e commodities agrícolas majoritariamente com quedas na Bolsa de Chicago. O minério de ferro seguiu em sua derrocada no mercado de Qingdao, na China. Durante a madrugada, observou perda de 4,91%, com a tonelada em US$ 101,95, sendo que, na semana, as perdas atingiram 21%.

No segmento doméstico, muita confusão com o anúncio de elevação do IOF para pessoas físicas e jurídicas, para cobrir desembolsos do Auxílio Brasil, com vigência imediata e até o fim do ano. Isso eleva instantaneamente a taxa de juros, num momento em que as empresas sofrem com a pandemia e dificuldades financeiras, enquanto as pessoas físicas atingiram recorde de endividamento, segundo dados recentes do BC. Além disso, torna mais difícil a recuperação econômica e deixa patente que vai mais no sentido eleitoral do que na resolução de um problema social. Não era o momento para fazer uma medida dessas sem planejamento e criando programa perene. Além dessa discussão, seguem definição de solução para os precatórios, e o orçamento de 2022 continua travado. Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, disse que tem que conter o excesso de Medidas Provisórias e espera que o imbróglio dos precatórios seja resolvido. Essa é a visão também de Bruno Funchal, que espera a decisão para refazer o orçamento.

No mercado, a sexta-feira foi dia de dólar novamente em alta, vazando a cotação de R$ 5,32, para fechar em alta de 0,38% e cotado a R$ 5,29. No segmento Bovespa da B3, na sessão de 15/09, os investidores estrangeiros voltaram a alocar recursos no valor de R$ 242,6 milhões, deixando o saldo positivo de setembro com R$ 222,9 milhões e o ano de 2021 com ingresso líquido de R$ 47,33 bilhões. No mercado acionário, reversão para quedas das principais Bolsas europeias, com Londres caindo 1,19%, Paris com -0,79% e Frankfurt com -1,03%. Madri ainda conseguiu fechar com alta de 0,31% e Milão em queda de 0,99%. No mercado americano, o Dow Jones com -0,48% e o Nasdaq com -0,91%. Na Bovespa, mais um dia de queda (quarto seguido) de 2,07% e índice descendo para 111.439 pontos. Na mínima, atingiu 111.156 pontos, de passagem pela zona de suporte de 112 pontos.

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Alvaro Bandeira

Economista-chefe do Banco Digital Modalmais

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