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sábado, janeiro 23, 2021

‘Exacerbada’

Exacerbada. Foi assim que a delegada Roberta Bertoldo, da 2ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa, em Porto Alegre (RS), circunscreveu a adjetivação da atitude dos seguranças brancos a serviço do hipermercado Carrefour, Magno Braz Borges (contratado da empresa Vector de Segurança; 30 anos) e Giovane Gaspar da Silva (policial militar; a serviço da empresa Vector de Segurança; 24 anos), acusados da brutal manifestação de racismo, na quinta-feira, 19 de novembro, véspera do Dia da Consciência Negra, tecnicamente “suspeitos” do assassinato de João Alberto Vieira Freitas. Quando será o próximo, Carrefour?

 

‘Milena, me ajuda…’

João Alberto assim pediu à esposa, enquanto era agredido. Ela tentou, mas foi impedida pela força. Pode-se dizer que o Carrefour é reincidente contumaz em episódios de violência contra clientes e até contra animais de estimação indefesos, seguidos de pedidos de desculpas e de manifestações de que fatos assim não mais se repetirão. Até que se repitam, seguem pedidos de desculpas e de manifestações de que fatos assim não se repetirão. É um ciclo contínuo. Carne negra em promoção permanente? Uma grife de violência e de desrespeito com o país que a recebeu.

 

Folha corrida Carrefour

Para ser lembrada, a extensa “folha corrida” do supermercado em casos que vieram a público. Imagina o que não saiu da privacidade da “salinha da segurança” e até hoje não se sabe…

– Em seu Twitter, na sexta-feira passada, 20 de novembro, a juíza Cristina Cordeiro, do TJ-RJ, lembrou-nos do episódio da mulher negra e pobre, presa por suspeita de furto de alimentos em uma das filiais da rede, que foi espancada, humilhada e estuprada por funcionários do supermercado.

– Em 14 de agosto de 2020, o promotor de vendas Moisés Santos (53 anos) morreu durante o expediente em Recife (PE). O corpo foi camuflado entre guarda-sóis e caixas, para que o funcionamento do estabelecimento não fosse alterado.

– Em maio de 2019, a Justiça do Trabalho de São Paulo concedeu liminar pedida pelo Sindicato dos Comerciários de Osasco e Região contra o Carrefour, por dificultar as idas dos colaboradores ao banheiro. A juíza Ivana Meller Santana, da 5ª Vara do Trabalho de Osasco, identificou condições consideradas “degradantes para os trabalhadores”. De acordo com o Sindicato, nas cidades de Barueri, Carapicuíba, Embu, Itapevi, Jandira, Osasco e Taboão da Serra, operadores de atendimento e de telemarketing são obrigados a obter senhas para ingressar em “filas eletrônicas” para o uso do banheiro.

– Em dezembro de 2018, conforme relato procedente da ONG Cão Leal, um segurança do Carrefour assassinou um cachorro dando mortadela misturada com o raticida conhecido por chumbinho e agredindo o animal, pois era esperada a visita de supervisores da matriz à unidade situada em Osasco. Ao segurança teria sido pedido para pôr um fim no animal. O cachorro foi resgatado com vida, apesar de ensanguentado, por uma pessoa que estava perto e o socorreu. Ele foi levado para uma clínica veterinária particular, mas morreu em atendimento.

– Em outubro de 2018, funcionários do Carrefour, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, agrediram Luís Carlos Gomes, por que ele teria aberto uma lata de cerveja no interior do estabelecimento. Abordado, o cliente disse que pagaria por seu consumo. Ainda assim, foi seguido pelo gerente da unidade e por um segurança, encurralado em um banheiro, onde recebeu o golpe conhecido por mata-leão. Detalhe importante é que Luís Carlos Gomes é portador de necessidades especiais; com a agressão teve múltiplas fraturas e, como sequela de uma cirurgia, ficou com uma perna mais curta que a outra. Luís Carlos acusou o supermercado de racismo e acionou a justiça por uma reparação.

Na época, o Carrefour disse, em nota, que “a rede repudia veementemente qualquer tipo de violência e reforça que, constantemente, realiza treinamentos e reorienta suas equipes, a partir da prática do respeito que exige dos seus colaboradores e prestadores de serviço”.

– Em dezembro de 2017, os trabalhadores do Carrefour que reivindicaram remuneração por trabalho em feriados foram demitidos, em represália dissimulada como “corte de gastos”. Os funcionários, no entanto, garantiram que os nomes dos que estavam envolvidos em movimentos reivindicatórios foram incluídos na dispensa. Os empregados que trabalharam nos feriados de novembro daquele ano receberam R$ 43, por dia de feriado trabalhado, quando a praxe seria, até então, de R$ 86.

– Em 2009, seguranças a serviço do Carrefour agrediram o vigia e técnico em eletrônica Januário Alves de Santana, de 39 anos, no estacionamento de uma unidade em Osasco (SP). Ele teria sido confundido com um ladrão e foi acusado de roubar seu próprio carro. Manifestantes protestaram no estacionamento da unidade, onde estenderam uma faixa com a frase: “Onde estão os negros?”. Carros também exibiram protetores de para-brisa com a frase “Carrefour racista”, conforme o portal da Internet Geledés.

 

Blá blá blá

Recortes de uma coleção de notas oficiais da corporação Carrefour:

– “Para nós, nenhum tipo de violência e intolerância é admissível, e não aceitamos que situações como estas aconteçam. Estamos profundamente consternados com tudo que aconteceu e acompanharemos os desdobramentos do caso, oferecendo todo suporte para as autoridades locais.”

– “A rede repudia veementemente qualquer tipo de violência e reforça que, constantemente, realiza treinamentos e reorienta suas equipes, a partir da prática do respeito que exige dos seus colaboradores e prestadores de serviço.”

 

A propósito, Starbucks

A Coluna Empresa-Cidadã de 25 de abril de 2018, divulgou a experiência da rede Starbucks que fechou 8 mil lojas simultaneamente, nos EUA, para treinamento anti-racista. Recordando-se o incidente em que dois homens negros foram detidos dentro de uma loja da rede na Filadélfia, em abril de 2018, e a marca ter sido detonada nas redes sociais, a Starbucks anunciou que ia interromper o atendimento em 8 mil lojas, durante a tarde de 29 de maio, para treinar simultaneamente 175 mil colaboradores, sobre como evitar manifestações de racismo em seus estabelecimentos.

Lucy Helm, executiva da empresa, alegou que a rede já acabou com a desigualdade salarial entre gêneros, após 10 anos de esforços neste sentido. Nos EUA, a média salarial de mulheres corresponde a 80% da remuneração dos homens, sendo que no varejo não ultrapassa 70%. Kevin Johnson, então executivo-chefe da corporação há pouco mais de um ano, em nota, pediu desculpas pelas prisões e assumiu a responsabilidade pelo incidente.

 

Paulo Márcio de Mello é servidor público professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

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Paulo Márcio de Mello
Servidor público professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

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