Fake news contra programas de incentivo

No fim de semana, a Folha publicou a matéria “Governo deu R$ 173 bi em subsídios a programas sem efeitos, diz estudo”. O...

No fim de semana, a Folha publicou a matéria “Governo deu R$ 173 bi em subsídios a programas sem efeitos, diz estudo”. O estudo em questão foi feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado a – atualmente, com o aparelhamento feito pelo Governo Temer, pode-se dizer alinhado com – o Ministério do Planejamento. A matéria poderia ser apenas um exemplo da dificuldade que os jornalistas têm em lidar com temas econômicos, se tivesse se limitado a adotar o limitado trabalho do Ipea. Mas os termos empregados a colocam mais na categoria de fake news.

O texto destaca que, de 20 programas estudados, “ao menos quatro foram inócuos”. Quantos seriam “ao menos quatro”? Cinco? Doze? Dezenove? Ah, sem tanto destaque, a Folha admite que “os demais, na avaliação do Ipea, surtiram algum resultado”. Opa, então não seria mais honesto ressaltar que 16 dos 20 programas tiveram efeito positivo?

Continua a Folha: “(…) o país gastou, desde o primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), R$ 173 bilhões sem que os objetivos fossem alcançados”. E no parágrafo seguinte compara: “O valor acumulado com esses gastos equivale a mais que o déficit primário do país que, no ano passado, foi de R$ 124 bilhões (…)”. Deu para perceber a malícia? A matéria compara gastos realizados em 15 anos (13,5 anos do PT, 1,5 do Temer) com o rombo primário de um ano (parênteses: o déficit nominal em 2017 foi de R$ 459,3 bilhões, mas aí inclui juros, e não parece interessar à Folha lembrar disso). O resultado até o próprio sistema de checagem de notícias do jornal enquadraria como fake news: culpar os incentivos pelo déficit primário.

Não para por aí. A matéria cita que o país gasta mais de 5% do PIB em incentivos sem avaliar o resultado. Embaixo, um gráfico mostra as porcentagens desde 2003, mas não os valores. Vamos então ajudar. O PIB brasileiro em 2017 alcançou R$ 6,6 trilhões; 5,4% (soma dos subsídios fiscais, benefícios financeiros e creditícios, segundo a Folha) dá R$ 356,4 bilhões; em apenas um ano (a matéria soma 15 anos de incentivos “fracassados”, lembra?). Pois é, os incentivos “culpados” pelo déficit público são mera fração dos gastos anuais. E quais são as maiores despesas? Disparado, os benefícios concedidos pelo Simples Nacional, com R$ 799 bilhões, e a Zona Franca de Manaus, com R$ 448 bilhões, ambos de 2003 a 2017 (neste mesmo período, o Governo Federal gastou uns R$ 4 trilhões com juros da dívida).

A Folha coloca como título da tabela: “Os programas que mais geram perda de arrecadação”. Os 50 milhões de empreendedores e trabalhadores que vivem das pequenas e médias empresas (quase todas no Simples) não devem concordar com esta definição. Mas o estudo do Ipea tem problemas que vão além da forma como o jornal o publicou, o que veremos na edição de amanhã.

 

Casa

Segundo o ministro das Cidades, Alexandre Baldy, “o Brasil ainda precisa construir cerca de 30 milhões de moradias para equacionar a demanda, uma exigência anual de quase 1 milhão de domicílios”. Com apoio da Secretaria Nacional de Habitação do Ministério, foi lançado este mês o livro Demanda Futura por Moradias: Demografia, Habitação e Mercado, desenvolvido pela Universidade Federal Fluminense (UFF). A publicação está disponível em versão digital e impressa.

 

Rápidas

O pré-candidato à Presidência República pelo PSOL, Guilherme Boulos, faz palestra dia 31, 11h, na Associação Comercial do Rio de Janeiro *** Na próxima quarta-feira é celebrado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha *** Até 29 de julho, o West Shopping realiza eventos destinados aos apaixonados pelo universo geek *** Para detalhar como o chamado ATA Carnet pode facilitar o dia a dia dos exportadores brasileiros, a Fiesp realiza seminário nesta quarta-feira, das 9h às 13h, na sede na Avenida Paulista *** Termina sábado o projeto Cine Pipoca do Passeio Shopping, que exibe filmes para as crianças às 16h *** O mundo da uva se reunirá no próximo dia 7 na Fundação Getulio Vargas, no Seminário Vinho & Mercado 2018. Detalhes em http://blog.editora.fgv.br/posts/seminario-vinho-mercado-2018 *** O Rio vai receber o Rio +60, evento voltado para o envelhecimento ativo, em 4 de agosto, no Centro Cultural João XII, em Botafogo. Inscrições e informações: https://riomais60.eventbrite.com.br/

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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