Falta ainda planejamento na aplicação da IA

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Fabrício Laguna (foto: divulgação)

Por Regina Teixeira – Especial para o Monitor

A inteligência artificial (IA) virou sinônimo de solução no ambiente corporativo, mas a aplicação da tecnologia nem sempre é feita de forma “ortodoxa”, com planejamento. Com isso, muitas empresas acabam não atingindo o que esperam da ferramenta.

Em 2024, cerca de 89% das empresas industriais brasileiras utilizaram tecnologias digitais avançadas em suas atividades, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O percentual é maior que o registrado em 2022, quando 84,9% das empresas faziam uso dessas ferramentas, com destaque para implantação de IA que teve crescimento de 163,2% no período.

Fabrício Laguna, consultor, instrutor e palestrante especializado em análise de negócios, com formação em ciências da computação pela USP de São Carlos, contou à reportagem do Monitor Mercantil como avalia esse movimento no Brasil.

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“Ouvimos sobre a tecnologia em apresentações estratégicas, reuniões de diretoria e discursos sobre inovação nos summits pelo mundo”, conta o consultor. No entanto, observa, “quando a discussão começa pela ferramenta, o caminho já está comprometido. Antes de tudo, é preciso entender qual resultado se quer gerar. Sem isso, a inteligência artificial vira apenas mais uma aposta cara”.

Como as empresas brasileiras têm feito a adoção da inteligência artificial?

– Grande parte das empresas brasileiras, principalmente dos setores mais conservadores, como indústria e varejo, ainda está atordoada com a mudança e tentando descobrir que furacão é esse que está passando. Muitas estão paralisadas numa crise de ansiedade. Com medo de adotar a IA e se exporem a algum risco que não entendem, mas com mais medo ainda de não adotar e serem ultrapassadas por seus concorrentes.

E que segmentos estão mais adiantados na aplicação da ferramenta?

– Como sempre, as empresas de serviços se antecipam na adoção de novas tecnologias e já estão colhendo frutos. Equipes de criação e desenvolvimento de produtos já estão usando a IA como ferramenta no dia a dia e aumentando a sua produtividade e a capacidade de lidar com problemas mais complexos. O uso pessoal da IA generativa já é uma realidade. Principalmente entre os profissionais mais jovens. Nos processos organizacionais, boa parte do atendimento a clientes está migrando para os ChatBots suportados por Modelos de Linguagem. É um salto na experiência do usuário em relação aos modelos anteriores de “Clique 1 para isso; clique 2 para aquilo…

Que capacidade têm essas máquinas?

– As máquinas agora têm a capacidade de conversar como humanos e entender sua necessidade sem a limitação de um roteiro fechado. Mas o uso em soluções corporativas ainda é limitado. A tomada de decisão com base em aprendizado de máquina depende de dados

confiáveis e sistemas integrados. Boa parte do legado de sistema das organizações é uma colcha de retalhos cheia de imprecisões. Há um bom dever de casa a ser feito antes de poder implementar soluções mais poderosas com uso de IA.

Ter um projeto bem consolidado é a primeira etapa do processo de implantação da IA. Em que nível o Brasil está nesse processo?

– A cultura do brasileiro não é muito favorável à estruturação sólida de projetos. Vivemos em um ambiente político e econômico incerto e volátil e aprendemos a nos adaptar. Nossos profissionais desenvolveram uma criatividade e flexibilidade que são muito favoráveis num momento de mudança de paradigma como esse que estamos vivendo. Isso pode nos ajudar a sair na frente e tomar a dianteira na exploração da nova tecnologia e das mudanças que ela gera. Mas algum nível de estruturação é necessário. Principalmente a estruturação estratégica. O capital que temos para investir é pequeno em comparação com as grandes empresas internacionais e o custo de capital aqui é enorme. Precisamos priorizar, com clareza, a quais problemas vamos nos dedicar e como vamos distribuir nossos parcos investimentos para deixar que as equipes criativas encontrem a melhor solução usando sua criatividade.

A IA é para qualquer porte de empresa?

– Sim e não. Há uma briga de cachorro grande para o desenvolvimento dos grandes modelos de linguagem. Competir com ChatGPT, Gemini, Claude ou DeepSeek não é para qualquer um, e os governos dos EUA e da China estão decidindo colocar dinheiro para ficar na dianteira. Mas toda empresa e todo profissional podem se beneficiar com o uso dessas tecnologias para fazer melhor ou aumentar a produtividade daquilo que já faz. Não se trata de se tornar uma empresa de tecnologia, mas de ser uma empresa suportada por tecnologia. Comparo a IA com a Internet ou mesmo com a luz elétrica. Construir uma usina hidroelétrica não é para todo mundo, mas o uso da energia mudou todo e qualquer negócio no último século.

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